Discurso de Tadeu lembra que inclusão no BBB deveria ser regra, e não exceção

Tadeu Schmidt faz discurso em libras no BBB22 (Reprodução Globoplay)
Tadeu Schmidt faz discurso em libras no BBB22 (Reprodução Globoplay)

Tadeu Schmidt surpreendeu o público e os brothers do "BBB2" ao fazer um discurso em libras para anunciar que Jessilane, uma das emparedadas ao lado de Natália e Rodrigo, estava salva. A sister, que tem pós-graduação no idioma, ficou emocionada ao reconhecer o uso de Libras pelo apresentador. No idioma, Tadeu afirmou que a professora poderia ficar tranquila, já que as mulheres estavam a salvo nesse paredão.

Em uma sociedade capacitista e na qual qualquer nível de acessibilidade é uma conquista árdua da comunidade PCD (pessoas com deficiência), o discurso de Tadeu foi uma grata surpresa, colocando no horário nobre um idioma com pouquíssima representatividade na TV aberta. Jorge Suede, presidente da Associação dos Surdos de São Paulo e ativista em prol da acessibilidade, fez um post emocionado sobre a fala de Tadeu. "Gente, eu estou surtando, o Tadeu falando em libras. Chorando de felicidade. Ficou um pouco confuso o que ele disse, mas como é o Tadeu, eu perdoo", comentou.

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Tadeu Schmidt merece os elogios pela importância de seu discurso inclusivo no horário de maior audiência do dia. Mesmo assim, é essencial que saibamos que celebrar um momento pontual e raro não é suficiente: precisamos exigir acessibilidade como regra, e não exceção, e o discurso sobre inclusão social e igualdade precisa evoluir na área do entretenimento.

Foi só a partir de 2020, por exemplo, que uma plataforma como a Globoplay lançou a função de incluir legendas em português em atrações originais, conhecida como "closed caption". A tecnologia traz mais acessibilidade para deficientes auditivos, além de pessoas neurodivergentes, disléxicas e com questões de processamento de informação. Grande parte dos programas, filmes e séries ainda precisa de autodescrição, por exemplo, como indicar ao espectador momentos de choro, barulhos e onomatopeias. De forma geral, a TV brasileira permanece inacessível para pessoas com deficiência, e é obrigação de programas com faturamento milionário como o BBB mudar esse cenário de forma urgente.

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O que diz a lei

A Constituição Brasileira possui a Lei Brasileira de Inclusão, que forma o Estatuto da Pessoa com Deficiência, conjunto de normas que assegura o exercício de direitos e liberdades fundamentais por pessoas com deficiência. No cenário do entretenimento, PCDs têm direito a bens culturais oferecidos em formatos acessivos, caso de qualquer tipo de programa de televisão, cinema, teatro e quaisquer atividades culturais e esportivas.

Caso alguma emissora de TV, por exemplo, se recuse a trazer um formato acessível para pessoas com deficiência, ela poderá ser enquadrada no crime de capacitismo, passível de multas e prisão pela lei brasileira.

Mesmo com as garantias na lei, a obrigatoriedade de Libras na TV e na sociedade brasileira como um todo ainda é um problema pouco debatido, e que precisa do esforço contínuo de parlamentares para receber a atenção que merece. No Senado, a tentativa de tornar a Língua Brasileira de Sinais se tornou PEC (proposta de emenda constitucional) pela advogada Kamila Gouveia, de Sergipe, por meio da plataforma e-Cidadania. "É mais do que acessibilidade, cultura e identidade. Essa ideia visa garantir cidadania para as pessoas que utilizam a linguagem visual motora e respeito a natureza humana. É uma questão humanitária", explicou. A PEC aguarda a retomada das sessões presenciais do Senado para ser avaliada.

Como ser inclusivo dentro do BBB?

A inclusividade na escalação do BBB é uma questão que também precisa ser discutida pelo público e por quem se interessa por realities. Na edição de 2022 temos o elenco mais diverso dentro do universo LGBTQIA+, com pessoas como Lina, Luciano, Maria, Tiago Abravanel e Vyni se declarando fora do espectro hetero-binário.

