DJ Ivis: por que os homens famosos que são agressores continuam famosos?

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DJ Ivis (Foto: Instagram)
DJ Ivis (Foto: Instagram)

Quantas vezes mais vamos ver um caso de violência contra a mulher gerando tanto engajamento nas redes sociais? Pois é, esta semana estamos lidando com o caso do DJ Ivis, que agrediu a ex-mulher Pamella Holanda na frente da bebê recém-nascida do casal. Essa frase, por si só, deveria ser motivo de revolta geral - e talvez tenha sido, para parte da internet - mas gerou mais seguidores do que notas de repúdio ou ações concretas contra o agressor.

Vamos a uma comparação básica: na época do "Big Brother Brasil 21", a cantora Karol Conká foi massacrada nas redes sociais pelo seu comportamento na casa. Ela foi "cancelada" a ponto de sair do programa com um recorde de rejeição nunca antes visto na história do programa: mais de 99%. Nas redes sociais, a rejeição também foi grande, Karol perdeu mais de 500 mil seguidores no Instagram.

Importante esclarecer que, apesar de ter errado em termos de conduta dentro da casa, Karol, uma mulher preta, não agrediu ninguém fisicamente. Essa informação é importante porque, quando olhamos para o caso de Ivis, o DJ ganhou mais de 200 mil seguidores desde que as acusações de agressão foram postadas na internet. Estranho, você não acha?

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Dizem que a desculpa para esse crescimento é que a ideia seria encher as fotos do músico com comentários de repúdio e xingamentos. O que não faz sentido, considerando que Karol, que não cometeu nenhum crime, não recebeu o mesmo tratamento. Seguindo essa lógica de dar palco para os "vilões" do momento, o certo não seria que a cantora sofresse do mesmo "mal", ou seja, crescesse em números nas redes?

Esse questionamento é importante por dois motivos: primeiro, o racismo estruturado que ainda hoje atua no Brasil de forma cotidiana e constante. Ele, especificamente, não é tópico deste texto, mas precisa ser pontuado, já que o racismo, por si só, é fruto de rejeição e repúdio, principalmente, pela população branca - vide a solidão da mulher negra. O segundo motivo é ele, o machismo, um dos maiores protagonistas da sociedade brasileira, que vê agressor como alguém digno de um clique no botão "seguir".

Não deveria haver necessidade de explanarmos mais sobre essa motivação - ou será que vamos ter que lembrar, mais uma vez, o caso do goleiro Bruno, que segue "brilhando" no futebol? -, mas o compromisso com os fatos e a problematização de questões como essa fala mais alto. É verdade, por exemplo, que o brasileiro gosta de dar palco para quem não merece atenção, de forma que atitudes extremamente classicistas, racistas, machistas e até violentas ganham uma atenção gigantesca para o lado do agressor - e não das vítimas.

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Na realidade, quem necessita de acolhimento não é Ivis que "teve a carreira destruída" (segundo alguns malucos) por uma denúncia de agressão, mas, sim, Pamella, que além de lidar com o puerpério, se tornou estatística em um país com índices altíssimos de violência contra a mulher - e que vai mantê-la, na história, como a culpada pela violência que sofreu.

Por algum motivo incompreensível para mentes sãs e lógicas, homens comprovadamente violentos contra mulheres se tornam e continuam famosos. Podemos citar, por alto, alguns deles: Jhonny Depp, Harvey Weintein, o próprio goleiro Bruno, Marcos Harter, do "BBB 17", Dado Dollabella, até mesmo o "menino" Neymar. Enquanto isso, questionamos quantas pessoas sabem do estado das mulheres que estavam do outro lado dessas agressões. Como estão hoje? Como seguem a vida? E suas carreiras, como andam? Ou foram afetadas pela agressão assim como seus corpos?

