Diários de Kafka, inéditos no Brasil, iluminam a sua mente brilhante e atormentada

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Poucas páginas depois de um dos mais ilustres começos da literatura universal —"alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum"—, o protagonista de "O Processo" é convocado ao tribunal. Este, contudo, fica no subúrbio, numa rua que "tinha dos dois lados prédios quase uniformes, altos, cinzentos, de aluguel, habitados por gente pobre".

Meses antes de começar a escrever o romance, Franz Kafka rompera seu noivado com Felice Bauer. Ao narrar a discussão amarga em seu diário, ele escreve, com entrada datada de 23 de julho de 1914, o seguinte —"O tribunal no hotel. A viagem de fiacre. O rosto de F[elice]. Ela leva as mãos aos cabelos, passa a mão no nariz, boceja. De súbito, cobra ânimo e começa a dizer coisas refletidas, de há muito guardadas, hostis".

O pesquisador alemão Reiner Stach, autor de uma monumental biografia em três volumes do escritor tcheco, afirma em entrevista que "Kafka compreendeu imediatamente que a ideia de um tribunal que pode estar em qualquer local é uma imagem literariamente valiosa com um forte impacto, talvez até uma imagem que contenha todo um enredo".

Igualmente rica é a mirada que os "Diários" fornecem da mente brilhante e atormentada de Kafka. Inédito no Brasil, o conteúdo dos 12 cadernos sem pauta, medindo 25 centímetros por 20 centímetros e cobrindo os anos de 1909 a 1923, acaba de sair pela editora Todavia.

Assumiu a empreitada de pesquisa e organização o tradutor Sergio Tellaroli, acostumado aos estilos mais diversos da língua alemã, tendo já vertido para o português autores como Robert Walser, Thomas Bernhardt e Elias Canetti.

Mesmo nascido em Praga, Kafka nunca escreveu em tcheco. O alemão se fazia hegemônico no universo cultural em que um escritor judeu como ele estava inserido, numa região —a Boêmia— fortemente influenciada pela vizinha Alemanha.

Tellaroli situa a edição brasileira como meio-termo entre a edição crítica alemã, na qual se baseou para as notas de contextualização, mas voltada a um público especializado, e um trabalho que "facilita a vida do leitor", pondo os cadernos em ordem cronológica e corrigindo erros de ortografia do autor.

Kafka não escreveu os diários pensando em publicar esses textos. Neles, coabitam registros cotidianos do vaivém com Felice —eles reataram e terminaram uma segunda vez—, anotações de sonhos, crítica literária e esboços ficcionais. A novela "O Veredicto", considerada a primeira obra-prima de Kafka, está inteiramente escrita ali.

Como bem descreve Stach, "os limites são fluidos". "Depois de algumas frases, muitas vezes ainda não sabemos se este é o início de um texto literário ou a descrição de uma experiência real."

Esta edição dos "Diários" também é despida das intervenções do amigo Max Brod. Kafka morreu em 1924, aos 40, depois de receber um diagnóstico de tuberculose. Nunca se casou. Impiedoso consigo mesmo até o fim, pediu a Brod que queimasse todos os seus manuscritos e que os textos e livros publicados em vida nunca mais fossem reeditados. A promessa, evidentemente, não foi cumprida.

Começou assim uma saga que até hoje rende debates de alta temperatura no meio literário sobre a estatura de Kafka com base no que ele publicou em vida e o papel de Brod ao editar postumamente dois dos três grandes romances do cânone kafkiano, "O Processo" e "O Castelo" —"A Metamorfose" é o único deles que Kafka chegou a ver publicado.

Em sua edição de 1951 dos diários, Brod escreve que deixou de fora "todas as críticas íntimas" feitas por Kafka a pessoas individualmente.

"Hoje os diários são publicados na íntegra e não há comentários ofensivos. Também não há passagens sexuais explícitas. Ambos teriam sido muito atípicos para Kafka", afirma Stach. "Portanto, não considero válido o raciocínio de Brod."

Além disso, o amigo do autor é acusado de carregar nas tintas do judaísmo de Kafka, que criticava o próprio pai por não ter passado a tradição religiosa a ele.

"Se colocarmos na balança os pecados de edição que Brod cometeu e o que ele fez pelo Kafka, acho que o que ele fez pelo Kafka tem mais peso. E não digo que admiro o Brod, mas acho importante lembrar que foi ele quem publicou todas essas coisas", diz Tellaroli.

Segundo o tradutor, "Kafka já é Kafka nos 40 textos iniciais", o conjunto de trabalhos publicados pelo autor ainda em vida. "Quem acaba atribuindo mais importância ao Brod é a crítica literária, porque ela precisa dos romances."

Tellaroli lembra Milan Kundera, para quem o romance ocupou o lugar da filosofia no século 20 como veículo das grandes ideias, e a resistência do mercado editorial em relação a gêneros de prosa mais curta, como novelas ou contos. "Na Alemanha, isso é pior ainda, tem que ser um romance que para em pé. Se tiver menos de 300 páginas, o leitor alemão fala 'isso não é sério'."

Um aspecto mais mundano dessa disputa alcançou os tribunais, como narra "O Último Processo de Kafka", do jornalista Benjamin Balint, publicado no Brasil em abril pela Arquipélago. O livro acompanha a batalha travada pelo espólio do escritor entre os herdeiros de Brod, morto em 1968, e a Biblioteca Nacional de Israel, que terminou vencedora em 2016.

Deixando Brod de lado, é inegável que os diários dão pistas preciosas para compreender matérias-primas da ficção kafkiana, entre elas o desconforto com a família —em especial o pai—, a infelicidade no burocrático emprego no instituto de seguros contra acidentes de trabalho e a busca torturante pelo casamento, que, Kafka sabe, será um obstáculo para consumar o desejo de se tornar escritor.

Frequentemente insatisfeito com seu trabalho, o autor não ignorava o potencial de sua escrita. Em 3 de julho de 1913, anotou "quando digo alguma coisa, ela perde de imediato e em definitivo sua importância; quando a escrevo, ela também perde, mas por vezes adquire outra".

DIÁRIOS

Preço R$ 99,90 (576 págs.), R$ 29,90 (ebook)

Autor Franz Kafka

Editora Todavia

Tradução Sergio Tellaroli

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