Dia do Homem: muitas dicas contra o machismo e como não ser um boy lixo

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Não espere para se tornar um homem melhor (Getty Images)
Não espere para se tornar um homem melhor (Getty Images)

O ‘Dia do Homem’ é lembrado nesta quinta-feira (15), mas a data não tem muitos motivos para ser celebrada. O machismo está cada dia mais presente no dia a dia da sociedade e, ainda em 2021, o patriarcado estica seus tendões na sociedade.

Aqui no Yahoo! Vida e Estilo já publicamos diversos conteúdos para promover as discussões sobre como construir uma sociedade mais igualitária e ajudar a seguir novos caminhos. Que tal se aprofundar nas discussões mais pungentes da sociedade atual, nem que seja para refletir sozinho? Vem com a gente.

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Criar um filho longe da masculinidade tóxica parece difícil — mas não é impossível

A imagem do "homem de verdade" ainda está pautada em comportamentos violentos, insensíveis, cuja única preocupação é fugir daquilo que possa enfraquecer sua virilidade. Sendo assim, ainda existem pais que criam os seus filhos em uma dinâmica que defende comportamentos e posturas rígidas, fazendo-as acreditar em um modelo de atitude que não será benéfica nem para ela e nem para as pessoas ao seu redor.

A presença dos pais é valiosa para nossa formação como indivíduo, já que são as primeiras pessoas que entramos em contato em nossas vidas. Segundo a Prof. Susana de Castro, responsável pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do artigo "O papel das escolas no combate às masculinidades tóxicas" confirma que nossas primeiras referências são nossos pais.

"Os pais têm um papel muito importante na nossa constituição enquanto sujeitos. Normalmente, da nossa natureza, buscamos a aprovação paterna e materna, queremos agradá-los, e, inclusive, dependemos desse amor. Isso a psicanálise fala amplamente, como o amor materno e paterno é constitutivo da nossa autoestima, da nossa construção de personalidade".

Por isso, aquela conversa de que "menino veste azul e menina veste rosa" vai muito além da questão de dar cor ao gênero ou até mesmo de uma opinião que um dos nossos pais. Criados em uma sociedade machista, esse tipo de pensamento já é considerado correto por eles. Dessa forma, ao projetar em seus filhos o que um dia lhes fora ensinado, acabam censurando a liberdade de expressão de suas crianças.

Tomás Dotti, fundador do Papo de Pai, percebeu que carregava algum dos traços da masculinidade tóxica quando sua primeira filha nasceu em 2011. Até o seu nascimento, Tomás tinha o sonho de se tornar diretor do banco até os 40 anos. No entanto, após Maya nascer, Tomás reparou que o que procurava não era dinheiro, poder e mulheres, como achava. Enfim, entendeu que esses pensamentos lhe foram ensinados desde criança e que esses tipos de coisas não eram, de fato, essenciais para ele.

"A forma como eu mais trabalho a questão com elas é olhando para mim e tentando melhorar, tentando conter vários indícios de masculinidade tóxica que eu ainda tenho. É muito difícil se libertar disso porque a gente cresceu vendo esses ideais tortos de masculino, e então são coisas que tem um impacto muito grande e é difícil da gente se libertar. É um processo longo, né?", comenta o idealizador do Papo de Pai.

"Eu tento dar o exemplo para elas, e mostrar um exemplo de homem diferente: sensível, carinhoso, educado, atencioso, que admite que está errado, que pede desculpas. Eu faço isso várias vezes com elas, várias vezes mesmo, porque eu erro muito. É o que eu tento fazer. Sei que, por mais que eu fale, que eu dê conselhos, o que vai falar mais alto é o meu exemplo. É nisso que eu trabalho mais", afirma.

É por isso que saber identificar a masculinidade tóxica também é uma das partes mais importantes para combatê-la. E, quando identificada, é uma boa ideia que a situação seja usada como um exemplo e como pauta para uma conversa com seus filhos.

15 frases para nunca mais dizer às mulheres

São frases machistas ou que reforçam estereótipos de gênero, tão comuns na nossa sociedade que parece bobagem pensar sobre elas. Mas como o ideal é deixarmos de usar expressões racistas no dia a dia (como "criado mudo" ou "mulata"), o mesmo vale para frases ou termos que têm o objetivo de limitar mulheres ao seu gênero e confirmar padrões de beleza e comportamento.

