“Tem que se benzer e seja o que Deus quiser”, diz doméstica obrigada a trabalhar durante pandemia

“Eles não me deram máscara, não me deram nada”, lamenta funcionária. Foto: Pixabay

Por conta da pandemia do coronavírus, muitas pessoas passaram a trabalhar de casa para que a doença não se espalhe de forma generalizada. Em um informe, a OMS (Organização Mundial da Saúde) reforçou a necessidade de isolamento urgente de todas as pessoas, para evitar a propagação do vírus.

Contrariando as recomendações da OMS, patrões brasileiros estão fazendo com que empregadas domésticas continuem com seus trabalhos. Paula Santos* vive a situação em seu emprego. “Não me perguntaram se eu queria trabalhar, não foi falado nada”, relata. 

“Na sexta a minha patroa falou que iria trabalhar essa semana de casa por causa do coronavírus. E aí eu fui falar: ‘mas eu também posso pegar’. Aí ela só deu um sorrisinho e não falou mais nada”, conta em depoimento ao Yahoo.

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“Do mesmo jeito que eles correm risco, eu também corro. E eu não tenho médico particular se eu ficar doente. Eu acho isso horrível. Eu pego o ônibus cheio todos os dias. Eu corro risco também. É um grande risco para todo mundo. Eu acho que eu deveria ficar em casa também”, constata.

Paula vive em uma casa em Barreto, bairro de Niterói, no Rio de Janeiro, com outras oito pessoas. Entre elas, uma mãe diabética e idosa que também trabalha como empregada doméstica, mas que foi dispensada por seus patrões nesta segunda-feira (16). Além disso, ela convive com sua filha gestante e seus netos, que estão em casa por conta do recesso escolar que também está acontecendo em meio ao coronavírus. 

Para ir para a casa dos patrões, que fica em Icaraí, ela precisa pegar transporte público e demora cerca de meia hora para chegar ao trabalho. “Dependendo do trânsito, demora até uma hora pra chegar. O ônibus vem superlotado. E isso é independente de corona. Pobre não tem muita vez, não”, lamenta.

Mesmo trabalhando há nove anos para a família e durante todos os dias da semana, Paula diz que nunca teria coragem de pedir para não ir trabalhar. “Por mais que a gente trabalhe há anos na casa, a gente vai ser sempre só a empregada doméstica. A gente não tem liberdade para falar uma coisa dessas”, afirma.

“Eles iriam falar: ‘não tem nada com você, você só tem que se prevenir, lavar as mãos e ficar distante da sua mãe’. Eu creio que eles falariam uma coisa dessas. Eles não vão abrir mão de me ter lá para lavar, cozinhar… eles sabem que é uma coisa perigosa, mas é mais perigosa para eles”, diz.

Questionada pela reportagem, Paula afirma que não tem ninguém doente na casa em que ela trabalha e que seus patrões já compraram um arsenal de máscaras, luvas e álcool em gel para a família. “Eu não tenho como fazer esse estoque na minha casa. Quando a gente vai comprar, já acabou tudo”, afirma.

“Eles não me deram máscara, não me deram nada. A gente tem que se benzer e seja o que Deus quiser. A gente lava as mãos e seja o que Deus quiser. Isso é doença de rico. Pobre não tem dinheiro pra ir pra Itália. E, no fim, quem vai se machucar é pobre. Para a gente poder marcar uma consulta normal já demora umas duas semanas. Agora você imagina só todo mundo pobre e doente? Os hospitais já estão lotados”, constata.

Segundo Paula, seu desejo era poder ficar em casa por alguns dias. “Eu concordo que o meu trabalho não é igual ao deles. Não tem como eu varrer de casa. Mas eu acho que eles deveriam ter um pouco de bom senso. Eles não conseguem se virar? Nessa parte, os direitos deveriam ser iguais”, finaliza.

* O nome da entrevistada foi alterado para proteger sua identidade.