É possível viver para sempre? O que dizem os pesquisadores que estudam o fim da morte

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·7 minuto de leitura
Viveremos mais de 100 anos? (Foto: Getty  Images)
Viveremos mais de 100 anos? (Foto: Getty Images)

Por Nathan Fernandes (@nathanef)

“Os humanos estão jogando com a ressurreição. Eles querem viver para sempre”, afirma Robert Ford, personagem de Anthony Hopkins, na série 'Westworld', em um diálogo com um ciborgue criado para se passar por humano. “Eles não querem que você [o robô] seja como eles. Eles é que querem ser como você.”

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O diálogo da ficção ilustra um desejo real e antigo dos humanos: o de viver para sempre — algo que parece ganhar destaque no imaginário das pessoas, enquanto a pandemia do novo coronavírus nos lembra a todo instante da fragilidade da vida.

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Se até o final da idade média a morte era uma questão inevitável, com a chegada da revolução científica ela passou a ser só um problema técnico. “Não precisamos esperar o retorno de Cristo à Terra para superarmos a morte. Alguns cientistas em um laboratório darão conta do recado. Enquanto tradicionalmente a morte era a especialidade de padres e teólogos de batina preta, agora dela se ocupam profissionais de laboratório vestidos de aventais brancos”, escreveu, em um artigo para o jornal 'The Guardian', o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do best seller 'Sapiens: Uma Breve História da Humanidade'.

Apesar de parecer assunto de ficção científica da HBO, a imortalidade é um tema que vem ganhando cada vez mais espaço na vida real. Alguns pesquisadores arriscam até a dar um prazo para quando a morte natural vai se tornar uma opção: 2045. Segundo o engenheiro venezuelano José Luis Cordeiro e o matemático inglês David Woods, autores do livro "A morte da morte: a possibilidade científica da imortalidade" (LVM), esse é o ano em que tratamentos com células-tronco, inteligência artificial e regeneração de tecidos vão permitir que as pessoas estendam suas aposentadorias indefinidamente.

No livro, eles explicam que a largada para a imortalidade foi dada nos anos 2010, com tratamentos de longevidade, que incluem cuidados com o corpo e alimentação; já a revolução biotecnológica dos anos 2020 marcariam a segunda etapa do processo; na década seguinte, a nanotecnologia e a capacidade de rejuvenescimento seriam responsáveis por dar o pontapé no terceiro estágio, que terminaria em 2045, quando os humanos não precisariam mais temer a morte natural.

Apesar de ser acusado de charlatanismo por, entre outras coisas, dizer que tem um vínculo não comprovado com a famosa Singularity University, Cordeiro alcançou status de popstar, ao divulgar de forma simplificada temas científicos complexos, lotando auditórios com suas palestras ao redor do mundo.

Outro pesquisador que quer se eternizar no tema é o gerontologista Aubrey de Grey, autor de 'O Fim do Envelhecimento' (NTZ). Apesar de acreditar que essa revolução biomédica ainda esteja distante da realidade, em seu livro, ao olhar para o envelhecimento como uma doença a ser tratada, Grey afirma que a solução pode não ser tão complexa quanto imaginamos. E que, além de podermos viver mais no futuro, também poderemos viver melhor.

“Para intervir no envelhecimento, percebi, não era necessário um completo entendimento de todos os inúmeros processos interligados que contribuem para os danos do envelhecimento”, escreveu ele, explicando que bastaria focar nos danos do envelhecimento em si, como as lesões musculares e celulares que prejudicam o funcionamento da estrutura do corpo. “Quando percebi esta simples verdade, ficou claro que estamos muito mais próximos do que se pode parecer de soluções reais para tratar o envelhecimento como um problema biomédico, passível de ser tratado e curado.”

Os pesquisadores não estão sozinhos. Milionários do Vale do Silício também estão por trás de iniciativas que buscam o prolongamento da longevidade. É o caso dos fundadores do Google Sergey Brin e Larry Page que já investiram alguns milhões na empresa de biotecnologia Calico, que pretende “resolver a morte”. O fundador da Amazon Jeff Bezos e o co-criador do PayPal Peter Thiel também apoiam empresas que querem combater o envelhecimento, como a Unity Biotechnology. Já o empresário Elon Musk, depois de enviar um carro elétrico para o espaço, dedica parte de seus milhões a projetos de “mind uploading”, ou seja, a conexão entre mente e computador, que “liberta” o cérebro do corpo.