1."Mãe Solteira"

"Solteira" indica um status de relacionamento que nada tem a ver com a maternidade. O correto é "mãe solo", e vale também para homens que criam os filhos sozinhos ("pai solo"). Definir uma mulher que cria os filhos sem ajuda por meio do seu status de relacionamento é reforçar a ideia de que essas mulheres são erradas e que ou não tiveram bom senso para evitarem uma gravidez fora do casamento, ou não foram boas o suficiente, segundo os padrões do mundo, para manterem os maridos / pai da criança por perto.

2."Cadê o seu filho?"

Essa é bastante comum para quem é mãe. Quando a mulher sai de casa sem o filho, essa pergunta é quase tão frequente quanto um "tudo bem?". Sendo casada ou solteira, existe uma ideia de que a mulher é obrigada a estar com os filhos e cuidar deles o tempo inteiro. Se ela for casada, essa noção é ainda pior, porque assume-se que, mesmo com outra pessoa na relação, ela ainda deve levar a responsabilidade pela criação da criança.

3."Já pode casar!"

Mulher que já cozinhou alguma vez para outras pessoas com certeza já ouviu essa. O motivo? Uma ideia retrógrada de que mulheres servem apenas para tarefas domésticas, e cozinhar (ou arrumar a casa) é um pré-requisito de uma boa esposa.

4."Você tá de TPM?"

Outro ponto muito importante: toda mulher que, por algum motivo, se irritou ou perdeu a paciência, já teve os seus sentimentos diminuídos com a desculpa de que estava de TPM. É verdade que o período mexe com o humor e o hormonal das mulheres, mas isso não significa que toda e qualquer irritação seja fruto de uma TPM. É importante ouvir o motivo da insatisfação e não desmerecê-lo, mas entendê-lo e encontrar uma forma de resolvê-lo.

5."Você fica tão bonita de maquiagem…"

E sem, é feia? O uso de maquiagem costumava ser comum tanto para homens quanto para mulheres, mas há algumas décadas virou uma ferramenta puramente feminina. O objetivo, com isso, era reforçar um padrão de beleza, de mulher bonita e sempre perfeita.

6."Mulher não sabe dirigir"

Dispensa comentários, certo? É um reforço da ideia de que existem coisas que homens fazem bem (como dirigir) e mulheres não e vice versa - e é algo ensinado desde crianças tanto para meninas, quanto para meninos.

7."Mulher tem que se cuidar"

E por "se cuidar", entenda "cuidar da aparência". É manter a aparência aceitável, segundo os ideais do mundo, para benefício não das próprias mulheres, mas dos homens.

8."Ela é mal comida"

Mais uma vez, vemos aqui uma noção de que o humor de uma mulher tem relação com a sua vida sexual e não com insatisfações que precisem ser reconhecidas e trabalhadas.

9."Ele te ajuda em casa?"

Se você é mulher e mora com o seu marido ou companheiro, já deve ter ouvido isso também. Aqui, o que entendemos é que o homem é alguém que ajuda e não que assume a responsabilidade dos cuidados com a casa / filhos. No fim das contas, toda essa responsabilidade caem só na cabeça da mulher.

10."Mulher tem que se respeitar"

E "por se respeitar", a ideia é "usar roupas socialmente aceitáveis segundo o ideal masculino e agir também segundo esse ideal". Pense nas vezes que uma mulher usou um decote e ouviu que precisava se respeitar ou que voltava para casa de noite sozinha e ouviu a mesma coisa.

11."Você tá louca!"

Essa frase é típica de quem pratica o gaslighting. O termo parece complicado, mas apenas define o comportamento de uma pessoa que desmerece e diminui os entendimentos de outra, fazendo com que ela questione a sua percepção ou até a própria sanidade. Assim como "é TPM?", essa é uma maneira bastante comum de não ouvir o que uma mulher tem a dizer e jogar nela a responsabilidade por coisas que sente ou que aconteceram em uma relação, seja de trabalho ou profissional.

12."Mulher tem que ser feminina"

Não tem, não. A mulher tem que ser do jeito que ela se sente mais confortável e mais próxima de si mesma. O "feminino" é um conceito socialmente construído, que não necessariamente condiz com o que a mulher entende de si mesma ou gosta.

