Drummond se queixava do peso da alma em cartas inéditas, que inspiram peça

ÚRSULA PASSOS
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em agosto de 1950, Carlos Drummond de Andrade foi ao cinema ver "Ladrões de Bicicleta". Achou o filme desolador e saiu da sessão "com um peso na alma". Ele conta a experiência numa carta a Zuleika Castro Moreira. Quando tinha 18 anos, o filho de Moreira recebeu da tia as cartas que Drummond enviou a sua mãe, morta pouco tempo antes. Agora, passados mais de 60 anos, o filho, o ator Roberto Frota, transformou em peça de teatro uma parte do diálogo epistolar. "Cartas a uma Jovem Poeta" é um monólogo virtual e ao vivo de Frota -que trabalhou em novelas como "Vale Tudo", "Tieta" e a recente "Éramos Seis". Ele, isolado em sua casa no Rio de Janeiro, lê algumas dessas cartas do amigo célebre da mãe, entrecortadas pela voz da atriz Denise Weinberg, que gravou poemas de Zuleika Castro Moreira. Quando Frota tinha seis anos, sua mãe, pintora que estudou na Escola Nacional de Belas Artes, foi enviada a um sanatório com tuberculose. Ali, Moreira ficou por dez anos, afastada do marido, dos dois filhos, da família e dos amigos. Frota conta que, lendo o que a mãe escrevia, percebe uma amargura, uma decepção com a vida. "Uma jovem mulher, com 30 e poucos anos, arrancada do convívio da família, isolada", diz ele, que pôde, com o irmão, visitar a mãe só uma vez naqueles dez anos e ainda a viu só de longe. "Tem uma poesia dela em que ela diz que se sente como se estivesse embarcando num navio para uma viagem e a bagagem tivesse ficado no porto, era a sensação que ela tinha", diz Frota. Impedida de pintar, porque diziam que a tinta faria mal a seu pulmão, escrevia poemas. A irmã, amiga de Drummond, mostrou ao poeta itabirano seus escritos, enviados em cartas. A partir daí, em 1949, uma amizade a distância se desenvolveu entre os dois . A festa em celebração à alta do sanatório está na peça. Promovida pela avó de Frota, reuniu muita gente no Rio de Janeiro, e Drummond foi convidado. O que a mãe de Moreira, porém, não sabia era que o poeta e a filha haviam combinado em suas cartas que nunca se conheceriam fisicamente. "Virou lenda familiar", diz Frota sobre a festa. "Sempre me contaram que naquela noite os dois ficaram extremamente constrangidos, cada um num canto da sala." Pouco tempo depois de deixar o sanatório, porém, Moreira morreu. A irmã guardou as cartas recebidas, depois entregues a Frota, como num ritual de maioridade. O ator manteve as cartas inéditas. Segundo ele, achava que elas diziam respeito à privacidade de sua mãe e de Drummond. Mas, depois que muitos amigos o incentivaram, resolveu transformar as mensagens em teatro. Em 2019, "na época em que ainda se subia aos palcos", a ideia era que seus amigos Othon Bastos e Camila Amado vivessem Drummond e Moreira, ao passo que Frota faria um elo entre os dois. "Fui entendendo a importância das cartas conforme eu fui ficando adulto e maduro, porque com 18 anos eu não fazia a menor noção da dimensão delas", diz Frota. "Aos poucos, entendendo a vida, e agora, que eu cheguei aos mais de 80, é que eu pensei que isso é muito precioso culturalmente." Mas aí veio a pandemia. O projeto teve de ter uma dramaturgia que coubesse nas restrições impostas pelo isolamento social, o que foi pensado com o diretor Marcos França. O resultado é uma incorporação de Drummond por Frota que transforma as cartas, que falam de reformas da casa, da alegria da mulher do poeta em ser avó e de conselhos sobre escrita, em trechos de uma conversa animada da qual só ouvimos um lado. Frota não encontrou as cartas escritas pela mãe. Já procurou no acervo do poeta na Casa de Rui Barbosa, já perguntou à família e aos representantes que tomam conta dos direitos de Drummond. Não desistiu. Diz que após a temporada do espetáculo pretende voltar à busca e que quer escrever um livro sobre as trocas de cartas e montar uma outra peça, com os diálogos completos. Ele guarda poesias e desenhos da mãe. Parte desse acervo sofreu, há alguns anos, um ataque de cupins. É a partir do que restou que se constrói, na peça, a voz de Moreira. Hoje, com a internet, estamos distantes do mundo das cartas que permitiu a Moreira manter o contato com o mundo fora do sanatório. Mas, para Frota, não foi apenas o nosso modo de nos comunicar que mudou. "O que vem mudando mesmo é a nossa disponibilidade de abrir nosso interior para o outro perceber", diz ele. "Escrevemos muito mais, mas não dizemos muita coisa. Nunca digitamos tanto, mas será que nos comunicamos tanto? Eu acho que não." Ao final do espetáculo, Frota fala sobre momentos de beleza, necessários nestes tempos pelos quais passamos. "Estamos vivendo um momento em que só se vê feiúra e horror", diz ele na entrevista. "Eu posso dar minha contribuição mostrando uma coisa bonita, fazendo uma resistência a esse negacionismo, mostrando que a vida anda com a beleza e com a poesia." CARTAS A UMA JOVEM POETA Quando sex. e sáb., às 21h; dom., às 18h; de 19 de março a 11 de abril; em libras dias 5 e 12 de abril, seg., às 21h Onde pelo site Sympla Preço de R$ 10 a R$ 50 (por cotas) Classificação livre Elenco Roberto Frota e Denise Weinberg Direção Marcos França