Doomscrolling: estamos nos afogando em notícias ruins e desesperança?

Marcela De Mingo
·6 minuto de leitura
Young woman using mobile phone on sofa in the morning
Quanto tempo você passa lendo notícias e vendo tuítes ou fotos no Instagram todos os dias? E com que propósito? (Foto: Getty Images)

O dia sempre termina do mesmo jeito: você, deitado na cama, lendo as notícias por alto no Twitter ou vendo Stories indignados no Instagram. E começa da mesma maneira: a primeira coisa que você faz ao acordar é olhar as notícias do dia, as mensagens no WhatsApp e qual é o assunto polêmico da vez. O hábito se tornou tão comum durante a quarentena (e quiça até antes dela) que ganhou um nome: doomscrolling.

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Sim, passar o tempo inteiro afundado em notícias sobre a pandemia de coronavírus, a política brasileira (e do mundo) e tantas outras informações que dizem respeito às dificuldades que as pessoas têm encontrado nesse período ganhou um nome à altura. Em português, pode ser traduzido como "scrolling da desgraça" ou "scrolling da condenação".

Como você já deve imaginar, essa não é uma tendência positiva. Kevin Roose, do The New York Times, explicou como ficou completamente agitado depois de ler um estudo sobre a evolução da doença nos Estados Unidos, e passou a procurar maneiras de evitar noites insones e manter um mínimo de saúde mental.

Já falamos por aqui que fazer um detox digital periodicamente é mais do que importante, é essencial. Em tempos de pandemia, então, nem se fale. Uma pesquisa da Youpper Insights mostra que a forma como nos relacionamos com o online já mudou: diante da incerteza do futuro, nos voltamos para a internet para tudo, tanto que 90% dos jovens adultos declararam que conheceram novas marcas através do online e outros 80% confirmaram que se utilizaram desses meios para se reconectarem com amigos e parentes.

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Existem muitos estudos que dizem também que, quando usadas de forma moderada, as redes sociais podem ter efeitos positivos na vida de alguém. Porém, via de regra, o seu uso indiscriminado leva a casos de ansiedade e depressão, além de questões de autoestima e autoimagem. E, se os dados do parágrafo anterior são qualquer indício, talvez estejamos passando tempo demais online.

Isso ganha um outro viés quando lembramos também que o ser humano, por natureza, têm uma tendência a manter o foco no negativo - o que fica claramente refletido nas notícias de maior destaque. Estudos comprovam que, desde a década de 1970, as pessoas agem segundo um conceito chamado de "mean world syndrome”, ou "síndrome do mundo mau", que diz que a percepção de que o mundo é ruim e perigoso é muito maior do que a realidade - fruto da longa exposição a imagens negativas e violentas nos jornais, na televisão e até no cinema.

Os efeitos do doomscrolling também variam de pessoa para pessoa. A população negra, por exemplo, tem lidado com a cobertura constante de casos como o de George Floyd, nos Estados Unidos, e ver e rever vídeos de assassinatos ou de violência contra seus iguais repetidamente nas redes sociais faz com que essas pessoas busquem outras formas de usar essas mídias, com o intuito de aliviar o estresse que já passam diariamente por uma questão estrutural da sociedade.

Tudo é, mesmo, uma questão de perspectiva, contexto e privilégio. Por mais que gere um nível de estresse e ansiedade para boa parte dos grupos sociais, para outros o ato de ler notícias sobre o que acontece no mundo inteiro pode ser visto como uma forma enriquecedora de se contextualizar em relação a assuntos que antes passavam despercebidos. O despertar político da cantora Anitta pode ser visto como um exemplo disso. Em casa por conta da quarentena, ela se viu com tempo para aprender sobre assuntos e temas importantes, aos quais não conseguia se dedicar antes.

“As pessoas se colocaram mais presentes no uso das redes sociais, mas ao mesmo tempo que descobriram novas marcas e referências, notaram o grau de notícias duvidosas e fakes", explica Diego Oliveira, mestre em comunicação e professor de Mídia da ESPM, em São Paulo. "Ter mais tempo permitiu que as pessoas pudessem se aprofundar em algumas noticias e buscar a origem real de cada uma.”

Segundo ele, entre os meses de junho e julho, o percentual de usuários que duvidavam do posicionamento de marcas e de notícias foi considerável: 70% das pessoas com idade entre 18 a 49 anos entrevistadas pela Youpper, empresa de pesquisas que Diego fundou, declararam duvidar das notícias publicadas e comentadas em redes sociais.

Enfim, precisamos considerar que a internet, como um todo, tem sido uma grande aliada nesse período para que as pessoas continuem conectadas umas às outras. Reuniões de Zoom entre amigos, festas surpresas online, FaceTime com parentes, conversas no WhatsApp são as maneiras que encontramos de manter o contato em tempos de isolamento.

No entanto, não podemos esquecer do efeito que esse scroll constante pelas redes sociais têm na nossa saúde mental. Entra aí a necessidade de discernimento. A consteladora e terapeuta Alessandra Pais já comentou mais de uma vez em lives com o Yahoo Vida e Estilo a importância de estabelecer limites e fronteiras - o que vale também para o uso das redes sociais. Ter horários específicos para olhar o celular e checar as redes, por exemplo, pode ser uma forma de diminuir esse efeito.

Saber também quando deixar o celular de lado e desligar a mente do mundo lá fora e suas notícias, principalmente, pouco antes de dormir, é o que ajuda a reduzir os níveis de estresse e ansiedade e colabora para uma boa noite de sono.

“Chegou o momento de mostrar que antes da divulgação / publicação da notícia existe uma curadoria real, transparente e original, ou seja, existe o cuidado antes de levar a informação ao publico desejado", continua Diego, explicando sobre como melhorarmos a nossa relação com as notícias e as redes. "O conteúdo precisará ter uma relação de laços fortes com o seu publico, interagindo de acordo com a audiência - na forma, no conteúdo e dinâmica entre mensagem e entendimento por parte do público alvo".

Do lado de cá das telas, simplesmente evitar as notícias como um todo não é o mais recomendado. Em um momento tão importante e atípico como o que vivemos agora, buscar informações em fontes confiáveis ajuda na noção de contexto e a acompanhar as importantes mudanças que estão acontecendo. Ao mesmo tempo, é preciso discernir o que é importante, o que não é e evitar tirar conclusões apenas lendo títulos ou notícias repassadas pelo WhatsApp - as fake news já mostraram, e muito, o seu poder de desinformação.