Dificuldade para ser amado e arrumar emprego: 11 situações que pessoas gordas sofrem

Hulda em 2009, antes da bariátrica – Foto: Arquivo Pessoal

Por: Roseane Aguirra, colaboração para o Yahoo.

De tarefas simples do cotidiano, como amarrar o tênis, até outras mais complexas, como viver um grande amor, conseguir um emprego ou enfrentar o preconceito. Quem é gordo sofre em situações cotidianas que muita gente nem imagina.

Três mulheres relatam ao Yahoo ao menos 10 coisas que já sofreram por serem gordas. Confira abaixo e reflita toda vez que fizer um julgamento ou julgar alguém com o simplesmente comentário “é relaxo” ou “só fazer regime” — na maioria dos casos, é uma questão de biótipo e isso está além de comer pouco ou muito.

“Não vivi aquele romance da adolescência”
Se apaixonar, ser correspondido e ter a primeira relação quando se é gordo é um tabu e tanto.

“Era o peso pesado. Para não sofrer esses reflexos, o meu foco na época eram os estudos. Quando emagreci, tive algumas respostas para perguntas: ‘Por que tive dificuldade de me apaixonar? Por que me acostumei com a solidão? Por que nunca namorei?’ Hoje, ao fazer essa reflexão, vejo que não vivi a fase onde as pessoas da minha idade viveram, como por exemplo, aquele romance da adolescência. Aos 33 anos, estou recomeçando. Ainda não encontrei uma pessoa para seguir nesta jornada da vida, mas já dei o primeiro passo que foi o autoconhecimento, uma reflexão profunda, e cheguei à conclusão de que depois de emagrecer para ter um relacionamento de sucesso é preciso eliminar vícios, porque a gente se torna tão independente que se esquece de que ninguém é feliz sozinho. A obesidade trouxe um pano de fundo: a insegurança, a solidão e a independência”, reflete, Hulda.

Dificuldade em comprar roupas
“Comprar roupa é uma coisa muito triste, muito complicada. Eu sempre compro roupa maior que o meu tamanho, porque eu acho que a roupa do meu tamanho não vai caber”, diz a administradora paulista Carolina Ribeiro*, de 25 anos. A numeração das roupas também foi um problema para a consultora brasiliense Hulda Rode durante a adolescência. “Nunca tive a oportunidade de comprar roupas em shopping, porque naqueles anos não existia numeração 50 para pessoas jovens”, lembra a consultora, hoje com 33 anos.

Sentir calor
A vergonha em relação ao próprio corpo faz, muitas vezes, a pessoa gorda tentar escondê-lo e acaba, assim, passando muito calor. “Quando você está muito gorda, você tenta se esconder com roupa larga, para não parecer que você está gorda. Então, eu sempre passei muito calor, eu era sempre a pessoa de casaco, quando não estava ninguém de casaco”, conta Carolina.

Não consegui viajar de avião
“Não tive a oportunidade de viajar de avião porque os assentos eram para pessoas magras, não tive a oportunidade de ir ao cinema, porque não tinha assento para pessoas obesas, e atividades da vida diária como andar de ônibus sempre foram desconfortáveis e constrangedoras”, conta Hulda, que chegou a pesar 120kg e perdeu 62kg após uma cirurgia bariátrica, realizada em 2010.

A consequência de toda essa permanência enquanto obesa foi um ser que se privou de viver o básico, desfrutar de uma vida social, diz Hulda

Hulda após a cirurgia – Foto: Antonio Junior/Divulgação

Simples gesto de cruzar as pernas
“Quando tinha uns 12 anos, reparava que as meninas da minha sala sentavam com a perna cruzada debaixo da mesa e eu nunca consegui fazer isso. Um [motivo] é porque sou uma pessoa alta e dois, tinha as coxas largas, porque era gorda. Então, cruzar a perna debaixo de uma mesa foi algo que eu só consegui fazer esse ano”, conta Carolina, hoje com 25 anos.

Assadura nas coxas
“Tenho muita assadura nas coxas, sempre tive. Quando comecei a trabalhar, ia de vestido e sempre usava uma espécie de espartilho, que segura a banha e ia até as coxas também para não ficarem assadas”, lembra Carolina.

Amarrar o tênis
Outra dificuldade relacionada ao dia a dia, e que pode se tornar um constrangimento para quem é gordo, é amarrar o tênis. “Gordo não consegue só ir para frente e amarrar, porque a barriga não deixa. Tem que cruzar a perna e amarrar de lado”, explica Carolina.

Sempre no banco da frente do carro
A organização de quem vai no banco de trás ou da frente em um carro quando está em um grupo grande, está entre as situações que mais magoam a administradora. “Sempre falam assim ‘ah, acho melhor ela ir na frente e os outros vão atrás.’ Isso é o óbvio, porque sou a maior pessoa vou na frente, mas isso é uma coisa triste, sabe? Ainda mais para mim que era a mais nova dos meus primos e ainda mulher, ficava uma coisa meio chata.”

A verdade é que o gordo feliz com seu corpo incomoda pra caramba

Fôlego nas tarefas do dia a dia
“O principal para mim, que provavelmente as pessoas magras não reparem, é o fôlego, a respiração.  Subir uma escada do metrô, chegar lá em cima e está morrendo. Passei a suar muito menos [depois de emagrecer], antes eu sempre chegava nos lugares lavada de suor”, lembra Carolina.

Preconceito no mercado de trabalho
Além de sofrer com bullying na juventude, mais tarde, Hulda também teve que lidar com a dificuldade para conseguir um emprego. “Na fase adulta, o maior preconceito foi com o mercado de trabalho. Mesmo sendo uma grande profissional, tinha dificuldades de conseguir uma oportunidade de trabalho. Selecionavam o meu currículo, mas não me convocavam. Era velado.”

Olhar do outro e comentários sobre aparência
“A pior frase que ouvi ao longo de toda a minha vida é: Nossa como você está gorda!”. Geralmente quando a gente reencontra alguém é comum a gente perguntar como ela está. Mas no caso da pessoa obesa, o excesso de gordura chega antes de ser quem a pessoa é. É cruel. Nem todos estão preparados para essa frieza. É um comentário que fere a alma”, lamenta Hulda.

Para a publicitária Camilla Conde, de 37 anos, o preconceito é diário. “Ele vai desde a fala de uma pessoa, geralmente um ‘ai, estou gorda (o)’ vindo de uma pessoa magra ou até mesmo algo mais pesado, até uma atitude que é visível a repulsa. E só quem é gordo sabe o que é isso”.

“Como mulher gorda e consciente do meu corpo tenho certeza que ser gorda não é empecilho para nada na vida – eu trabalho, corro e brinco com minha filha, cuido da minha casa, tenho uma vida sexual ativa, mas o problema está no olhar do outro, sempre. As pessoas enxergam gordas (os) como inaptas, preguiçosas e até mesmo sujas. A verdade é que o gordo feliz com seu corpo incomoda pra caramba. Mas ninguém disse que estamos aqui para agradar a todos, né?”, conclui a publicitária.

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada.