A luta contra a homofobia deve começar em casa

Abrir o diálogo desde cedo é essencial para tornar o ambiente familiar um lugar seguro para a criança (Foto: Getty Creative)

Este domingo (17) é conhecido como o Dia Internacional contra a Homofobia. E, diante de tudo o que tem acontecido, vemos que a educação é e sempre será a solução mais eficaz contra qualquer tipo de preconceito. Pelo menos, é sobre isso que conversamos com Thiago Queiroz, educador parental e nome por trás do canal no YouTube “Paizinho, Vírgula!". 

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No Brasil, só recentemente casos de homofobia e transfobia passaram a ser considerados e tratados oficialmente como crimes - e já não era sem tempo. Segundo Grupo Gay da Bahia (GGB), que monitora a situação da comunidade LGBTQ+ no país, foram registrados 320 assassinatos dessas pessoas em 2018 e um total de 126 até junho do ano passado. 

Quando o assunto é a transfobia, a situação para o Brasil fica ainda mais complicada. O país é considerado um dos mais perigosos para pessoas trans e, também segundo o GGB, só no primeiro semestre de 2019 já haviam sido registrados 123 assassinatos de pessoas trans e travestis por aqui. 

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O assassinato é a última parada de uma cultura que, desde cedo, torna o diálogo sobre questões LGBTQ+ um tabu. Por isso, Thiago explica sobre a importância de tornar a conversa o mais aberta possível desde cedo, a partir do momento que as crianças tiverem capacidade de compreensão. 

Desconstrua a si mesmo para ensinar o outro

É fácil esperar pessoas melhores e uma sociedade mais justa, mas não fazer o trabalho duro dentro de casa. Segundo Thiago, a luta contra a homofobia começa com uma desconstrução por parte dos pais, principalmente os heterossexuais, de rever conceitos e valores lgbtqfóbicos. Isso é essencial porque é dentro de casa que a criança começa a formular a sua visão sobre o mundo, afinal, os pais são a sua primeira referência. 

"São nos primeiros anos de vida que a gente começa a mostrar para as crianças que é importante respeitar todo mundo, que toda forma de amor é válida e digna de respeito, digna de admiração, e que duas pessoas só precisam se gostar, se respeitar e se amar para estarem juntas, independente se são meninos ou meninas", explica. 

Essa, aliás, é a maior dificuldade dos pais, segundo o educador, porque eles próprios foram criados com esses valores. Mas é importante entender a necessidade de desconstrução própria antes de passar essas informações e novos valores para as crianças. 

A partir daí, é manter esse canal sempre aberto. Existem muitas formas de introduzir o assunto na educação de um pequeno - e a literatura é uma delas. Livros infantis que apresentem essas temáticas são ótimas formas de começar, já que possuem uma linguagem simples e uma narrativa com a qual as crianças podem se identificar - e até começar a reconhecer na sua própria vivência coleguinhas de escola que tenham dois pais, duas mães, ou pais transexuais. "Elas precisam entender desde o início que isso é normal, que essa criança não tem nada de diferente dela e que a família dela é tão importante quanto a nossa e quanto qualquer outra", diz. 

Outro ponto importante é aproveitar as vivências cotidianas para desenvolver esse diálogo saudável. Por exemplo, se perceber o filho ou filha observando duas pessoas do mesmo sexo de mãos dadas, os pais podem, antes de tudo, perguntar o que ele ou ela pensa sobre aquilo, e clarear qualquer confusão que possa ter sobre o que vê. 

Conversa como prioridade, sempre

Aliás, ter esse canal de comunicação aberto dentro de casa é importantíssimo. Como os pais são a primeira referência de vida de uma criança, eles precisam se colocar como um norte e ter respeito em relação ao diálogo e as próprias relações que constroem com eles. "Se eu luto para ter uma relação afetiva, amorosa e respeitosa com os meus filhos, porque não vou fazer isso com outras pessoas lá fora? Por que eu vou disseminar ódio e preconceito? Isso, para mim, é no mínimo um discurso hipócrita", explica. 

Por isso, o educador defende que é tão importante manter e cuidar do próprio discurso, para se tornar, de fato, uma referência de respeito e amor para os filhos - e, de quebra, para as pessoas ao redor. 

Um aspecto essencial desse diálogo também é como ele constrói uma ponte de empatia com as crianças - ele é mais poderoso do que não tornar esse assunto aberto e comum no ambiente familiar. "Se você não se posiciona, você está do lado do opressor", explica. "A gente precisa, sim, fazer com que as crianças entendam que é normal, que duas pessoas vão se amar, sejam elas meninos ou meninas e vice versa". 

Um medo comum dos pais, de acordo com o educador, é que esse tipo de conversa pode "transformar" a criança em homo ou transexual. Isso é um equívoco comum. "É outra faceta do preconceito. É importante que a gente trabalhe e desconstrua isso na nossa cabeça, que não há nada que eu possa fazer que vá obrigar o meu filho a ser gay. Isso é ele, é quem ele é, é quem ele se identifica", diz. 

Acolhimento acima de tudo 

Lutar contra a homofobia vai além de oferecer um canal aberto de conversas, mas é o primeiro passo para gerar um outro aspecto importantíssimo: o acolhimento. A criança aprende a todo momento, e ela precisa saber que tem um lugar seguro e ancorado para voltar caso tenha dúvidas ou queixas. 

Quer tenha gerado algum desconforto para um coleguinha usando ofensas homofóbicas ou transfóbicas, quer tenha sofrido com ataques dessa natureza, o ponto de partida é sempre ouvir a criança sem julgamentos, deixá-la falar, tirar dúvidas e até questionar até que ponto você ainda reproduz esses mesmos valores ofensivos. 

É importante também buscar conhecimento. Existem inúmeros canais no YouTube e Influenciadores que falam sobre temáticas LGBTQ+ e que podem ajudar você, pai, a rever valores e conceitos que são nocivos e podem, de alguma forma, serem passados para a criança. 

Tornar esse ambiente confortável e sem tabus também facilita a própria criança a abrir com os pais questionamentos e insights sobre a própria sexualidade e facilitar uma aceitação de si mesmo, caso ela se perceba uma pessoa LGBTQ+. 

"A gente precisa ser o porto-seguro dos nossos filhos", explica ele. "O mundo pode ser o lugar mais perigoso de todos, mas eles precisam saber que no meu amor eles podem descansar".