"Os segredos da ditadura estão no Itamaraty", diz jornalista

(Foto: Divulgação Editora)

No momento atual do Brasil, nada melhor do que termos um livro como Operação Condor (Editora Nova Fronteira), de Ana Lee e Carlos Heitor Cony (morto em 2018). O trabalho é uma continuação do elogiado O Beijo da Morte (Editora Objetiva), de 2003. 

Lee é direta quando perguntada sobre o momento oportuno em que o livro, que trata das mortes de Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, está sendo publicado. "Tem a ver total com os tempos atuais. O golpe de 64 foi apoiado pela classe média. Pessoas tinham medo de dividir o apartamento deles com 'comunistas'. Hoje, em outro contexto, o que ronda, é a mesma coisa, um sentimento subterrâneo", explica.  

A autora não vê como absurda a possibilidade de uma nova ditadura em Vera Cruz. "Não acho impossível. Existe uma mentalidade autoritária do governo atual que ultrapassa o presidente", pontuou. "Não é PT ou Bolsonaro. Se voltarmos a uma ditadura, afeta a todos nós. A esquerda no Brasil se perdeu. O PT não pode ser sinônimo de esquerda. Não sei identificar a esquerda. A direita é fácil identificar", analisou. 

O coautor da obra, Carlos Heitor Cony, foi um notório opositor da ditadura militar. Suas colunas no Correio da Manhã são verdadeiras aulas de bom texto e opinião embasada, e não puro achismo, muito comum hoje em dia. Aliás, o livro O Ato e o Fato (também da Nova Fronteira), tem esses preciosos textos de Cony na época da ditadura. "Cony praticou uma ajuda quase humanitária para as vítimas da opressão", falou Lee.

Um ponto interessante da conversa foi sobre o que foi feito pela Comissão Nacional da Verdade. " Foi importante porque abriu a discussão. Em termos de documentos aprovados e publicados, o arquivo do Brasil sobre o período não foi aberto. Lula e Dilma prometeram e abriram pouca coisa. Começou a se mexer quando vizinhos [Argentina e Chile] abriram seus arquivos. A CNV é para ‘inglês' ver", ironizou Lee. E ela dá o caminho para quem quiser achar informações importantes sobre o período do regime militar: "O Itamaraty tem um 'mundo' de documentos'. Os segredos da ditadura estão lá". 

E a nova Comissão da Verdade que o governo Bolsonaro quer reformar? “Com certeza haverá um retrocesso. Com os novos membros haverá uma tentativa de controle da informação. A antiga CNV era como se fosse uma água com barro - deu uma mexida e subiu alguma coisa. A nova não vai ter nem balançada. Não podemos ficar no 'antes isso do que nada'", finalizou.