Drake é principal atração do Rock in Rio, que começa nesta sexta com curadoria conservadora

LUCAS BRÊDA
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ - 24.09.2019: Rock In Rio promove a coletiva de imprensa para apresentar em primeira mão à Cidade do Rock e evento teste que conta com uma programação nas áreas de atrações do Rock in Rio 2019. (Foto: Cristiane Mota/Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1799715 ORG XMIT: AGEN1909242117123251

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Da mesma forma que o Lollapalooza, que trouxe Kendrick Lamar no primeiro semestre, o Rock in Rio tem como principal novidade a presença de um rapper. Drake, canadense que vem colecionando recordes no streaming nos últimos anos, faz sua estreia no Brasil, num line-up que repete atrações já bem conhecidas do público carioca - fator central para o fato de os ingressos não terem se esgotado às vésperas do evento.

Uma aposta desta dimensão no rap também é inédita para o Rock in Rio, que começa nesta sexta-feira (27) e vai até 6 de outubro, com três dias de intervalo entre a primeira e a segunda leva de shows. 

Se tivesse a rapper Cardi B, que chegou a ser anunciada mas cancelou sua vinda, a investida seria ainda maior no gênero, em alta no mundo.

Até por isso, esta será a escalação com maior presença de negros na história do evento, e por uma boa margem. Mas o feito não se repete com as mulheres, que já tiveram muito mais destaque em outros anos de festival.

Os shows de rap ganham complemento com um aceno inevitável ao funk. A maior figura é Anitta, que começou como funkeira e hoje é uma cantora pop que ainda usa a estética -sonora e visual- do gênero em seus trabalhos. Pedida pelo público em 2017, ela finalmente estreia no Rock in Rio e no palco principal.

Se o Lollapalooza viu o funkeiro Kevin o Chris levar a plateia à loucura, só que como convidado do rapper Post Malone, o festival carioca inaugura neste ano um espaço chamado Favela. Em termos comerciais, a intenção é levar à Cidade do Rock, no Parque Olímpico, uma versão higienizada de um dos universos mais conhecidos do Rio de Janeiro para estrangeiros e brasileiros de outras regiões.

O espaço terá shows de rap (como BK), funk (MC Carol) e de outros gêneros (roda de samba e orquestra do Complexo da Maré), além de trazer companhias de teatro da periferia e batalha de poesia. 

Entre funkeiros e rappers, o conceito do Espaço Favela não é exatamente visto com bons olhos--tanto por se tratar de um espaço elitizado e restrito quanto pela caricatura que faz das comunidades--, mas a oportunidade de estar presente num evento como o Rock in Rio, em geral fechado aos artistas da periferia, acaba pesando.

O line-up desta edição também põe a cantora P!nk em posição privilegiada, como headliner do dia pop. Há ainda a volta do dia do metal, com Iron Maiden e Scorpions, as repetições da última edição, com Red Hot Chili Peppers e Bon Jovi trazendo praticamente os mesmos shows de dois anos atrás, e o retorno do Foo Fighters. 

O encerramento dá lugar a um rock mais jovem e comercial, com o Imagine Dragons dividindo atenções com o Muse.

As novidades são poucas. O Weezer volta ao país depois de quase 15 anos, enquanto a banda de rock progressivo King Crimson toca por aqui pela primeira vez na história. Depois de um show elogiado no palco Sunset, Nile Rodgers & Chic agora tocam no palco principal, o Mundo.

O grupo de thrash metal Slayer mostra ainda a sua turnê de despedida dos palcos. E também há encontros interessantes, como Iza com Alcione, e Mano Brown com Bootsy Collins.

A renovação tímida das atrações, aliás, acabou refletindo na venda de ingressos. Até o último sábado, ainda havia entradas para cinco dos sete dias de shows. A situação é inédita na história do festival, já que desde que voltou a ser realizado, há oito anos, o Rock in Rio costuma ter ingressos muito disputados e esgotados com meses de antecedência.

Neste ano, as entradas até foram dadas como esgotadas em abril, mas uma venda chamada de "extraordinária", iniciada em agosto, disponibilizou os bilhetes de quem havia comprado via boleto bancário mas acabou não realizando o pagamento.

As desistências, assim como a demora na venda do novo lote, podem ter relação com o momento econômico do país, mas com certeza têm a ver também com a perda de força do tipo de festival que o Rock in Rio representa.

Em 2011, quando voltou a ser feito no Brasil, o país era apontado como novidade na rota de grandes shows internacionais. A onda tinha começado em 2006, com Rolling Stones e U2. Seguiu com The Police lotando o Maracanã em 2007, Madonna repetindo o feito no ano seguinte e, em 2010, com o retorno do beatle Paul McCartney ao Brasil depois de quase duas décadas de ausência.

O começo dos anos 2010 abriu caminho para os megafestivais. Em 2010 e 2011, o SWU levou de Linkin Park a Black Eyed Peas ao interior de São Paulo. Em 2012, o Lollapalooza fez a primeira de suas oito edições no país, com Foo Fighters, Arctic Monkeys, entre outros.

Ao longo da última década, não só os nomes lembrados voltaram ao país, como alguns deles fizeram até turnês extensas, passando por capitais menores como Recife e Belo Horizonte. Portanto, a sensação de ineditismo de shows imensos no Brasil --uma noção de que quem não estivesse presente estaria perdendo um momento raro-- não é mais a mesma.

Sem contar a questão financeira, já que os ingressos para o Rock in Rio custam mais de R$ 500 por dia, há ainda o conservadorismo notório da seleção. O Red Hot Chili Peppers, por exemplo, tocou no festival carioca em 2017, passou pelo Lollapalooza em 2018 e novamente se apresenta neste ano.

Em 2011, 2017 e 2019, nas outras ocasiões que o quarteto californiano foi atração, o Capital Inicial tocou no mesmo palco e no mesmo dia. Além da garantia de público, as repetições ajudam nas negociações, já que é comum que astros do tamanho do Red Hot Chili Peppers tenham de dar aval aos outros artistas que tocam no mesmo dia e palco. Quando os nomes não mudam, a negociação é facilitada.

O que é curioso é que tanto o dia do Red Hot Chili Peppers quanto o do Bon Jovi, nomes repetidos duas edições seguidas, estavam com ingressos à venda até a véspera do festival.

O posicionamento do Rock in Rio em relação à venda das entradas é contraditório. Tanto o site oficial quanto a assessoria de imprensa informam que todos os 700 mil ingressos à disposição já estavam esgotados. Mas bastava entrar no site para constatar que era possível comprar entradas para cinco e, depois do último fim de semana, quatro dos sete dias do festival.

A organização também nega que a venda extraordinária seja para uma cota que vá além dos 100 mil ingressos diários. Os perfis nas redes sociais do Rock in Rio também pararam de anunciar as vendas.

Apresentar-se como um evento completamente lotado deve ter parecido comercialmente mais importante do que vender os últimos --ainda que poucos-- ingressos.

Mais do que shows esvaziados e espaços em branco nas plateias, a demora na venda mostra que o festival parece estar com stats de imperdível ameaçado. Com exceção de Drake, todos os outros shows grandes ou passaram recentemente ou devem voltar em breve para Brasil --se não em turnês próprias, provavelmente na próxima edição do próprio Rock in Rio.

Ainda assim, com 100 mil pessoas por dia, o festival deve manter a capacidade única de proporcionar

coros estrondosos nas performances de grandes hits. Afinal, é desses momentos épicos e emocionantes que ele vive.