Documentário sobre morte de procurador revive debate sobre ataque à AMIA

Por Liliana SAMUEL
O promotor argentino Alberto Nisman durante uma coletiva de imprensa em 20 de maio de 2009, em Buenos Aires

Prestes a completar cinco anos sem explicação sobre a morte do promotor Alberto Nisman, que acusou o Irã pelo atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) em 1994, um documentário recém-lançado traz à tona todas as dúvidas e reacende o debate sobre caso na sociedade argentina.

A série "O promotor, o presidente e o espião", produzida em 2017 pelo documentarista britânico Justin Webster e lançada recentemente na plataforma de vídeo em streaming Netflix, aborda uma trama muito complicada que envolve agentes de inteligência, interesses geopolíticos, política e investigações judiciais questionadas.

"É uma montanha de lixo para cobrir um escândalo e um escândalo para cobrir um crime e outro crime para cobrir outro crime", resume Luis Moreno Ocampo, ex-promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional, no documentário.

- O caso -

Quatro dias antes de ser encontrado morto por um tiro na cabeça no banheiro de sua residência em 18 de janeiro de 2015, Nisman havia denunciado a então presidente e hoje vice-presidente Cristina Kirchner pela assinatura em 2013 de um acordo com o Irã, que nunca foi aplicado.

O promotor acusou o governo argentino de tentar encobrir ex-autoridades iranianas, que ele próprio havia acusado de organizar o ataque à Amia, que deixou 85 mortes e 300 feridos em 1994 em Buenos Aires.

Kirchner (2007-2015) e seu chanceler, Héctor Timerman, que faleceu em decorrência de um câncer em 2019, insistiram que tentavam dar continuidade às investigações do caso, que estavam há mais de 20 anos estagnadas.

Estava agendada para o dia seguinte à morte de Nisman uma ida dele ao Congresso do país, onde pretendia ampliar sua denúncia.

A acusação de Nisman foi rejeitada em várias instâncias judiciais, mas finalmente reaberta em 2016 pelo juiz federal Claudio Bonadío, que concentra uma dúzia de casos contra a ex-presidente.

Outro processo para encobrir o desvio de evidências na primeira investigação culminou em 2019 com a condenação de um ex-juiz, dois ex-promotores e um chefe de inteligência do ex-presidente Carlos Menem (1989-1999).

- "Me dá vontade de chorar"-

O documentário reflete um divisão irreconciliável de águas, mesmo dentro da comunidade judaica argentina, entre aqueles que apoiam a hipótese do suicídio e aqueles que afirmam que foi um homicídio.

"Nisman cometeu suicídio. No processo tudo está comprovado, este caso deveria ter sido encerrado há três anos", disse à AFP Pablo Duggan, autor do livro "Quem matou Nisman?", uma investigação baseada no caso judicial.

A polêmica sobre o documentário migrou para as redes sociais.

"Cinco minutos da série sobre Nisman e isso me faz querer chorar e deixar o país para sempre", escreveu Lu Abelera, da Argentina, no Twitter.

Rocío Guiñazú também recorreu à rede social para afirmar: "Causa indignação ver a série sobre Nisman, é incrível toda a m* e o desastre que fizeram!. Dá muita raiva viver cercado por tanta corrupção e egoísmo".

- Suicídio? -

Em maio de 2016, com Macri no governo, o caso Nisman mudou de rumo quando saiu da jurisdição comum que investiga uma "morte duvidosa" para a jurisdição federal, que presume um assassinato como uma "consequência direta da denúncia" contra a ex-presidente.

Foram processados quatro seguranças de Nisman e seu assessor da área de informática Diego Lagomarsino, dono da pistola usada na morte do promotor. Lagomarsino diz que Nisman lhe pediu a arma emprestada porque temia pela vida de suas filhas.

A autópsia realizada por especialistas forenses e uma perícia criminal haviam descartado a presença de terceiros. Mas dois anos depois, outra investigação consolidou a hipótese de homicídio sustentada pela família Nisman e apoiada pela Associação de Promotores da Argentina.

Os depoimentos do documentário inclinam a balança para a tese de suicídio.

Mas o sociólogo Artemio López diz que "ninguém muda de posição inicial depois de assistir à série. As posições sobre a morte do promotor são atravessadas por sensibilidades, valores e discursividades públicas (dependendo se eles defendem ou atacam os governos de Macri ou Fernandez".

O presidente Alberto Fernández, professor de direito criminal que em 2017 declarou que "teve dificuldade em acreditar" em suicídio, mas observou a falta de evidências de um assassinato.