'Discurso raso favorece Bolsonaro', afirmam diretores de doc sobre 'lado obscuro' das redes sociais

(Imagem: divulgação Grifa Filmes)

Quem são os responsáveis por barrar conteúdos considerados impróprios em sites como Facebook, Twitter e YouTube? Quais são os critérios? Como eles são treinados para isso? Essas questões, tão importantes num mundo onde as redes sociais da internet ganham cada vez mais influência em fatos e decisões com consequências no mundo real, estão no cerne de ‘The Cleaners‘, documentário que estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (28).

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Até chegar em algumas das respostas, os diretores alemães Moritz Riesewieck e Hans Block não encontraram caminho fácil, já que as empresas costumam ser extremamente sigilosas sobre como tratam o conteúdo que milhões de usuários postam diariamente. “Mark Zuckeberg [criador e CEO do Facebook] e os outros dizem que querem fazer do mundo mais aberto e conectado. Na nossa investigação sobre redes sociais e a vida interna destas companhias descobrimos justamente o contrário: uma indústria cheia de segredos e sem transparência, com código de silêncio em volta de qualquer problema ou erro”, revelam os cineastas, que falaram com o Yahoo! por email.

“Estas empresas fazendo tudo que podem para esconder o fato que elas minam o discurso público. Qualquer um que faça o público saber a respeito da forma completamente irresponsável com que direitos fundamentais de expressão são tratados ali sofrem represálias graves. Tudo isso leva ao oposto de um mundo aberto e conectado”, completam.

Coproduzido pela brasileira Grifa Filmes, o documentário viajou pela Alemanha, Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, Filipinas, Indonésia e Turquia em busca dos “limpadores”, funcionários terceirizados responsáveis por avaliar até 25 mil imagens em um dia com 10 horas de trabalho. “Levou um certo tempo até conseguirmos falar com eles”, explicam os diretores, que montaram uma rede de contatos nos locais até chegar aos trabalhadores que aparecem dando depoimentos no filme. “Ficamos surpresos como eles são orgulhosos do trabalho que fazem. Diziam: ‘sem nós, as redes sociais seriam uma bagunça completa’.”

“Por outro lado, muitos deles sofrem em silêncio pelo impacto que o trabalho tem em sua saúde mental”, alertam. Em ‘The Cleaners‘, muitos dos entrevistados falam sobre problemas psicológios que enfrentam após tanta exposição a imagens de extrema violência. O longa, aliás, chega aos cinemas daqui pouco depois das tragédias em Suzano (SP) e na cidade de Christchurch, Nova Zelândia. Em ambos os casos, as cenas de massacre rodaram as redes sociais numa velocidade muito maior do que os moderadores poderiam barrá-las.

Ainda mais intrincados são os casos em que mensagens de ódio passam batidas pelos olhos destes funcionários, já que eles são incapazes de distinguir postagens que podem soar ofensivas apenas de acordo com características e costumes de países distantes milhares de quilômetros de suas realidades.

“A complexidade de decisões que muitos destes funcionários jovens e mal-remunerados precisam tomar em questão de segundos são bastante similares às decisões que jornalistas tomam após longas discussões de avaliação”, comparam Riesewieck e Block. “Existe uma razão porque jornalistas estudam anos e ainda assim se reúnem em equipe por horas antes de decidir publicar ou não uma imagem, vídeo ou comentário. Os moderadores de conteúdo das redes sociais nos disseram que muitas vezes não podem fazer outra coisa a não ser usar o instinto, já que não têm ideia do contexto cultural, político ou satírico de um post.”

Mas será que esse clima de caos não é interessante para algumas figuras que assumiram o poder em diversos lugares do mundo nos últimos anos? Os diretores acreditam que sim. “Os políticos populistas lucram com o discurso raso das redes sociais”, afirmam. “Há um claro incentivo para que as pessoas postem qualquer coisa que seja fácil de retratar, que provoque sentimentos – quanto mais extremo, mais compartilhamentos e reações vai gerar. Isso é exatamente o que ajuda políticos como Trump e Bolsonaro.”

“Mesmo que muita gente discorde ou tente argumentar, elas nunca vão alcançar tantas pessoas com um contra-argumento equilibrado do que a primeira declaração altamente emocional, que montou o molde e o tom do discurso. Esta é uma diferença fundamental em relação a todas as outras mídias que conhecemos antes. Nunca antes foi tão fácil infectar milhões de cerébros com ideias tóxicas como é hoje, via redes sociais.”

Os cineastas aproveitam ainda para fazer um apelo, antes que a situação fique ainda pior. “Não devemos permanecer como usuários passivos e tolos, mas nos tornarmos ‘cidadãos digitais’ interessados no destino de nossa sociedade, e em como equilibrar liberade de expressão com nossa necessidade de proteção. Estas decisões não podem ser repassadas para umas poucas companhias transnacionais. Precisamos redemocratizar a web”, finalizam.

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