Você está preparado para autoconfiança e empoderamento de Rayssa Leal e sua geração?

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Rayssa Leal ganha medalha de Prata nas Olimpíadas de Tóquio (Foto: Getty Images)
Rayssa Leal ganha medalha de Prata nas Olimpíadas de Tóquio (Foto: Getty Images)

Em Tóquio, Rayssa Leal, a Fadinha, fez dancinha durante a competição da categoria skate street feminino e era só tranquilidade e foco. Depois, com a mesma desenvoltura, subiu ao pódio para receber a medalha de prata. Só sorrisos, aos 13 anos ela se tornou a medalhista Olímpica mais jovem do Brasil. O país inteiro, de repente, se viu encantado com uma pré-adolescente que demonstrou mais coragem que muito marmanjo por aí, não é mesmo? Mas, por mais incrível que seja Rayssa, por mais merecida que seja a medalha, fica no fundo da garganta a pergunta: será que o mundo está preparado para meninas como ela?

O questionamento parece doído e é. Ele tem um motivo. A geração Z está vindo com tudo e já se mostra tão diferente das anteriores que é quase difícil acompanhá-la. Ela tem uma relação diferente com a internet - apesar de correr atrás de relações instagrammáveis -, quer consumir com propósito, tem uma relação nova com a autoimagem e já nasceu num mundo borbulhando de questões sociais e pedidos de mudança.

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Ao ver Rayssa em Tóquio, a impressão que temos dessas meninas é que estão chegando ao cenário público com outra cabeça, uma cabeça tão à frente do tempo que é possível que o resto do mundo ainda não esteja preparado para elas. Pensamos, por exemplo, em Greta Thunberg, que aos quase 18 anos tomou para si a crise ambiental em um nível que fez até o presidente Jair Bolsonaro se manifestar a respeito (com desdém, claro) nas redes sociais.

Emma González é outro exemplo. Hoje, aos 21 anos, se tornou há três o rosto do movimento antiarmas nos EUA, sendo a líder de uma série de protestos que pediam o desarmamento da população.

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Entre o esporte e o desarmamento de uma nação, parece haver um gap gigantesco. Mas a verdade é que seja em um ambiente, seja no outro, estamos vendo surgir uma geração de meninas e mulheres que têm visões e valores muito diferentes dos nossos, a geração millennial, que chegará em breve a ocupar o maior posto no mercado de trabalho ativo no mundo. Entre nós, é fácil perceber a necessidade de mudança para aceitar meninas que, no futuro, serão mulheres muito mais desconstruídas do que as que vemos agora.

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Se hoje mulheres millennials ainda precisam se preocupar em quebrar barreiras criadas por ideias antigas, que, muitas vezes, as transformaram em indivíduos inseguros sobre as suas próprias capacidades intelectuais e aparência física, será que o mesmo acontecerá com essas jovens, caso algo, de fato, não mude?

Uma pesquisa desenvolvida em 2018 pelo Linkedin sobre percepção de gênero demonstrou que os homens se sentem aptos a se candidatarem para uma vaga de emprego quando correspondem a apenas 60% dos pré-requisitos da vaga. Para as mulheres, esse valor sobre para 100%. E esse é apenas um dos efeitos gerados por décadas e décadas de um sistema machista e patriarcalista.

Ainda hoje, os números de estupros e de violência doméstica no Brasil são altíssimos, e há de se questionar se essa é uma das heranças que serão deixadas para essas meninas. O número mais assustador que se tem conhecimento vem do Anuário de Segurança Pública, que diz que uma mulher é estuprada a cada 8 minutos por aqui. A violência continua, em parte, por uma questão cultural. Mas, de outro lado, ainda lidamos com a impunidade, também um reflexo dessa cultura.

Com a carga mental das mulheres hoje - dividindo a atenção entre o trabalho, os cuidados com a casa e com os filhos -, elas ainda precisam enfrentar a síndrome de impostora, uma das maiores representantes da disparidade de gênero. Já foi comprovado que, apesar de não ser uma patologia oficial, a sensação de incapacidade ou de incompetência afeta mais as mulheres do que os homens. Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade da Geórgia, por exemplo, detectou que 70% das mulheres executivas entrevistadas se sentem "uma fraude".

Isso é, sim, o resultado de uma questão cultural que, de novo, ainda hoje mostra os seus efeitos. As mulheres entraram depois no mercado de trabalho e precisaram "correr atrás do prejuízo". Isso, claro, quando olhamos para as mulheres de forma abrangente, sem o recorte racial. As mulheres negras sofrem ainda mais com essa entrada tardia no mercado, considerando ainda o seu grau de escolaridade - comumente mais baixo que o das mulheres brancas.

Então, há de se questionar se o mundo está preparado para receber garotas como Rayssa, que dão um show do que é poder, confiança e segurança em si mesmas, apenas com 13 anos - ou se elas serão, no futuro, como as mulheres millennials são agora, vivendo um conflito entre o "posso tudo" e "duvido que posso tudo". A gente só pode esperar pela mudança, claro. Mas é bom que seja rápido, pois Rayssa não parece ser o tipo de mulher que espera por ninguém.

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