Droga Annita não reduz sintomas de Covid-19, mostra estudo do governo

PHILLIPPE WATANABE
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Brazilian President Jair Bolsonaro (L) and his Chief of Staff General Walter Souza Braga Netto attend an event to announce the clinical study of the use of Nitazoxanide in an early treatment against COVID-19, at Planalto Palace in Brasilia, on October 19, 2020. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Bolsonaro e Braga Netto no evento de lançamento do estudo sobre a nitazoxanida (EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Segundo estudo financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, o uso do antiparasitário nitazoxanida (também conhecida pelo nome comercial Annita) contra a Covid-19 teve resultado similar ao do placebo. Mesmo assim, a pesquisa foi motivo de cerimônia com presença do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) - no evento, um gráfico genérico dizia que a droga era eficaz e poderia ajudar no combate à pandemia.

"Em resumo, nós temos agora uma ferramenta que o Ministério da Saúde pode utilizar para ajudar a salvar vidas", disse Pontes, no evento no último dia 19. "Dá para ter uma noção do que estamos anunciando aqui hoje, né? Nós estamos anunciando algo que vai começar a mudar a história da pandemia."

Os resultados do estudo, disponibilizado em pré-print (ou seja, ainda não publicado e revisado por outros pesquisadores), são significativamente mais modestos do que os citados por Pontes.

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Segundo médicos e pesquisadores ouvidos pela reportagem, a conclusão da pesquisa não muda o cenário atual e não deve significar uma guinada no combate ao novo coronavírus.

Os próprios autores da pesquisa foram mais cuidadosos que o ministro ao apresentar o resultado observado. "Em pacientes com Covid-19 moderada, não houve diferença na resolução dos sintomas, após cinco dias, entre os grupos que usaram nitazoxanida e os que tomaram placebo", escreveram.

Mas, também segundo a pesquisa, a droga é segura para pacientes com Covid-19 e leva à redução da carga viral, o que era considerando um resultado secundário, de acordo com o desenho da pesquisa.

Essa diminuição foi um dos únicos detalhes destacados na cerimônia da qual participaram Pontes e Bolsonaro. O problema é que a redução da carga viral não significa muita coisa sozinha. Como o próprio estudo concluiu, isso não se traduziu em abreviação dos sintomas da doença.

A pesquisa, financiada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia via CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), foi feita com 475 pacientes adultos com Covid-19 e tinha como objetivo verificar se a nitazoxanida ajudava na diminuição de tosse, febre e fadiga. Não ajuda, diz a pesquisa.

Apesar de randomizado, multicêntrico e duplo-cego (ou seja, que divide os pacientes em grupos aleatórios, que não sabem se estão tomando o remédio ou placebo, todas características que aumentam a sua qualidade metodológica), o estudo apresenta uma série de limitações, reconhecidas pelos próprios autores.

Para começar, não foi feita uma análise mais ampla dos efeitos da droga, mas apenas de três sintomas da Covid-19. Os pacientes foram acompanhados por apenas cinco dias.

Além disso, somente os participantes que continuaram com sintomas (49 dos que tomavam nitazoxanida e 46 do grupo controle) foram acompanhados por mais tempo. Por último, não é possível saber se a medicação foi adequadamente tomada, seguindo as orientações passadas pelos autores da pesquisa.

"O resultado principal é que não teve diferença entre os dois grupos no desfecho primário", diz Natália Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, que aponta outros problemas metodológicos na pesquisa, como exclusões de participantes do estudo depois da randomização, o que poderia enviesar os resultados. Os autores da pesquisa excluíram pacientes que, por exemplo, apresentaram efeitos adversos e foram hospitalizados.

A pesquisadora critica a forma como foi feito o acompanhamento só de pacientes com sintomas após cinco dias. Segundo ela, isso pode enviesar o resultado.

"O único desfecho positivo que eles tiveram foi carga viral, que não tem relevância clínica e epidemiológica", diz a pesquisadora.

O anúncio feito por Bolsonaro e Pontes, além de inflar os resultados da pesquisa, tinha pelo menos outro erro. "Conversei com ele [Pontes] também e ele me disse que, dessas pessoas que usaram esse medicamento [nitazoxanida], nenhuma pessoa foi sequer hospitalizada", disse Bolsonaro.

A afirmação não é verdadeira. Segundo os dados do estudo, cinco pacientes que tomavam nitazoxanida foram hospitalizados pela piora clínica e dois foram internados em UTI.