Dudu do Palmeiras e a violência contra mulher: ídolos vão além de suas atuações

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·4 minuto de leitura
Precisamos falar sobre a violência contra a mulher de uma maneira mais ampla (Foto: Reprodução/Instagram@7_dudu)
Precisamos falar sobre a violência contra a mulher de uma maneira mais ampla (Foto: Reprodução/Instagram@7_dudu)

Por Aline Nobre (@linesnobre)

Torcedora fanática do Palmeiras, nos últimos dias me peguei em uma linha tênue entre a expectativa, ou melhor, a idolatria por um jogador de futebol e a realidade. Na última semana o atacante Dudu do Palmeiras, foi acusado de agredir sua ex-mulher, Mallu Ohana, com quem foi casado por 11 anos e tem dois filhos.

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O jogador e Mallu teriam se desentendido e Dudu teria agredido ela com socos na cabeça, no peito e puxão de cabelo. Fora o horror de uma possível situação de violência contra a mulher, acabei enxergando algo que me doeu demais: o torcedor que acha que o futebol está acima de tudo e todos. O relato de Mallu foi longe de ser recebido com solidariedade e apoio que merecia, e me vi incrédula — para dizer o mínimo — sobre a possibilidade de ter como ídolo do meu time um cara que supostamente bate em mulher.

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Desde pequena a minha paixão pelo futebol e especificamente pelo Palmeiras sempre despertou interesse e olhares desconfiados. Cresci vendo meu pai viver e respirar por esse time, e literalmente foi um amor passado de pai para filha e ouso dizer que nem mesmo meu próprio pai levava a sério a minha adoração pelo time.

Com o passar dos anos minha paixão pelo verdão só cresceu. Mas esse sentimento forte nunca me fez ser mais ou menos respeitada como torcedora. Perdi a conta de quantas vezes minha mãe me dizia que futebol era coisa de menino, mas neste momento vejo que isso pouco importa quando vemos o machismo - mais uma mazela social - mascarado (ou não) no futebol e em tudo que o cerca.

Não vale tudo por um ídolo

Em uma publicação no perfil da agremiação no Instagram, a enxurrada de comentários de homens que estavam ignorando as supostas acusações contra Dudu e apoiando sua permanência no clube eram inúmeras. Comentários inclusive ameaçadores.

E aqui não se trata de condenação prévia, mas sim de se posicionar contra a violência doméstica. Sou total a favor do pensamento de que “até que se prove o contrário todos são inocentes”. Mas a questão aqui é extremamente grave. Até onde tem que ir o seu amor pelo futebol, pelo seu time, pelo seu ídolo? Até o ponto de você ignorar o amor ao próximo, o respeito, a solidariedade? Você supostamente apoiar agressões contra as mulheres, a taxação eterna das mulheres que se envolvem com jogadores como interesseiras e marias-chuteiras? Pensar que o que importa é o que o jogador vai fazer pelo seu time e dane-se o que ele faz fora de campo?

O motivo da vergonha por ser torcedora de um time que pode estar passando pano para um suposto agressor, e fazer parte de uma torcida com uma parcela de pessoas tão desalmadas precisa sim ser discutido. Precisamos entender que nossos ídolos não podem apenas serem cobrador por suas atuações dentro de campo, honrando o time, conquistando títulos, eles também precisam ser exemplos na vida. Não vale tudo por um ídolo, muito menos o desrespeito a uma pessoa e fazer com que supostas vítimas sejam questionadas.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) destaca que os casos de feminicídio cresceram 22,2%,entre março e abril deste ano, em 12 estados do país, comparativamente com 2019. As informações são da Agência Brasil.

O futebol fecha os olhos para o machismo e contribui para a desvalorização das mulheres, fazendo com que os agressores sejam absolvidos. Basta você olhar ao seu redor e constatar. O que aconteceu com Bruno Fernandes, ex-goleiro do Flamengo? Foi condenado pelo assassinato de Eliza Samúdio, já está em casa cumprindo prisão domiciliar e continua recebendo propostas de clubes. Ou um caso mais recente, do Jean, era jogador do São Paulo, assumiu ter agredido a esposa e já está empregado no Atlético-GO.

Seja Dudu julgado culpado ou inocente a violência contra a mulher é real e não para de fazer vítimas. Precisamos cobrar posicionamento digno dos dirigentes dos clubes, dos jogadores e torcedores para que mulheres parem de morrer. A violência não é só física, ela tem danos mentais e comportamentais. Todos nós perdemos.