"É empolgante e assustador", diz brasileira que construiu vida nova na Coreia do Sul

Paloma Sernaiotto (Foto: Instagram / Paloma Sernaiotto)
Paloma Sernaiotto (Foto: Instagram / Paloma Sernaiotto)

A Coreia do Sul é pop. Ou melhor, é K-Pop. Com o boom do hallyu, a onda coreana que tem assolado o Ocidente, o país entrou no radar dos turistas (e, principalmente, das jovens adolescentes). Mas o que pouco se sabe é a realidade de viver em um país culturalmente tão diferente do Brasil.

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Paloma Sernaiotto sempre foi fascinada pela Ásia e teve a oportunidade de ir pela primeira ao país em 2015, quando conseguiu uma bolsa de estudos para ficar por lá por 10 meses. Durante o curso, conheceu seu atual marido, e, hoje em dia, tenta vir ao Brasil todos os anos para visitar os amigos e familiares - mas a vida começou e continua do outro lado do mundo.

Dificuldades, ela conta, são as mesmas de qualquer pessoa que se propõe a viver em um país diferente de onde nasceu. "O choque cultural, por mais que em menor intensidade ao longo dos anos, ainda existe. Eu já me acostumei com a cultura local, sistema de transporte, burocracias e como a vida funciona aqui, mas ainda sinto dificuldade em entender a forma como eles lidam com muita coisa", diz ela.

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Paloma, vê na língua local a maior barreira à comunicação e adaptação na Coreia. "Estudar coreano com 30 anos é um baita desafio!", brinca. Mesmo com o nível básico, mais o inglês fluente, ela diz que ainda "sacrifica algumas coisas" apenas por não saber se comunicar com os nativos. "Os desafios seriam menores se eu dominasse o idioma, certamente".

Um dos pontos da vida de Paloma que mais desperta a curiosidade é o casamento com um coreano. Ela, que também é conhecida como Loma na internet, é blogueira das antigas e tem uma presença online difícil de ignorar. E, com a ascensão do K-Pop e dos idols, os artistas da indústria de entretenimento coreana, entender como se relacionar com alguém do país virou a preocupação número 1 de muitas pessoas interessadas na vida por lá.

"Meu marido é uma pessoa muito paciente, eu até chamo de ‘deboísta'. Isso facilita demais nossa comunicação (que acontece majoritariamente em inglês) e cotidiano", explica. Paloma, claro, diz que não pode falar por todos, mas sente que deu sorte pela família do marido ser bastante compreensiva e paciente, diferente das famílias muito tradicionais do país, que podem dificultar um pouco a convivência - ainda mais no relacionamento de coreanos com mulheres estrangeiras.

"Acho que comunicação é tudo, em qualquer departamento da vida, e por mais complicado que seja entender como eles pensam e lidam com problemas, comunicar resolve quase tudo. Eu aprendo todo dia!", diz.

Empresária no estrangeiro

Mesmo com algumas dificuldades no caminho, Paloma promete ir longe na Coreia do Sul. Atualmente, ela participa do projeto de incubação de startups oferecido pelo Seoul Global Business Center, que deu a partida no seu projeto de lançar uma marca de beleza, a urGlow.

"É empolgante e assustador - principalmente devido a barreira linguística. Alguns processos que eu seria capaz de resolver sozinha, talvez em minutos, no Brasil, eu posso levar dias e envolver 3 pessoas por aqui, por não compreender a língua ou entender o sistema", diz ela.

O desafio, aqui, vai além da barreira linguística e das burocracias, muitas vezes diferentes e mais exigentes do que no Brasil. Há também a questão cultural. Aa Coréia é um país pequeno, geograficamente falando, e passou por um grande boom econômico - por isso, a competição por trabalho e a valorização da mão de obra local é tão grande por lá.

Se você não sabe, aí vai um pouco de história: há pouco mais de 50 anos, a Coreia do Sul era um país tão pobre que estava, inclusive, atrás do Brasil no ranking mundial de desenvolvimento - a renda dos brasileiros era até duas vezes maior que a dos coreanos. Só no final da década de 1940, depois do fim da dominação japonesa e do conflito que gerou a divisão da península entre Coreia do Norte e do Sul, o país elegeu seu primeiro presidente. Ele fez um trabalho pesado de investimento interno, incentivado pelas famílias ricas locais, e começou a trazer o país para o status que tem hoje.

Voltando à Paloma, ela explica que, por conta desse boom, são poucas oportunidades para estrangeiros no mercado coreano, e o fato da língua nativa do brasileiro ser o português também é um empecilho - fica difícil encontrar empregos como professor de inglês, por exemplo.

O fato de ser mulher também é outra história. Em um país muito patriarcal, em que o casamento nos moldes tradicionais ainda é altamente valorizado, o papel das mulheres gera muitos debates. O feminismo tem começado a despontar por lá, e as gerações mais tradicionais estão envelhecendo, o que dá mais espaço para os jovens questionarem os antigos padrões e gerarem mudanças no sistema.

"Mas é muito claro, em cenários micro e macro por aqui, que ser mulher e ser estrangeira te colocam em uma posição bem injusta na largada", diz ela.

A produtora de conteúdo e empresária prefere não comentar diretamente sobre casos de machismo e xenofobia que vivenciou, porque acredita que não é justo moldar a opinião sobre um país com base em casos isolados, mas já passou por experiências que demonstram como a Coreia ainda precisa se atualizar na relação com estrangeiros. "Já ouvi uma senhora gritar no ônibus que eu deveria voltar para o meu país. E já aconteceu de um senhor de idade gritar para o meu marido dentro do metrô que ele não deveria estar com uma estrangeira", relata.

Ela explica que os dois casos geraram um impacto porque foram totalmente repentinos e inesperados, e ela não soube como lidar com eles no momento. A boa noticia é que também existe um outro lado para toda história: "Também já recebi tanto gesto de carinho e apoio de pessoas estranhas, pelo simples fato de ser estrangeira, que faz com que esses pequenos momentos difíceis fiquem pra trás".

Como empresária, ela espera conseguir, por lá, exercer a sua criatividade e desenvolver soluções para as pessoas - algo que já fazia com a sua empresa, o sernaiotto.com, no Brasil. "Aqui na Coreia eu queria poder fazer o mesmo, e percebi que o público brasileiro que gosta de beleza coreana tem pouco acesso aos produtos e informações daqui. O meu objetivo com a startup foi desenvolver essa ponte".

Fora isso, ela acredita na possibilidade de construir um ambiente que colabora para as mudanças que já despontam por lá. "Eu tenho muita vontade de construir um ambiente criativo, sustentável e seguro, que valorize a mulher e dê oportunidade para estrangeiras aqui na Coreia", diz.

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