Diagnosticado com "estresse", segurança morre com coronavírus após lutar por atendimento na Baixada

Marcos Nunes
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Segurança tinha planos de se aposentar no fim do ano e usar o dinheiro do FGTS para ajudar os três filhos a construírem suas casas

RIO - A Covid-19 interrompeu para sempre os sonhos do segurança Jorge Luiz Lima Bonfim, de 54 anos. Descrito pela família como um homem alegre que adorava fazer churrascos, ele conseguiria se aposentar no fim de 2020. Com o dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) a que teria direito, o segurança planejava ajudar a construir casas próprias para seus três filhos no mesmo terreno onde morava, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Não deu tempo: Jorge morreu no último 12, no Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, na Zona Norte do Rio, após dez dias internado no CTI.

Antes de ir para o Carlos Chagas, onde já chegou com 50% do pulmão comprometido e dificuldades para respirar, Jorge havia procurado ajuda em outras duas unidades de saúde. Uma delas foi a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Edson Passos, em Mesquita, onde foi medicado e liberado. A outra foi o polo municipal de atendimento e triagem. Neste último, segundo a família, o segurança teria ouvido a recomendação de voltar para casa porque estaria apenas com problemas emocionais (estresse).

Os dois atendimentos teriam ocorrido entre os dias 27 e 30 de abril, quando, segundo parentes, o segurança já teria apresentado os primeiros sintomas da doença, como febre e tosse. Casado há 27 anos com Lucinda da Silva Bonfim, de 51, e avô de oito netos, Jorge foi sepultado no dia 13 de maio no Cemitério de Olinda, em Nilópolis, município vizinho a Mesquita.

— Fiquei horrorizada com tudo que aconteceu. Liberaram meu marido dizendo que ele só estava com problemas de estresse e mais nada. Ficamos, então, tratando dele em casa. No início de maio, a febre e a tosse pioraram e fomos para o Hospital Carlos Chagas. Lá, o Jorge foi entubado e internado. No dia 12, recebemos a notícia da morte. Ele era muito agarrado com nossa netinha, de 3 anos. Ela ainda não sabe o que aconteceu, pergunta por ele todos os dias, e eu digo que o vovô foi passear e que vai voltar. Ela ainda é muito novinha para entender — contou Lucinda.

Na certidão de óbito do segurança, consta a informação de que a morte ocorreu por síndrome respiratória aguda, insuficiência renal e suspeita de Covid-19. No entanto, segundo parentes, o resultado de um teste ao qual Jorge Luiz foi submetido no Hospital Carlos Chagas confirmou que o segurança estava com o novo coronavírus. De acordo com o boletim emitido pela Secretaria Estadual de Saúde (SES) nesta terça, Mesquita já havia registrado um total de 48 óbitos pela doença.

Procurada, a Secretaria estadual de Saúde, responsável pela UPA de Edson Passos, disse que coordenação da unidade informou que Jorge Luiz Lima Bonfim deu entrada na tarde de 27 de abril relatando palpitações no peito, fraqueza e sensação de desmaio. No momento do atendimento, acrescentou o órgão, o paciente apresentava taxa de saturação de oxigênio de 96%. A SES alegou que Jorge foi medicado, mantido em observação e, às 18h03, deixou a unidade à revelia.

A Secretaria acrescentou que, segundo a direção do Hospital Estadual Carlos Chagas, Jorge Luiz deu entrada na unidade em 2 de maio. A direção reforça que o paciente foi assistido por uma equipe multidisciplinar e, pela evolução da doença e agravamento do quadro clínico, foi a óbito dez dias depois. O hospital confirmou que foi realizado o teste de Covid-19 no paciente e que o resultado foi positivo.

Também procurada, a Prefeitura de Mesquita, responsável pelo polo municipal de triagem e atendimento, não enviou resposta sobre a entrada de Jorge Luiz na unidade de saúde.