Documentário sobre Michelle Obama esbarra na autoajuda e no clichê

ÚRSULA PASSOS

FOLHAPRESS - A autobiografia de Michelle Obama, "Minha História", foi um dos grandes fenômenos de venda do mercado editorial do ano passado. Agora, a Netflix lança um documentário de mesmo nome em que acompanhamos a ex-primeira dama dos Estados Unidos nos grandes eventos da turnê de divulgação do livro.

Entre uma e outra conversa com gente como Oprah Winfrey, Stephen Colbert e Reese Witherspoon em estádios e arenas abarrotados, a história de Michelle é contada por ela com a ajuda de fotos, vídeos, capas de revistas, e de relatos de sua mãe, seu irmão e de membros de sua equipe, como a assessora pessoal e o segurança.

Assim como o livro, o filme se beneficiaria, no Brasil, de um título mais próximo do original "Becoming" (tornar-se), de inspiração, creio, beauvoiriana. Pois é disso que se trata: da ideia de formação. No prefácio do livro, Michelle diz ser inútil perguntarmos a uma criança o que quer ser quando crescer, como se crescer fosse finito, uma meta que se alcança e, então, fica-se ali parado.

Além de mostrar sua história de vida, de filha de uma família da classe trabalhadora de Chicago a moradora da Casa Branca, Michelle busca, em primeiro lugar, mostrar que é uma pessoa que existe e tem importância para além de seu marido ex-presidente dos Estados Unidos, e, em segundo lugar, encontrar seu caminho após os oito anos sob fortes holofotes.

Assim como grande parte da humanidade agora pensa sobre a vida pós-pandemia e o novo normal, Michelle está ali lidando com suas memórias para criar, segundo ela diz, um novo caminho, já que voltar para o anterior,da vida antes da presidência de Barack Obama, não é possível.

Não fosse o enorme carisma e a inteligência da ex-primeira dama, o documentário, editado e sonorizado de forma bastante tradicional e um pouco piegas, seria insuportavelmente mais um produto de autoajuda cheio de conselhos de empoderamento feminino. Mas Michelle consegue transformar o filme numa reflexão sobre os anos Obama e numa crítica à era Trump, sem deixar de colocar o dedo em feridas, como quando reclama da abstenção de jovens progressistas, mulheres e negros nas urnas.

Um dos momentos mais interessantes do filme, que não deixa de ser, contudo, um produto de autopromoção de Michelle, é quando ela questiona e rejeita a ideia da América pós-racial. Elencando o nome de jovens negros inocentes mortos em ações da polícia e falando do medo que os americanos sentiam em ter uma família negra no comando do país, Michelle insiste na presença do racismo e na necessidade de lembrar que é de uma família de pessoas que foram escravizadas. Uma reflexão clara e profunda em meio a todo o cenário de superstar.

MINHA HISTÓRIA

Quando Disponível na Netflix a partir de quarta (6)

Direção Nadia Hallgren

Avaliação Bom