Diretora de doc sobre ativismo estudantil fala sobre importância das ocupações de escolas

(Imagem: Carol Quintanilha/Divulgação)

Em novembro de 2015, o então governador paulista Geraldo Alckimin anunciou uma reorganização escolar que previa o fechamento de quase uma centena de escolas públicas e o remanejamento de cerca de 300 mil alunos para outras unidades. Revoltados com uma decisão que teria mudanças drásticas em suas rotinas, estudantes ocuparam escolas e deram início ao que ficou conhecido como Movimento Secundarista. Este é o evento central do documentário ‘Espero Tua (Re)volta’, que participa a partir desta semana do Festival de Berlim, um dos mais prestigiados do cinema mundial.

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A narrativa do filme tenta ampliar a discussão para antes e depois daquele momento, partindo das manifestações de junho de 2013 e terminando com a eleição de Jair Bolsonaro para presidente.

“Quando eu escutei o depoimento do Bolsonaro falando que toda forma de ativismo seria proibida e propondo que os movimentos que utilizam a ocupação de espaços como forma de luta, ou que segundo Bolsonaro ‘invadem prédios’, deveriam ser tratados como terroristas eu pensei que este é um final bem triste para essa história”, explica a diretora Eliza Capai, em entrevista ao Yahoo!. “Mas entendi que este deveria ser o final do filme, para questionar o que fica e o que vai ser daqui pra frente.”

Para a cineasta, um dos aspectos fundamentais do Movimento Secundarista foi a capacidade de mobilização dos jovens por um bem maior. “Muitos deles estudavam em escolas que não seriam afetadas, mas mesmo assim diziam que a luta era por todos”, lembra. “É uma consciência do coletivo. E de que, para fazer transformações sociais, você precisa se organizar e pensar em estratégias. E essas estratégias, em geral, envolvem incômodos sociais. Porque enquanto as pessoas não falaram sobre o que está sendo feito, não há transformação.”

“Senti que havia uma necessidade de fazer um registro histórico daquele momento de boom para que as próximas gerações secundaristas consigam entender o que já foi feito, o que pode ser melhorado, o que é legal de se inspirar, para pensar em como reagir a políticas injustas no futuro”, complementa.

O filme de Capai tem três personagens centrais, que fizeram parte das ocupações: Lucas “Koka”, Marcela Jesus e Nayara Souza. São jovens que, durante as ocupações, tiveram oportunidade de discutir também outros temas, como feminismo, lutas conta o racismo e contra o preconceito à comunidade LGBT. Para eles, o espaço escolar serviu para debater questões que normalmente nem são aprofundadas naquele ambiente e, num eventual cenário defendido pelo projeto Escola Sem Partido, podem ser simplesmente banidos.

“A gente não é educado a pegar as premissas e questioná-las”, resume a cineasta. “O que existe nas nossas escolas, em geral, é uma escola muito pouco crítica, em que a gente reflete muito pouco sobre a história do Brasil e sobre a importância dos movimentos sociais, que são historicamente criminalizados. O Movimento dos Sem Terra é visto como bandido e vagabundo, mas pouco se questiona o problema fundiário no Brasil”, exemplifica.

Espero Tua (Re)Volta faz parte da seção Geração 14+ do Festival de Berlim, voltada ao público de faixa etária parecida com os personagens que verá na tela, ainda que numa realidade bem diferente. “É uma mostra para que os jovens vejam e escutem as vozes que estão sendo oprimidas, este é o foco desse ano”, diz Capai.

Com seu filme, a diretora espera que o mundo tenha um vislumbre da intrincada situação que o Brasil vive atualmente. Sem perder a esperança, ela aponta uma sugestão de caminho para que as coisas possam melhorar: “A gente tem que se concentrar novamente na capacidade de sonhar: ‘Qual é o país do meu sonho? Quais são as formas de se chegar lá?’”. Antes do sonho, é preciso olhar para realidade, como fazem os documentários.