“É impossível pensar numa política de prevenção à AIDS sem a escola”, diz diretor de doc sobre HIV no Brasil

André Canto, diretor do documentário ‘Carta Para Além dos Muros’, previsto para abril de 2019 (Imagem: divulgação Canto Produções)

O projeto do documentário ‘Carta Para Além dos Muros’ nasceu de uma apreensão do diretor, André Canto. “Eu cresci com uma sensação de que pelo simples fato de ser gay eu estava condenado a um dia me infectar com o vírus HIV e a desenvolver AIDS. Sempre foi uma relação de muito medo com esse tema”, revela, em entrevista ao Yahoo!

Nesta sexta-feira, véspera do Dia Mundial de Combate à AIDS, o filme divulga seu primeiro trailer (veja no final do texto). O lançamento nos cinemas está previsto para abril de 2019.

Mais de três décadas após o surgimento da doença, que causou a morte de milhares de pessoas, desinformação, medo e preconceito ainda rondam o assunto, visto como tabu. “As pessoas acham que HIV ainda é uma coisa só de homossexual ou de profissionais do sexo. Além disso, há quem ainda ache que o vírus pode se transmitido por aperto de mão, pelo beijo, por beber água no mesmo copo”, diz.

Se por um lado, ser diagnosticado com o vírus HIV não é mais uma sentença de morte, graças aos remédios que controlam a enfermidade e são distribuídos no Brasil de forma gratuita, o número de infectados se mantém o mesmo desde 1996. De acordo com a pesquisa levantada por Canto, são 40 mil brasileiros por ano que contraem a doença.

Além do índice, o que pouco mudou foi a forma como os portadores são vistos. “A percepção que se tem do HIV e da AIDS hoje em dia ainda é muito próxima àquela que se tinha 30 anos atrás, de que era uma doença letal. Porém, os avanços no tratamento e os avanços na prevenção colocam a síndrome num lugar que não dialoga com esse pânico”, compara.

O cineasta cita ainda casos hoje comuns em que a carga viral no portador é indetectável, ou seja, não existe risco de ser transmitida nas relações sexuais.

Reprodução de matéria de jornal dos anos 80, incluída no filme (Imagem: reprodução YouTube @Carta Para Além dos Muros)

A discussão corre o risco de retroceder algumas casas caso a educação sexual seja proibida nas escolas, ideia que vem sendo ventilada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro e seus principais aliados. Canto mostra-se preocupado com esta hipótese. “É impossível pensar numa política de prevenção à AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis sem o papel da escola. Dizer que a família é a responsável por estas orientações é colocar a saúde dos nossos jovens em risco”, define.

“Somente pessoas preparadas e profissionais, munidas de informações, podem esclarecer e informar jovens”, ressalta. “Claro que o papel da família é importante. Mas a gente sabe que nem todas estão preparadas para isso. A maioria não está”.

O roteiro de ‘Carta Para Além dos Muros’ foi escrito pelo diretor em parceria com Gustavo Menezes, Ricardo Farias e Gabriel Estrela, este um portador do HIV que é dono do canal do YouTube Projeto Boa Sorte, no qual faz vídeos procurando desmistificar a doença. O filme traz depoimentos de personalidades como José Serra, ex-ministro da saúde, Dr. Dráuzio Varella, Lucinha Araújo, mãe de Cazuza.

Numa das cenas do trailer, Lucinha fala sobre a polêmica capa da Veja em 1989, estampando uma imagem chocante do cantor já bastante afetado pela doença e com a chamada “Uma vítima da AIDS agoniza em praça pública”.

“Grande parte do estigma e do preconceito vem dessa ideia e desse medo que a pessoa que vive com HIV é o transmissor de uma doença. Se a gente olha para a iconografia durante toda a história, a pessoa é colocada como um pária da sociedade”, lembra Canto, antes de fazer um alerta: “Temos que pensar em outras formas de abordar o assunto. O medo não está resolvendo a questão da epidemia”.