Dono de sex shop, casal evangélico dá consultoria sobre vida íntima

João e Lidia Ribeiro, casados há oito anos, são proprietários de uma sex shop especializada no público evangélico (Divulgação)

Há quase cinco anos, João Ribeiro e sua esposa Lidia parecem ter encontrado sua missão na Terra: ajudar outros casais a viver no paraíso dentro e fora do quarto. Eles são proprietários de uma sex shop em Jandira, no interior de São Paulo, onde vendem produtos eróticos e aconselhamento para crises conjugais. Seu público-alvo é a comunidade evangélica (da qual fazem parte), que comunga vários tabus e proibições em relação à sexualidade.

A cor vermelha, por exemplo, está associada ao “mal” e não deve ser usada em lingeries. Sexo oral e anal também são tópicos polêmicos que dividem pastores e fiéis. Pode ou não pode? E vibrador, posições do Kama Sutra, fetiches? Pode ou não pode? “Deus está mais preocupado com a falta de amor entre as pessoas do que com o amor de um casal entre quatro paredes”, diz João, condenado por seus pares religiosos mais tradicionais. O inferno são os outros, né, Sartre?

– Por que vocês resolveram entrar no mercado erótico?

JOÃO – Alguns amigos nossos viviam crises conjugais e não tinham como ser ajudados pela comunidade evangélica por causa do tabu em relação à sexualidade. Muitos líderes das igrejas evangélicas dizem que, se o casamento está atormentado, é culpa do diabo. Em 80% dos casos, a crise acontece por falta de diálogo, de companheirismo, de carinho, de entender as necessidades do outro. Queríamos aconselhar essas pessoas, abrir um espaço para a conversa e mostrar que alguns cosméticos sensuais poderiam ajudar.

Cosméticos sensuais são os produtos mais vendidos na sex shop do casal (Divulgação)

– Antes disso, vocês já usavam produtos eróticos?

JOÃO – Eu nunca tinha entrado em um sex shop ou utilizado produtos do gênero porque nunca passamos por uma crise conjugal. Mas começamos a pesquisar sobre o mercado erótico para ajudar os outros, vimos que nem tudo estava ligado à pornografia (existe uma imagem errada de um lugar com neon, cabines, paredes vermelhas…) e descobrimos os cosméticos sensuais. Hoje testamos juntos as novidades e damos consultoria para fabricantes – desenvolvemos a linha In Heaven (traduzido do inglês como “No Paraíso”) com a marca Intt. É voltado para a comunidade evangélica, com embalagens mais discretas e sabores mais suaves.

– Qual a diferença entre o sex shop tradicional e o evangélico? Existem produtos proibidos, por exemplo, como próteses penianas e DVD pornográficos?

JOÃO – Não vendemos nenhum tipo de pornografia, bonecas infláveis nem produtos para satisfação individual. Nosso foco são os casais. O que mais sai são cosméticos sensuais, mas também temos vibradores (bullets, estimuladores clitorianos e ponto G), fantasias eróticas, lingeries… Uma das coisas que leva à crise conjugal é a monotonia. Esses produtos funcionam como brincadeiras que proporcionam prazer e fortalecem a relação. Você vai para o inferno porque usa? Não faz sentido. Vamos pensar em Deus como um ser de amor, não como um carrasco que gosta de ver você sofrer.

– Deus se importa com o que o casal faz entre quatro paredes?

JOÃO – Deus tem sete bilhões de pessoas no mundo inteiro para cuidar. Acho que ele está mais preocupado com a falta de amor entre as pessoas do que com o amor de um casal entre quatro paredes. Algumas igrejas mantêm dogmas que nos deixam chocados. Por exemplo: o homem e a mulher não devem fechar os olhos durante o ato sexual porque podem pensar em outra pessoa, o que seria pecado. Isso não está escrito na Bíblia, são regras inventadas para controlar os fiéis. Deus só disse “Crescei e Multiplicai-vos”, não disse que não devemos ter prazer nas relações ou quais posições sexuais são condenadas.

João e Lidia recorreram a pseudônimos para lançar a trilogia “Sete Pecados ao Vento”, que consideram um “romance sensual” (Divulgação)

– Então vale sexo anal, oral, ida ao motel?

JOÃO – Depende de cada um. Por exemplo, nós não usamos os géis para sexo anal porque essa prática não é aceitável dentro das nossas crenças. Mas vendemos na nossa loja e aconselhamos os casais respeitando seus dogmas, suas vontades, suas necessidades. Se querem comprar, isso só diz respeito ao acordo deles e à relação que eles têm com Deus. Não cabe a mim julgar ou impor minhas crenças, apenas auxiliar. Outro dia atendemos um casal com a questão “ir ou não ao motel” [proibido pela religião]. Ele queria e ela, não. Depois de algumas perguntas, entendemos que o fetiche era por uma banheira de hidromassagem. Nossa sugestão foi que bons hotéis também ofereciam essa possibilidade.

– Casais gays são bem-vindos ao sex shop de vocês?

JOÃO – Claro. E damos consultoria de relacionamento a eles também. Casais héteros e gays têm os mesmos problemas conjugais. A pessoa ama e se relaciona com quem ela quiser, eu não tenho nada a ver com isso. Deus disse para amarmos o próximo.

– Vocês também publicaram livros eróticos. Como foi isso?

JOÃO – Eu e minha esposa fomos convidados a escrever um conto sensual, que acabou virando a trilogia “Sete Pecados ao Vento”. É um romance sensual como “Cinquenta Tons de Cinza”, não pornográfico. Lançamos o livro, mas descobrimos que era uma editora picareta. Resolvemos abrir a nossa, a Dream Books, mas não vamos publicar apenas obras sensuais ou evangélicas.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria.