Dilma insiste em fala de golpe diante do vazio de poder em 'Alvorada'

BRUNO BOGHOSSIAN
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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL, 29-08-2016 - Dilma Rousseff. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 29-08-2016 - Dilma Rousseff. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu não tenho mais nada a perder. E, aí, dá uma imensa tranquilidade na vida", disse Dilma Rousseff, num dos 116 dias que passou no Palácio da Alvorada depois de ser afastada temporariamente do cargo. "Isso não significa que não se lute sistematicamente", completou.

Naqueles quase quatro meses, de maio a setembro de 2016, a rotina de Dilma revelou uma personagem que cumpria os rituais de defesa num processo de impeachment, mas se comportava como se soubesse ser impossível reverter sua saída definitiva da Presidência.

No documentário "Alvorada", que estreia no festival É Tudo Verdade nesta terça (13), as diretoras Anna Muylaert e Lô Politi narram esse período sem sair do palácio --que, construído como símbolo do poder, naquele momento abrigava uma autoridade esvaziada. O filme captura um ambiente que varia entre a tensão daquele processo e a melancolia de seus personagens.

As imagens descrevem um cenário de frieza enquanto, do lado de fora, o país parecia em ebulição. As cineastas exibem funcionários, da cozinha ao jardim, que continuam trabalhando como se fossem dias comuns. E arranham a superfície da personalidade de Dilma --figura conhecida por raramente baixar a guarda.

Em dois momentos, durante reuniões sobre sua estratégia política, a petista pede que a filmagem seja interrompida. Em entrevista ao documentário, ela diz que a presença da câmera às vezes "é excessiva".

As restrições impostas fazem parte do retrato que se faz de Dilma. O distanciamento era, inclusive, uma característica que aliados e adversários costumavam apontar como fonte de suas dificuldades políticas. "Todo dia eu enfrento problema e, quando eu tiver que enfrentar problema, eu vou enfrentar. Eu, sozinha, e Deus", diz ela.

Tão próximo da protagonista, o filme deixa de encarar de frente a falta de governabilidade e outros fatores que levaram a sua derrocada. A certa altura, Dilma diz que o governo fortaleceu a Polícia Federal e o combate à corrupção, mas passa ao largo dos escândalos na Petrobras revelados até ali. Na defesa técnica das pedaladas fiscais, ficam de fora os sinais de ruína econômica já claros naqueles meses.

Então, o humor da petista traduzia uma resignação. Numa conversa com repórteres da BBC, ela faz uma autoavaliação: "Eu concordo que eu tenho que ser humana, porque tem gente que acha que eu não sou. Fico estarrecida com esse papo. Será que eu sou o quê, se eu não sou humana?".

Num único ponto do filme, a petista demonstra algo semelhante a rancor, quando analisa o conceito do mal. "Ele é banal, o mal. O Eduardo Cunha é banal", completa, numa referência ao presidente da Câmara que havia sido responsável pela abertura do processo de impeachment.

Além do comportamento pessoal de Dilma, o dia a dia do Alvorada é exibido como alegoria do poder que ela perdeu depois que o Senado a afastou do cargo, em maio de 2016. Em algumas das primeiras cenas do filme, funcionários discutem sua dieta, a compra de granola e o entupimento do filtro do espelho d'água do palácio.

A lei determina que um presidente afastado durante um processo de impeachment continue vivendo no palácio, com direito a assessores. Mas fica praticamente sem autoridade.

Numa tarde, uma secretária recebe da petista o pedido de uma caneta para assinar um documento. A cena é um símbolo de seu esvaziamento: a papelada não era mais uma decisão presidencial, mas uma carta que ela enviaria aos senadores antes do julgamento final.

Sem poder, Dilma e seus advogados agem como se sua missão fosse apenas construir um registro histórico e parcial, que reprisa o discurso político petista de que houve um golpe naquele processo. "É deixar a nossa versão. Nós disputamos isso toda hora", diz a então presidente afastada.

Abrir as portas do palácio fez parte desse esforço. "Alvorada" é um filme sem narração das cineastas e com foco maior na protagonista do que no processo político, em contraste com obras como "Democracia em Vertigem". Ainda assim, a defesa de Dilma é a linha central da história.

As cenas captam ainda a ruptura que havia naquele processo. Depois que o Senado cassa o mandato de Dilma, políticos aliados de Michel Temer vão ao Alvorada. A câmera registra o momento em que o ex-ministro Jaques Wagner, da Casa Civil, tenta impedir que eles notifiquem a petista pessoalmente, e eles insistem em entrar.

As imagens finais mostram a despedida de Dilma e os caminhões que levariam seus pertences --caixas, uma geladeira Brastemp amarelada e um Fiat Tipo 1996. Depois da saída da petista, um grupo de funcionárias posa para fotos no gabinete presidencial.

Nos meses seguintes, o Alvorada ficaria desocupado. Michel Temer não viveu lá. Ele disse que deveria haver fantasmas no palácio.

ALVORADA

Quando: Terça (13), às 21h; quarta (14), às 15h, seguido de debate

Onde: No Looke

Preço: Grátis (limite de mil acessos)

Classificação: Livre

Produção: Brasil, 2021

Direção: Anna Muylaert e Lô Politi

Avaliação: Bom