Homem trans, Cleyton Bitencourt gestou a filha e quer ajudar outros pais

Cleyton Bitencourt gestou a filha, Álex (foto: Acervo Pessoal)
Cleyton Bitencourt gestou a filha, Álex (foto: Acervo Pessoal)

Resumo da Notícia:

  • Cleyton Bitencourt gestou a filha, Álex, e dividiu a experiência nas redes sociais

  • Homem trans, ele quis passar por todo o processo de forma natural

  • Com mais de 1 milhão de seguidores, Cleyton inspira outros homens trans a gestar

A paternidade é muito mais do que registrar um filho ou ajudá-lo a crescer. Nos últimos anos, a sociedade tem discutido cada vez mais o lugar do pai na vida de uma criança e como a masculinidade precisa ser remodelada.

Diante disso, o Yahoo conversou com Cleyton Bitencourt, pai que teve a experiência de gerar a filha. “Sempre tive o sonho de ser pai e também queria gestar”, diz o carioca de que é pai de Álex, de 1 ano e 4 meses, com Fabiana Santos.

Mas além do desejo, o medo quase o impediu. “Os homens trans se moldam tanto para parecer um homem cis que deixam o sonho de lado, como deixei por um bom tempo. Tinha medo da sociedade me ver como uma coisa ‘bizarra’ ou como uma mulher, que era algo que não queria. Tentei normalizar o uso do útero por homens trans”, explica.

O jovem quer agora ajudar outros homens trans a terem acesso a informações de como é engravidar. “Não achava conteúdo de homens trans grávidos em português e quis dividir minhas experiências para os próximos. Já recebi muitos contatos sobre o processo”, relata.

Com o acompanhamento de uma doula durante toda a gravidez, ele fez o pré-natal no Sistema Único de Saúde (SUS) e não encontrou resistência ou foi vítima de preconceito. “A doula tirou todas as minhas dúvidas porque não tinha informação nenhuma. Fiquei muito sensível e com muito medo. Parei a minha transição de gênero para engravidar e não sabia como seria o processo”, avalia.

Experiências

Cleyton dividiu toda a gestação com os cerca de 180 mil seguidores no Instagram, 336 mil no Kway e mais de um 1 milhão no TikTok. “Algumas pessoas me criticaram, mas ignorei e foquei só nos comentários bons. Recebi muito apoio e imaginava, pela minha vivência, o que esperar”, recorda.

“Até hoje recebo comentários de homens trans que chegam ao meu perfil por conta da gestação e muitos falam da imagem ‘machão’ do homem e que a gestação é algo para mulheres. Não me sinto menos homem porque engravidei e falamos sobre isso. Vira uma onda de inspiração”, completa.

Para Cleyton, os pontos altos da formação de Álex dentro dele são muito claros. “Foi sentir ela mexendo na barriga. Me marcou demais porque brincava muito com ela, gostava de sentir ela chutando e virando. Foi o mais gostoso de viver”, aponta.

Disforia

A parte mais complicada, e sensível, da gestação foi voltar a se ver com curvas que não faziam parte da sua vida atual. “A minha disforia é meu peito e na gestação ficou uma coisa absurda por conta da produção de leite, mas não conseguia me olhar no espelho”, lembra.

Não ter passado pela cirurgia de mastectomia fazia parte dos planos para poder amamentar. “Trabalhava na minha cabeça que seria para algo bom e temporário. Busquei acompanhamento psicológico para lidar com meu peito, com a aparência. Me incomodou muito estar grande, marcar na blusa... Já a minha barriga amei, acho que ficou linda”, completa.

Paternidade

Pai presente, hoje ele busca reforçar com seu público que a criação é uma tarefa dividida. “Pais têm obrigações com seus filhos. Não tive uma figura paterna na vida, então estou criando a minha paternidade. Tenho consciência do que tenho que fazer sobre a minha filha, sobre a minha casa”, reforça.

Como o desenvolvimento da criança ocorre rapidamente na visão da família, Cleyton já sente saudade antecipada desse primeiro ano da filha. “É desesperador ver ela crescer (risos), é muito rápido. Estava no berço e agora já está andando pela casa. Mas é gostoso presenciar o desenvolvimento dela”, ressalta.

O pai de primeira viagem também não quer criar expectativas sobre o futuro da filha, mas prepará-la para a vida cotidiana. “Vamos ensiná-la a respeitar as pessoas, as diferenças. Quero que ela seja independente. Que ela consiga não depender de ninguém, nem dos pais, e possa conquistar as coisas dela. E estaremos aqui sempre”, deseja o influenciador digital.