E se Ms Marvel for mesmo a Chiquititas da Marvel?

Iman Vellani na premiere de Ms. Marvel em Los Angeles, em junho de 2022 (Foto: REUTERS/Mario Anzuoni)
Iman Vellani na premiere de Ms. Marvel em Los Angeles, em junho de 2022 (Foto: REUTERS/Mario Anzuoni)

A estreia da primeira série com uma jovem heroína muçulmana no Disney Plus revoltou uma parte dos fãs da Marvel pois ela seria muito infantil. Ms Marvel, a protagonista em questão, é Kamala Khan, uma adolescente que vive em Nova Jersey e descobre ter poderes cósmicos ao possuir um bracelete - enquanto isso, a menina lida com amores platônicos, professores carrascos e dilemas de amizade na escola.

O que é mais clichê e comum do que isso para uma história de super-herói? Nada, a não ser que você seja daqueles que considera que para ser herói você sempre precisa ser sombrio, adulto, pé no chão e possuir caráter e atitudes duvidosas - e é justamente essa galera que chama a nova série de infantil ou joga o rótulo de "Chiquititas da Marvel" internet a fora.

Cá entre nós, qual problema de ser como Chiquititas? Carrossel? Malhação? Todas essas novelas são símbolos da adolescência e infância de muitos adultos que hoje acompanham a evolução do gênero de super heróis como algo realmente popular, pois na época delas quadrinho era coisa de nerd recluso; a Ms Marvel, então, coitada, não sonhava existir, pois minorias tinham espaço ainda menor do que hoje na cultura pop.

Dito isso, se Kamala for tão bem recebida pelo público infantil juvenil quanto essas aí foram, acerto enorme da Marvel - e se duvidar, o acerto vira até um direcionamento mais condizente com as produções do Plus, que podem servir como uma bem-vinda renovação de público da marca.

Se for pela qualidade em si, Ms Marvel, ao menos nos dois primeiros episódios, tem tudo para ser um sucesso tão emblemático quanto Chiquititas. A começar pela direção e montagem excelentes, além do roteiro personificado em Iman Vellani, jovem estreante que domina a tela como Kamala, a primeira heroína em muito tempo de Marvel que parece… normal.

E por mais que seja cheia de apetrechos visuais, trilha moderninha e humor autorreferente, em nenhum momento a série parece distante dos dilemas comuns e atemporais de adolescentes; a estética contemporânea só faz Ms Marvel se destacar ainda mais no marasmo que é o gênero de super-heróis.

Enquanto patina para se entender no streaming, com audiência de Marvel e Star Wars de altos e baixos, a Disney pode ter achado em Kamala uma vertente que não engana ninguém quanto ao público alvo, mas ao mesmo tempo tem maturidade criativa e conexão com o restante do MCU para segurar os fãs mais “experientes”, por assim dizer. Ninguém, nem empresa nenhuma, se sustenta agradando somente uma faixa de público por muito tempo, e os estúdios que detém marcas grandes de cultura pop estão começando a entender isso - o que era inesperado é que uma espécie de Chiquititas da Marvel pudesse ser o primeiro sinal dessa renovação.