É impossível justificar o gasto de R$ 8 mil no novíssimo Galaxy S20 Ultra

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Por Rodrigo Ghedin (@manualusuariobr)* — De tempos em tempos, a indústria nos surpreende com um invento que revoluciona ou, no mínimo, mexe com as nossas vidas. São eventos raros. No geral, convivemos com mudanças incrementais, melhorias menores que expandem as capacidades dos produtos e/ou diminuem seus custos, tornando-os mais acessíveis.

O mercado de celulares exemplifica muito bem esses dois movimentos. Em 2007, o lançamento do iPhone original foi o marco fundacional de uma revolução para a humanidade. Nos anos que se seguiram, centenas de fabricantes, com a ajuda do Android do Google, popularizaram aquela tecnologia, levando produtos cada vez melhores e mais baratos a mais gente. Hoje, somos bilhões de pessoas com um celular na mão.

Passamos por uma década de alinhamento quase perfeito entre indústria e comércio. As fabricantes desenvolviam celulares cada vez melhores, as lojas os vendiam a rodo e cada vez mais pessoas se tornavam consumidoras desse tipo de produto. Em 2018, faltou gente para manter as engrenagens girando. Literalmente: pela primeira vez, o mercado de celulares se retraiu simplesmente porque a maioria das pessoas elegíveis a ter um já o tinha. Contribuiu, também, o fato de que os modelos então recentes eram tão bons que os saltos geracionais ficaram menores e trocá-los pelos imediatamente seguintes deixou de ser um anseio generalizado.

Foi nesse momento que surgiu uma nova faixa de preço no topo da cadeia, a dos celulares de US$ 1 mil. (A conversão direta para o real nunca é perfeita, então me aterei a valores em dólar para defender o argumento.) Até então, novos iPhones e os principais topos de linha das fabricantes Android chegavam ao mercado custando cerca de US$ 700. O iPhone X, de 2017, inaugurou a nova categoria dos quatro dígitos com um objetivo bem claro: descobrir quanto aquele consumidor que gosta de ter o melhor da tecnologia, uma minoria que representa o grosso da lucratividade das empresas do setor, estava disposto a gastar.

O teste foi um sucesso. Em todas as semanas seguintes ao lançamento do iPhone X, um celular de US$ 1 mil (R$ 7 mil no Brasil), ele foi o modelo mais vendido da Apple. Assim, não demorou muito para as fabricantes Android seguirem o mesmo caminho, um aparentemente sem volta.

Nesta quarta-feira (11), o Galaxy S20 Ultra foi anunciado no Brasil pelo preço inicial de R$ 8 mil. O consumidor que quiser a versão mais parruda, com 512 GB de espaço e 16 GB de RAM, precisa deixar R$ 8,5 mil na loja. Nos Estados Unidos, base do nosso argumento, apenas o segundo modelo está à venda, por US$ 1,4 mil. Vale?

É difícil encontrar argumento racional para responder a essa pergunta com um “sim”. É verdade que a Samsung entupiu o S20 Ultra de números enormes, incluindo 16 GB de RAM e uma (talvez desnecessária?) câmera com zoom de 100 vezes. Para que alguém precisaria de um zoom desses na câmera do celular? Pensei muito em algum caso de uso que justificasse o exagero, sem sucesso. Não importa. O que conta, em aparelhos tão caros, é pura e simplesmente ser maior que os celulares comuns, ter números superlativos para justificar valores tão elevados.

No Brasil, há ainda o agravante de que a tecnologia carro-chefe da linha Galaxy S20, o suporte às redes 5G, se perdeu no processo de localização feito pela Samsung. É uma decisão sensata, visto que a implantação do 5G no país ainda levará pelo menos mais um ano para começar, mas que enfraquece o argumento de venda — e a longevidade — desses aparelhos caríssimos.

Os preços dos celulares topos de linha continuarão subindo enquanto derem retorno. Em outras palavras, se há demanda por celulares de US$ 1,4 mil, a indústria vai preencher essa lacuna. Os celulares com telas dobráveis, com preços tão ou mais caros que os do S20 Ultra, que o digam: eles esgotam. Ainda que sejam lotes limitados, é um indicativo incipiente de que a demanda existe. Por outro lado, o Apple Watch de primeira geração banhado em ouro, que começava em US$ 10 mil, deixou de existir na geração seguinte. Nesse sentido, “o consumidor sempre tem razão”.

Não são muitos os consumidores que têm tanto dinheiro sobrando para ser torrado em celulares que, a menos que você seja um tipo esquisito que gosta de tirar fotos escondido à distância, na prática faz as mesmas coisas que... sei lá, um Galaxy S10 ou qualquer modelo da linha Galaxy A na faixa dos US$ 500–700.

O mesmo vale para o lado da Apple. Em 2019, segundo a consultoria Counterpoint Research, o celular mais vendido do mundo foi o iPhone XR, de 2018, com preço sugerido de US$ 749. O segundo lugar ficou com o iPhone 11, seu sucessor ligeiramente mais barato, de US$ 699. Apesar da liderança, juntos eles responderam por 5,1% das vendas globais. São os celulares baratinhos, em maior número, que movem o mundo no fim do dia. Como o líder de vendas da América Latina e quarto lugar no mundo inteiro, o Galaxy A10. Preço sugerido nos EUA? US$ 130.

Avanços nos laboratórios de P&D e dos processos de fabricação concebem produtos melhores e/ou mais baratos. Ao consumidor consciente, é uma época interessante para focar nos produtos mais baratos. Linhas intermediárias, como a referida Galaxy A, a Moto G da Motorola e a Redmi Note da Xiaomi, trazem hoje recursos avançados, múltiplas câmeras de qualidade decente e preços pé no chão.

São aparelhos próximos do ticket médio brasileiro para celulares — no terceiro trimestre de 2019, de R$ 1.165, segundo a consultoria IDC. Mesmo para quem prefere o iOS há alternativas aos iPhones de US$ 1 mil. Modelos de anos anteriores, mas que mantêm desempenho satisfatório, barateiam com o passar do tempo. E o vindouro “iPhone 9”, que resgata o visual meio datado do iPhone 6, mas com entranhas atualizadas com componentes de 2020, deve chegar em meados deste ano seguramente custando menos que o iPhone 11, caso os rumores se confirmem.

Afinal, a dor no bolso de quem adquire um desses novos super celulares pode durar meses, até anos, mas o gostinho de ter o melhor tem prazo para acabar: daqui a no máximo um ano, a Samsung apresentará o Galaxy S30 Hiper ou qualquer coisa do tipo que poderá até não ser tão caro quanto o S20 Ultra, mas, definitivamente, será mais rápido e terá câmeras mais avançadas.

*Rodrigo Ghedin é comunicólogo formado pela Universidade Estadual de Maringá e jornalista. Fundou e edita o Manual do Usuário, uma publicação de tecnologia “slow web”.