Dispositivo para emagrecer que "fecha" a boca reforça estigma da obesidade

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A gordofobia precisa acabar (Foto: Getty Images)
A gordofobia precisa acabar (Foto: Getty Images)

Um grupo de cientistas da Nova Zelândia e do Reino Unido desenvolveu um dispositivo odontológico que limita a abertura da boca a 2 milímetros, obrigando a pessoa a ingerir somente alimentos líquidos. O objetivo do método – ainda em estudo – seria o emagrecimento. Para especialistas, é só mais uma forma de estigma da obesidade.

"É uma concepção medieval do que é a obesidade. Um jeito muito constrangedor de tratar uma doença importante e que é multifatorial. Ele produz mais preconceito da sociedade contra a pessoa gorda. O que ele consegue? Que o indivíduo tenha uma autoestima ainda mais baixa, problemas de aceitação e de imagem corporal", afirma a psicóloga Gabriela Malzyner, membro efetivo da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (CEPPAN).

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Métodos extremos

Para a endocrinologista Maria Fernanda Barca, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Sociedade Europeia de Endocrinologia (SEE), ainda que o tal dispositivo pareça uma aberração, ele não está sozinho.

"Aqui no Brasil, já se avaliou a colocação de uma placa no céu da boca para que a pessoa comesse mais devagar e assim emagrecesse. Em um congresso americano sobre obesidade, uma vez, vi um estudo em que colocavam uma cânula no estômago do paciente que aspirava o que ele comia, como se a pessoa vomitasse para baixo", conta a médica.

Segundo Maria Fernanda, tanto essas ideias em avaliação quanto a cirurgia bariátrica e o balão intragástrico (esfera de silicone colocada temporariamente no estômago do paciente por meio da endoscopia e inflada para que ele tenha sensação de saciedade) – já feitos – são extremos. "Quando se retira o dispositivo, seja ele qual for, a cabeça do paciente não foi trabalhada, e ele volta a comer", reflete a endocrinologista.

Apoio psicológico

A médica afirma que, além de uma avaliação física criteriosa – que identifique questões físicas que possam estar colaborando com o excesso de peso –, é necessário entender o padrão de comportamento do obeso. O que o leva a comer? O apoio de um psicólogo nesse processo é fundamental.

Maria Fernanda concorda com a psicóloga Gabriela sobre a culpabilização de pessoas gordas com métodos como esse do dispositivo que "fecha" a boca. "Algumas pessoas obesas pensam que merecem ser punidas, adotam até mesmo um discurso de 'sou um sem vergonha, estou gordo porque como' e encaram métodos extremos como castigo. E a obesidade é uma doença crônica."

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