Violência engaja, mas, talvez, não da forma como deveria. Não na busca por uma mudança, pelo fim da impunidade em casos de violência contra a mulher, não na reversão de valores machistas que perpetuam e permitem, de certa forma, que essa violência aconteça e continue. Mas de maneira que oferece ainda mais poder para quem já tem poder demais: o homem, principalmente o homem branco, que se acredita detentor das leis do mundo.

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Quando um homem, por exemplo, diz que quer casar e engravidar uma mulher, essas afirmações são comumente aceitas como "romantismo". Se uma mulher falar a mesma coisa, que quer casar e engravidar de um homem, é bem capaz de ela ser taxada de oportunista ou interesseira. Parece uma diferença pequena, mas é uma visão como essa que faz com que a violência contra a mulher seja possível, no nível que é, em países como o Brasil. No fim dessa história, quem quer que seja o protagonista, a mulher sai como a vilã: "ela pediu", "ele não conseguiu evitar, coitado", "ela só tava atrás do dinheiro dele", "ele é um homem bom, com muita vida pela frente", "ela provocou, com certeza". Entre mocinhos e vilões, se é que se pode dividir o mundo dessa maneira, a mulher sempre está do lado "errado" da história, enquanto homens violentos, bem, seguem suas trajetórias de sucesso.

Vamos falar sobre as crianças?

É importante lembrar também que Pamella tem uma bebê de nove meses, fruto do relacionamento com Ivis. Essa criança, apesar de ainda muito pequena, presenciou uma cena de violência é isso pode ser um fator determinante para o seu desenvolvimento.

Aliás, desde 2017 é garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente que aquelas que foram testemunhas de atos de violência doméstica têm direito à proteção e acolhimento tanto quanto as que foram vítimas diretas, inclusive tendo a possibilidade de pedir medidas restritivas contra o agressor.

Existem também inúmeros estudos que comprovam o quanto uma criança vítima de violência (ou que viva em ambientes violentos e testemunhe violências contra a mãe, por exemplo), desenvolvem dificuldades de aprendizado e nas relações - a desconfiança, por exemplo, é um traço comum de quem cresce em um ambiente de medo constante. Acreditar que violência e amor são uma coisa só, também - afinal, muito do que aprendemos é fruto do que vemos, e uma criança que cresce vendo o pai agredir a mãe pode acabar aprendendo que a agressão é uma forma de amor e repetir o comportamento quando crescer.

"Eu acho muito importante pontuar que não é um episódio específico, mas geralmente uma construção de uma situação", diz a psicologa Fabiana de Faria sobre o efeito da violência em crianças. "Quando a criança vivencia ou presencia isso, vários atos de violência, provavelmente uma casa violenta, isso gera muitas consequências, não só de se sentir insegura, se sentir desamparada, mas também no sentido de a casa ser o primeiro lugar que a gente constrói as nossas relações. Então, se ela presencia episódios de violência, ela cria uma imagem de que as relações vão ser violentas, que uma relação entre homem e mulher não é boa, que acontece isso. O prejuízo é futuro também."

De acordo com o Balanço Anual do Ligue 180 desenvolvido pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, em 2016, das vítimas de violência daquele ano, mais de 78% tinham filhos. Além disso, diz também que, nesses casos, quase 60% desses filhos presenciaram a violência sofrida pela mãe e outros 22% também foram vítimas. Os relatórios mais recentes liberados pelo ministério, no entanto, não contém essa informação atualizada.

Denuncie

Caso você esteja em uma situação de violência doméstica ou conhece alguém que esteja, é possível fazer uma denúncia, de forma gratuita e anônima, discando 180, para a Central de Atendimento da Mulher. O contato também pode ser feito via mensagem de WhatsApp pelo número (61) 99656-5008, ou pelo Telegram, digitando "Direitoshumanosbrasilbot" na busca.

É possível ainda fazer uma denúncia através do aplicativo Direitos Humanos Brasil, ou pelo site da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. Outra opção é fazer uma denúncia direto na delegacia mais próxima ou procurar o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) da sua cidade.

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