Mas ainda precisamos evoluir na discussão da acessibilidade, especialmente falando de um programa baseado em dinâmicas discursivas, provas de resistência e força física x destreza mental. A única edição a trazer uma pessoa PCD como participante foi o BBB17, que contou com a atleta paraolímpica Marinalva, que sofreu muito capacitismo na casa ao ter que ouvir que se "fazia de coitada" por sua deficiência.

Em um reality como o BBB, como uma pessoa PCD poderia competir com acessibilidade em provas que obrigam os participantes a ficarem em pé mais de 20 horas seguidas, por exemplo? E uma prova de memória e concentração, como uma pessoa disléxica, autista ou com qualquer questão de processamento de informação conseguiria participar sem ser alvo de regras que só fazem sentido para pessoas padrões e normativas?

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Caso o programa tenha intenção em abrir o escopo de seus elencos futuros e chamar pessoas que reflitam o fato de mais de 20% da população brasileira ser PCD, será necessário mudar o olhar e considerar como resistência algo diferente do que passar por perrengues físicos.

Saiba mais sobre Libras

Libras é a sigla para Língua Brasileira de Sinais, que está respaldada pela lei nº 10.436/2002 como linguagem oficial das pessoas com deficiência auditiva. Como o próprio nome sugere, ela é um idioma que em vez de ser falado é comunicado por meio de gestos. A Língua Brasileira de Sinais ganhou recentemente visibilidade devido à primeira dama, Michelle Bolsonaro, ser intérprete de Libras.

É a mesma linguagem que muitos intérpretes falam em alguns programas de televisão e também comumente vistos em propagandas eleitorais – você deve ter notado aquele quadrado com uma pessoa fazendo gestos no canto da tela. Em sua participação na posse do presidente Jair Bolsonaro, Michelle traduziu para Libras o discurso do marido.

Exemplos na TV

Embora o Brasil ainda tenha um longo caminho para percorrer na inclusão de PCDs na TV aberta, existem alguns exemplos que abriram caminho para atores fora do padrão normativo em horário nobre. A novela "Um Lugar ao Sol", da Globo, conta com a atriz Samanta Quadrado, jovem com Síndrome de Down.

Em 2006, na novela "Páginas da Vida", a atriz de sete anos Joana Mocarzel fez sucesso com o papel de Clarinha. Atriz com deficiência auditiva, Tatá Cordazzo atuou em "Malhação" em 2019, além de fazer peças de teatro no Sul do Brasil. Juliana Caldas chamou atenção com o papel da jovem Estela em "Outro Lado do Paraíso", e Manuela Trigo, primeira atriz mirim com paralisia cerebral na Globo, participou de "Aruanas", de 2019.

É necessário que o público cobre políticas inclusivas e faça barulho quando perceber elencos na TV que sejam predominantemente brancos, cisgênero e sem pessoas gordas ou PCDs, especialmente quando o marketing das atrações falar sobre "diversidade". A escalação de "Casamento ás Cegas" é um exemplo ideal. Lançado em 6 de outubro de 2021, o reality que promete focar no amor além das aparências ganhou a audiência do público brasileiro, mas parece estagnar no "mais do mesmo" quando falamos sobre representatividade.

Se a ideia era embarcar no "amor às cegas", por que seguimos vendo corpos padrão no elenco de participantes? A ausência de corpos gordos e PCDs (Pessoas com Deficiência) tira o significado de "reality", em português "realidade", já que não reflete muitas das pessoas do mundo real. E se a justificativa for a falta de interesse de pessoas fora do padrão em participar do programa, garantimos que não é uma verdade. Aos 25 anos, Lethicia Martos, de Santos, no estado de São Paulo, conta que participou do processo seletivo e esteve em contato com a produção até o final de janeiro, pouco antes de começarem as gravações. Com 97 kgs distribuídos em 1,61 m, a jovem desconfia que sua aparência física determinou sua exclusão na fase final de seleções do elenco.

"Eu estava nas finais, mas eu acredito que eles optaram por seguir um padrão. Mandei foto de rosto, de corpo e, até então, eles estavam bastante interessados na minha pessoa. Eu passei com os produtores e eu não sabia que reality era, eu só sabia que era sobre casamento. O produtor chegou a dizer que estava tudo certo e eu participaria", relata.