Apesar de estarem no início de uma busca cheia de mistérios, uma coisa é certa: os ricos, provavelmente, serão os primeiros a se beneficiar do fim da morte.

Sem data para acabar

Para o doutor em filosofia Alexey Dodsworth, esse dilema não é diferente do que acontece hoje com o acesso à saúde, em que apenas uma parcela reduzida da população pode pagar por vantagens. O problema é que, segundo ele, ser o primeiro a usar uma tecnologia incipiente não é necessariamente uma vantagem. “Quando a tecnologia se torna barata e acessível, ela já está mais segura para uso. Ou seja, os ricos podem achar que estão pagando por uma vantagem, mas, na verdade, são cobaias”, afirma ele.

No doutorado, que fez pela USP e pela Universidade de Veneza, Dodsworth desenvolveu uma tese sobre ética e metafísica do transumanismo, um movimento ao qual muitos dos milionários do Vale do Silício são simpáticos, já que defende melhorias físicas e mentais em seres humanos através do uso de técnicas como o biohacking — nome que se dá ao “hackeamento” do próprio corpo em busca de longevidade e produtividade.

É verdade que essas melhorias poderiam ser responsáveis por um eventual fim do envelhecimento e, consequentemente, da morte. Mas o movimento transumanista descarta a ideia de “imortalidade”. “A melhor definição seria ‘amortalidade’, que é uma longevidade sem data de expiração”, explica Dodsworth, lembrado que o fato de poder fazer ajustes eternos no corpo não elimina a possibilidade da pessoa ser morta em um acidente, por exemplo. É o mesmo princípio de animais como as hidras, as tartarugas Blandingii, alguns tipos de águas vivas e peixes da espécie rockfish, que possuem células com ciclo de renovação constante, ou seja, não envelhecem, e só morrem se toparem com algum predador.

Apesar da ideia de implantar membros biônicos e transplantar mentes ainda parecer distante, já existem pessoas dedicadas a entender o impacto disso, lembra Dodsworth, citando o paradoxo do navio de Teseu. O conceito propõe que, ao trocar as peças antigas de seu navio por peças novas, pouco a pouco todos os anos, depois de 50 anos, quando já tiver substituído todas as peças originais, o navio de Teseu continuará sendo o mesmo ou será uma nova embarcação?

“Se eu transfiro a minha mente para um constructo tecnológico ‘amortal’, um organismo sintético sem prazo de extinção, esse organismo continua sendo eu ou ele é apenas uma cópia de mim?”, questiona Dodsworth. “Outra coisa: faz diferença se é uma cópia? As respostas a essas questões dividem os transumanistas.”

Para Dodsworth, mesmo aqueles que criticam a ideia de tratar o envelhecimento como um inimigo são, no fundo, um pouco transumanistas. “Quando se fala em inibir a morte, muita gente fala que o homem está brincando de Deus, mas elas não acreditam realmente nisso. Tanto não acreditam que é possível que, quando confrontadas com o risco de morte, essas pessoas usem toda a tecnologia disponível para continuar existindo mais um pouco.”

Como lembra o historiador Yuval Harari, os humanos foram extremamente bem sucedidos na luta pelo prolongamento da existência. Só nos últimos 200 anos, a expectativa média geral de vida passou de menos de 40 anos para 72 no mundo todo. “A pandemia atual vai mudar as atitudes humanas em relação à morte? É provável que não. Muito pelo contrário. O mais provável é que só nos leve a redobrar nossos esforços para proteger vidas humanas, pois a reação cultural dominante à covid-19 não é a resignação — é uma mistura de indignação e esperança”, escreveu.

A mesma esperança descrita por Anthony Hopkins em uma cena de 'Westworld’, na qual ele demonstra seu apreço pela linha do horizonte vista da praia. “Cada cidade, cada monumento, as maiores realizações do homem foram perseguidas por isso (...) essa linha impossível onde as ondas conspiram para retornar”, disse o ator. Se é verdade que ninguém nunca alcançou essa linha imaginária, também é verdade que ela inspirou grandes avanços.