Doença do sono: condição abordada em 'Sandman' atingiu milhões de pessoas na Europa

Trecho de cena de Sandman, na Netflix (Reprodução/ Netflix)
Trecho de cena de Sandman, na Netflix (Reprodução/ Netflix)

Dormir e não poder acordar como se estivesse em coma, não poder se mexer e ficar como uma estátua sem dormir, ter tremores e sonolência incontroláveis, apresentar distúrbios de fala ou virar sonâmbulo. Foi assim que ao menos quatro milhões de pessoas da Europa e América do Norte se sentiram, depois de serem infectadas pela doença do sono, entre os anos de 1915 e 1926. Durante ao menos quatro décadas, o mundo permaneceu com essa encefalite letárgica.

Esse mal, que foi responsável pela morte de aproximadamente um milhão de pessoas, foi usado como referência para a série "Sandman" da Netflix, que estreou no início de agosto. Na produção, não é apresentada a quantidade aproximada de casos e nem de óbitos - a doença dura mais de 100 anos e o motivo por trás dela tem relação com a prisão do personagem principal, Morpheus, o Rei dos Sonhos.

Na vida real, as causas da doença do sono variam no mundo médico. Uma pesquisa de 2004 sugere que a Encefalite letárgica é uma doença autoimune pós-infecciosa, com etiologia semelhante à da coreia de Sydenham, um distúrbio de movimento. Outra versão afirma que a doença é causada por dois parasitas: Trypanosoma brucei gambiense, que causa uma infecção crônica e o Trypanosoma brucei rhodesiense, mais raro e causador de uma infecção aguda.

Luciano Ribeiro, neurologista com especialização em Medicina do Sono, apresenta outra versão. “A doença causava uma infecção, provavelmente causada por um vírus, no sistema nervoso e a pessoa apresentava um excesso de sono e entrava em um quadro de sonolência. Não se sabe se ela sumiu totalmente do mundo”, afirma o profissional que atua no Instituto do Sono de São Paulo.

Fim da doença

Na produção, baseada na série de história em quadrinhos homônima de Neil Gaiman, enquanto Sandman está preso, ele não revela nada sobre a sua identidade e nem dá nada do que o captor exige. Em meio a isso, uma doença misteriosa passa a atingir multidões, as impedindo de dormir e acordar, causando, inclusive a morte de muitos. Depois que o Rei dos Sonhos consegue escapar, os infectados voltam a viver uma vida normal, e chega a hora dele organizar o seu reinado.

NEW YORK, NEW YORK - AUGUST 22: Author Neil Gaiman arrives to discuss his new series “The Sandman” at 92nd Street Y on August 22, 2022 in New York City. (Photo by Paula Lobo#1044029#51C ED/Getty Images)
Neil Gaiman em evento para discutir "Sandman", em Nova York, em agosto de 2022 (Foto: Paula Lobo ED/Getty Images)

Já fora da ficção, a encefalite letárgica teve uma mortalidade alta, em média entre 30% a 40% dos casos. Como a medicina da época não conhecia formas eficazes de tratar a condição, as principais medidas foram paliativas e alguns pacientes que sobreviveram à fase aguda desenvolveram a doença de Parkinson.

Na série, fica claro que o sono e os sonhos têm papéis extremamente importantes para a manutenção da saúde. Mas, e na vida real, quais os benefícios?

Importância do sono

O sono é um estado biológico onde vários órgãos funcionam de formas diferentes, distribuindo hormônios de acordo com as necessidades do corpo, como por exemplo, quando somos crianças, a demanda é por hormônio do crescimento.

Sérgio Arturo, doutor em neurociência e pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), explica que como o sono está relacionado com todos os processos do organismo, quem tem privação dele, tende a desenvolver diabetes, pode sofrer com alterações cardiovasculares e ainda ganhar peso em excesso.

Por isso, para ter uma vida mais saudável é essencial entender como o sono funciona. Ele é dividido em quatro fases com níveis de aprofundamento diferentes, que precisam ser vividas todas as noites, com períodos diferentes de pessoa para pessoa:

  1. O sono mais superficial que acontece quando estamos sonolentos;

  2. O sono mais longo, que ocupa 50% da noite;

  3. O sono mais profundo, que usa 20% do nosso tempo;

  4. O sono como movimentos oculares rápidos, o REM.

De acordo com o médico do Instituto do Sono, a última fase do sono é um dos momentos mais importantes porque é quando acontece uma grande ativação cerebral. Durante essas atividades, que ocupam 20% do tempo de sono e geralmente ocorrem nas últimas horas da madrugada, os sonhos mais vívidos ganham vida.

Papel do sonho e do que ele é feito

A formação dos sonhos também não é um ponto de consenso. Segundo o doutor em neurociência, o sonho é criado a partir de memórias, ideias e imaginações de acontecimentos do dia ou da semana, desejos, coisas conscientes relacionadas a medos e momentos da infância. “Existem vários trabalhos que dizem que o sonho e o sono REM são importantes para os processos de regulação emocional, que é base do humor”, completa Arturo.

Já para o neurologista, o sonho não tem muita função e, como é uma produção do sono REM, o ato de dormir bem nesse período se torna mais importante do que sonhar.

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Imagem ilustrativa de uma mulher deitada na cama (Foto: Getty Creative)

Mas será que sonhamos sempre que dormimos? Segundo Ribeiro, movimentos oculares muito rápidos podem indicar que a pessoa está sonhando. Mas para ter certeza que um sonho aconteceu, é preciso despertar e contar. Caso contrário, quando se permanece dormindo, o sonho pode acabar sem que o sonhador perceba e, quando ele finalmente tiver despertado, pode não ser mais possível lembrar do que sonhou. É quase como aquela expressão: “se uma árvore cai na floresta e não tem ninguém para escutar, ela fez barulho?”.

“O sonho precisa ser contado, tem que passar dessa consciência onírica do sono, para vigília para lembrar. Tem casos que a pessoa lembra, mas não memoriza e armazena o que sonhou”, avalia o médico.

Sérgio Arturo acrescenta ainda que, se uma pessoa dorme muito tarde e acorda muito cedo, ela será privada do sono REM e pode não lembrar dos sonhos. O mesmo acontece quando ela levanta muito rápido e não tem tempo para tentar relembrar o que sonhou.