Anúncio em 2 tempos sobre Coronavac gera confusão em momento delicado da pandemia

Matheus Pichonelli
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Brazil's Sao Paulo state Governor, Joao Doria, holds a box of the China's Sinovac COVID-19 vaccine as refrigerated containers with vaccines arrive at Sao Paulo International Airport in Guarulhos, Brazil December 30, 2020. The banner reads "Brazil's vaccine". REUTERS/Amanda Perobelli
Governador de São Paulo, João Doria, posa para fotos com os primeiros lotes do imunizante em Guarulhos. Amanda Perobelli/Reuters

Diz o manual básico da comunicação de risco, usada em tempos de guerra ou pandemia, que informações claras, unificadas e eficientes são fundamentais para transmitir segurança e obter ajuda da parte mais interessada em superar a crise: a população.

No Brasil, as estratégias de combate ao coronavírus têm sido alvo de disputas políticas desde o primeiro momento. Não foi no caso da vacinação, justamente a fase da luz no fim do túnel.

Enquanto o governador paulista, João Doria (PSDB), apresenta como troféu a Coronavac, imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan em parceria com uma fabricante chinesa, Jair Bolsonaro (sem partido) espalha sem provas a seus seguidores que a “vacina chinesa” provoca morte e invalidez. Enquanto o tucano anuncia um cronograma de imunização, o presidente diz que a melhor forma de se curar é ser contaminado naturalmente e que não fará campanha nem a favor nem contra a vacinação.

Pesquisas apontam que a população se divide nos campos da ação e da opinião conforme a simpatia ou antipatia pelas lideranças políticas em jogo.

Com os meses, os brasileiros se acostumaram ao tiroteio. E também às mortes, que já passam de 201 mil.

A novidade, neste começo de ano, é que a população está confusa não só em razão das ordens divergentes entre governos federal, estaduais e municipais. Está confusa pelo anúncio duplicado e em dois tempos da eficiência da vacina desenvolvida pelo Butantan.

Para quem acompanha os avanços da Coronavac desde o início e escreve a respeito, já é difícil compreender e traduzir termos técnicos a respeito das diferenças entre eficácia global e eficácia em casos leves, graves ou moderados. Para quem está na ponta da comunicação, entender essas variantes é ainda mais difícil.

Na semana passada o governador paulista, que no fim do ano decretou a volta da fase vermelha em seu estado e tentou viajar para Miami no dia seguinte, bateu o bumbo, com lágrimas e projetores de luz, ao anunciar que a eficácia da vacina desenvolvida com seu apoio era de 78%.

Na sequência, pediu urgência na aprovação do imunizante na Anvisa, órgão federal responsável por aprovar, ou não, a entrada de medicamentos no país. A agência devolveu uma série de perguntas e pedidos de detalhes sobre os estudos.

Nesta terça-feira 12, sem a presença do governador, os responsáveis pelos testes anunciaram que, em termos globais, a eficácia da vacina era de 50,4%. Isso significa que, entre todos os participantes dos testes (cerca de 12 mil, grupo bem menor do que o de outros testes em outros países), metade não teve qualquer sintoma nem precisou de atendimento. A vacina passa raspando, portanto, ao índice mínimo exigido pela agência para o medicamento ser distribuído na praça.

As divergências entre um número e outro poderiam ser divulgadas e explicadas em um único evento. Doria preferiu, ao menos no primeiro momento, faturar em cima do número maior, o que em si provoca uma confusão desnecessária tanto sobre a pesquisa quanto sobre o imunizante.

Ao priorizar dois momentos para explicar os números e seus detalhes, Doria deu margem para que os negacionistas saíssem da toca e atacassem o imunizante que --faltou dizer-- é até agora a única ferramenta capaz de evitar a evolução da doença de casos leves para graves. Basta lembrar que nenhum voluntário precisou ser hospitalizado ao fim dos testes —ou seja, a eficácia é 100% para casos graves ou moderados.

Na coletiva com os responsáveis, ficou claro que a vacina é segura e atende aos requisitos para seu uso emergencial.

O problema é que, diante do anúncio anterior, quem não é da área certamente sentirá insegurança diante da divulgação de números diferentes em dois tempos. É a margem para que espertalhões espalhem confusões entre porcentagem de eficácia e de sobrevivência. Um deputado da base aliada, por exemplo, chegou a questionar aos seguidores no Twitter se eles usariam um paraquedas que tivesse apenas 50% de eficiência --caso notório de confusão de alhos com bugalhos.

Em um momento delicado como este, é preciso louvar o trabalho dos pesquisadores que, certamente pressionados, precisam agora se virar nos 30 para traduzir notas técnicas para o grosso da população, que com razão quer saber apenas se deve ou não se vacinar.

Antes de chegar ao Palácio dos Bandeirantes, Doria se elegeu prefeito de São Paulo dizendo que não era político, mas gestor, com experiência em jornalismo e comunicação. Como jornalista e comunicador, deveria colocar o timing e a credibilidade do que diz à frente de qualquer pretensão eleitoreira.

Se esse módulo de gestão fosse apresentado em uma prova de O Aprendiz, reality show comandado por ele nos tempos de apresentador, Doria estaria demitido.