13."Cadê o namorado / marido?"

Mulher sair sozinha à noite? Sair só com as amigas? Como assim? Normalmente, esses são os comentários implícitos em uma pergunta dessas. O homem sair sozinho é totalmente aceitável. No caso das mulheres, isso com certeza diz algo sobre o seu caráter.

14."Quando vem o próximo filho?"

Como se as mulheres fossem obrigadas a ter um filho atrás do outro. Dificilmente uma pergunta como essa é feita à um homem. Mas acredita-se que as mulheres não só podem como devem colocar isso como uma prioridade nas suas vidas - o que não é verdade.

15."Você vai sair assim?"

O que uma roupa diz sobre o caráter de alguém? Se você for mulher… Muito, infelizmente. Para as mulheres usar uma roupa ou outra diz algo sobre a sua personalidade, o que é extremamente machista. As mulheres têm o direito de usar o que quiserem, quando quiserem - os seus corpos não são objetos, muito menos domínio público, vale sempre lembrar.

Masculinidade e masculinidade tóxica: como essas ideias afetam a vida de homens e mulheres no Brasil

Talvez o assunto seja rodeado por clichês. Dos mais antigos, repetidos e conhecidos por aí. Todo mundo já ouviu essa história. “Homem não chora”. “Homem se defende”. “Homem não cuida da casa”. Como se falássemos de questões fisicamente impraticáveis ou habilidades transmitidas geneticamente. Não é o caso quando o assunto é masculinidade. Ou masculinidades, no plural, para ser mais justa com os tempos em que vivemos. Hoje, certas ideias e expressões estão mais presentes no dia a dia, de fato: gênero, masculinidades, masculinidade tóxica - para se ater a poucas. E isso nos faz pensar sobre a origem desses conceitos e o significado que eles carregam. E o primeiro ponto pode ser esse. Não estamos falando de algo natural e impossível de mudar.

“A gente não nasce nem homem e nem mulher, a gente se faz. O ponto principal é esse, o masculino se constrói, ele não é dado, ele não está no gene, ele não está na natureza, ele se faz através de processos de educação”, explica Gustavo Bandeira, doutor em educação, pesquisador que atua há mais de dez anos na área de relações de gênero, com trabalho voltado para o futebol.

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Assim, o conceito não pode ser reduzido a uma definição única e simplista. Guilherme Valadares, diretor de pesquisa no Instituto PDH (Papo de Homem, Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento em Florescimento Humano), fundador e diretor de conteúdo no PapodeHomem e membro consultivo do Comitê #ElesporElas da ONU Mulheres no Brasil, cuja atuação é voltada para a equidade de gênero, explica essa ideia e a importância de não se fechar ou buscar uma definição tão precisa. “Masculinidade, a meu ver, diz respeito a se construir e se entender como homem, a performar e ser reconhecido como tal. Ser homem, a depender da cultura, região do mundo e período histórico no qual existo, vai tomar formas bem distintas”, diz.

“Penso que uma boa rota para investigar esse conceito é partir da premissa que não estamos falando de algo fixo e imutável. Estamos tratando de um fluxo que co-emerge em relação com o feminino, sendo atravessado por nossa raça, orientação sexual, classe, assim como por outros aspectos históricos, biológicos e sociais complexos, se manifestando de maneiras particulares ao longo da história. Não existe uma masculinidade suprema, única. Existem masculinidades, no plural”, completa.

Mariana Fidelis, advogada e pesquisadora no Observatório dos Direitos e da Cidadania da Mulher, também enxerga como algo complexo de definir. “É uma idealização, assim como acontece com nós mulheres, a ideia do padrão. O heterossexual, provedor, magro, branco, tudo dentro da hegemonia, então é um ideal. Apesar de ter várias pessoas que gozam disso não é a masculinidade predominante, da maioria, digamos assim, o que acaba gerando diversos traumas naqueles que não seguem essa ideia”, avalia.

Mas, apesar dessas variações importantes a serem consideradas, há uma explicação e existe um motivo para conhecermos a masculinidade do modo que conhecemos no Brasil. Sérgio Máscoli, psicanalista e filósofo, visita a história da humanidade para olhar sobre essa ideia.

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