Drag Aretuza Lovi e seu filho, Noah, ensinam um paternar com empatia e respeito

·5 minuto de leitura
Bruno Pinheiro, a Aretuza Lovi, e seu filho Noah, de 7 anos (Foto: reprodução/instagram @aretuzalovi)
Bruno Pinheiro, a Aretuza Lovi, e seu filho Noah, de 7 anos (Foto: reprodução/instagram @aretuzalovi)

Não dá para negar que o mundo está evoluindo a passos largos capitaneado por uma geração mais livre, empática e com qualidades e preocupações ímpares. E é promovendo essa transformação que Aretuza Lovi e Noah apresentam o programa ‘Pedacinho de Amor’ nas redes sociais.

Em conversa com o Yahoo!, Bruno Nascimento, que vive a drag cantora profissionalmente, contou mais sobre a série de vídeos que vai ao ar todas as quintas-feiras em sua rede social. “Falamos de respeito e amor. Hoje nós ajudamos outras pessoas que tem vontade de ter sua família. Quando o Noah aparece, é para reforçar que o amor existe. Temos muitos históricos de abandonos de pessoas gays e quero mostrar que nós somos capazes de ter uma família”, ressalta.

Leia também

O menino, de sete anos, é a realização de um sonho antigo de paternar. “A mãe do Noah é uma grande amiga que veio para a nossa casa já grávida e o pai biológico dele o abandonou. Tive um histórico muito ruim com meu pai e sempre quis ser pai. Ele apareceu na hora certa”, lembra.

Mas, como toda a paternidade, criar uma outra pessoa tem seus desafios. “Ser pai é por etapas. O filho não vem com manual. Agora ele está na fase dos questionamentos, das descobertas. A cada dia aprendo um pouquinho me transformo em um ser humano melhor”, destaca.

E continua: “A gente não pode romantizar tudo. A criação é um desafio muito grande e acredito que o Noah veio para criar um futuro melhor, ele sabe que o pai dele e gay, que namora um menino quando está namorando, porque estou solteiro (risos). Ele sabe o que uma criança de sete anos precisa saber e consegue entender”, explica.

No último ano eles passaram mais tempo juntos por conta do cancelamento da agenda de shows e eventos e o isolamento social por conta da pandemia e Bruno pode ver de perto a alfabetização do filho. “É muito bom acompanhar ele a aprender a ler, as tarefas da escola, mas também o ensinar a amar o próximo”, aponta.

Como toda casa que tem criança, rotina é necessária. “Lá em tudo tem regras e normas. Tem dia que ele está teimoso, que fica de castigo, é assim que ele vai crescer com empatia e respeito, não é tudo liberado. Ele tem que viver a infância dele, as coisas de criança dele, dentro dos limites. Ele não vê coisas que estão fora da faixa etária dele. Não joga videogame de coisas com violência, por exemplo”, avalia.

Para o pai, um ponto importante da criação do Noah é o diálogo. “Nós conversamos sobre tudo. Temos uma relação muito aberta, sempre ponderada para a idade dele. E falamos ‘eu te amo’ um para o outro o tempo todo. Essa troca de afeto, empatia e sentimentos é muito importante”, aponta.

Casais homoafetivos e filhos

Um ponto que sempre volta à tona quando o assunto são crianças e relacionamento homoafetivos, exclusivamente para pais heterossexuais, é: como explicar? “Vivemos na modernidade. As pessoas sabem mexer em um celular de última geração, em uma televisão inteligente e são munidas de informação. Elas sabem que a diversidade está aí. Só não absorve essa informação quem não quer. Se você não sabe o que busque saber e estudar”, conta.

E continua: “Por mais que o Noah tenha nascido na era da tecnologia, as primeiras informações têm que vir de casa. Temos que manter essas matrizes que são o amor ao próximo, o diálogo. Mas precisamos formar um homem de bem, caráter, e que tenham vontade de construir um mundo melhor. Tento não romantizar e mascarar as cosias e falo de forma que ele possa assimilar, sobre todos os assuntos. Ele será, no futuro, alguém com a criação que tem hoje. Sei que muitas crianças assim como ele vão construir um mundo melhor. Eles são mais empoderados, inteligentes, com discursos mais políticos com a visão de um mundo melhor”, deseja.

Com uma geração mais consciente de classes, preconceitos e gênero e sexualidade, Bruno provoca: “Vai do pai escolher se quer educar o seu filho para ser um machista ou não. Espero que com a informação que se tem hoje, que os pequenos tenham a cabeça mais aberta. Na minha família não aceito que ninguém tenha uma fala machista perto dele, vou bater de frente na hora. Tem pais que criam filhas e meu filho, se quiser brincar de boneca, vai; se quiser brincar de carrinho, vai; na minha casa nada tem gênero.”

Olhos atentos aos sinais

Também conversamos com Bruno sobre como abordar a educação sexual com uma criança. “Falar sobre isso é muito importante e necessário. E ele tem sete anos. Digo sempre que ninguém pode tocar ele, nem no banho. Quando vou com ele, fico do lado dele ensinando e dizendo o que ele tem que fazer e não encosto”, relata.

Ele continua: “E reforço sempre que se alguém tocar nele, ou tentar, tem que falar no papai. Que ele não pode sentar no colo de ninguém. Que ninguém pode vê-lo pelado a não ser a mãe e o pai. Precisamos conversar isso com os nossos filhos para ter esse diálogo aberto. Isso diminuiria grandes índices de abusos”, alerta.

Dados da prefeitura do Rio de Janeiro divulgados em maio desde ano, apontam que as denúncias aumentaram 50% durante a pandemia. A Secretaria Municipal de Saúde registrou 1.494 notificações de violência contra crianças com idade entre 0 e 9 anos e, em 2021, até o início de maio, foram 410 casos. As meninas são os principais alvos (58,3%) e do total de vítimas, 66% são pretos e pardos. A imensa maioria desses atos acontecem dentro de casa: 72%.

“Este assunto tem que estar nas escolas e dentro de casa. Cresci sem saber nada sobre sexo. Em uma família que gay era chacota, que a trans passava na rua e todo mundo fazia piada e mexia. Precisamos falar sobre gênero para que eles não reproduzirem esse comportamento” ressalta.

Mas, entre todas as dificuldades e desafios, Bruno celebra o paternar. “Ele te transforma e me amadurece. Não sei ser pai, vou aprendendo a cada dia. E aí você começa a se ver como os seus pais e melhorar. A paternidade me deu sentido à vida”, conclui.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos