Doc da Netflix tem Lula herói e consolida para o mundo visão da esquerda

(Imagem: divulgação Netflix)

‘Democracia em Vertigem’ chega nesta quarta-feira (19) aos cerca de 190 países na qual a Netflix está disponível, depois de estrear em janeiro no prestigiado Festival de Sundance, nos EUA. O documentário dirigido por Petra Costa conta, de forma extramemente pessoal, os acontecimentos que vêm agitando o cenário social brasileiro, especialmente entre os protestos de junho de 2013 e a eleição de Jair Bolsonaro, no ano passado.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

Petra não tenta fingir que seu viés será imparcial. A cineasta se coloca como narradora do filme e logo de cara apresenta suas credenciais: seus pais foram perseguidos pela Ditadura Militar e ela fez campanha para eleger Lula, em 2002. Numa época em que muitos tentam se esconder debaixo de um suposto manto de neutralidade, não deixa de ser uma atitude corajosa, à medida que dá munição para quem quiser falar sobre o caráter ideológico da autora.

Leia também:

Como toda narrativa, ‘Democracia em Vertigem’ tem seu protagonista, um herói cujo arco é fundamental para carregar a trama. Aqui essa figura é Lula, definido numa das falas da diretora como “um escultor, cujo material é a argila humana”, num elogio à sua capacidade de articulação política.

O filme perpassa muito da trajetória do ex-presidente, desde um discurso ainda com líder do movimento dos metalúrgicos, as tentativas frustradas de virar mandatário do país até sua vitória com discurso conciliador, a escolha de Dilma Rousseff para ocupar seu posto, o impeachment da sucessora e sua prisão.

Personagens como Eduardo Cunha, Sérgio Moro e Bolsonaro têm aparições rápidas. No caso do atual presidente, além da já infame fala no plenário a favor do coronel Ustra, há declarações suas sobre liberação de porte de armas para fazendeiros enfrentarem o MST e frases como “petista bom é petista preso e sem mandato”.

Para Petra, está claro que Lula personifica a democracia brasileira, mesmo em suas falhas (a aliança com o PMDB é tida como o pecado capital, junto com o alinhamento ao jogo das empreiteiras), e o cerceamento de sua liberdade é o golpe fundamental para que as elites permaneçam dominantes.

O documentário traz imagens raras dos bastidores da cúpula petista, como a comemoração da eleição de Dilma em 2010 e a melancólica reunião para acompanhar a votação da abertura do processo de impeachment no congresso, seis anos mais tarde. Tem conversas ao pé do ouvido com Lula e cenas de um encontro da ex-presidente afastada em 2016 e a mãe da diretora, duas mulheres que seguiram trajetórias semelhantes na juventude.

Essa identificação entre a visão de mundo do filme e do público, aliás, é fundamental para o espectador decidir se vai gostar ou não de ‘Democracia em Vertigem’. Para quem bate no peito o ódio pelo PT, tudo vai soar o mesmo “mimimi” de sempre. Já para quem acredita que o impeachment foi um golpe, saber que um documentário que sustenta essa tese está agora disponível no mundo todo trará um pouco a sensação de alma lavada.