Diálogo erótico e virtual durante a pandemia guia peça online 'Link de Fuga'

CAROLINA MORAES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Relações virtuais eram a exceção e não a regra muito pouco tempo atrás. Quando o diretor Alexandre Stockler começou "Linha de Fuga" no teatro, no final de década de 1990, na verdade, soava quase irreal um relacionamento pela internet.

O projeto já reencarnou em versões para o cinema, como instalação e agora volta rebatizado como "Link de Fuga" --e num contexto em que o sexo virtual é a mais regra do que exceção para os confinados pela pandemia de coronavírus.

"É um texto que fala sobre relações virtuais, a ideia sempre foi essa, de que não há outro contato que não pela voz. Isso cria muitas possibilidades de imaginação [da cena], e a intenção é sempre criar isso na cabeça do público", diz o diretor.

Assim como nas outras versões, os atores continuam com os codinomes --Mata Hari e Sherlock-- e sem revelar os rostos na peça online que estreia nesta quarta-feira.

Nos palcos, a conversa telefônica era encenada no escuro. Numa das versões para o cinema, as câmeras ficavam posicionadas na altura da cabeça dos atores para não mostrar o rosto.

Já nessa versão, num teatro para as telas de computador, vemos apenas duas imagens, uma espécie de avatar de cada um dos desconhecidos --e, nesse sentido, o diretor defende que a obra se aproxima até mais de um podcast do que de uma peça de teatro ou de um filme.

Feito com recursos da Lei Aldir Blanc, "Link de Fuga" mantém boa parte do texto original, mas trechos foram adaptados para tempos pandêmicos. Especialmente no começo da peça, o diálogo é atravessado por situações que não imaginamos fora desse contexto, como encontros em festas virtuais.

"Ainda que o mundo já começasse a se relacionar virtualmente, isso quase virou uma obrigação", diz Stockler. "Hoje, as pessoas já acham normal e acabou se tornando uma maneira de se relacionar porque a exposição pode custar a sua vida."

A pandemia também atravessou a própria montagem dessa comédia erótica, como tem acontecido desde que o teatro passou dos palcos para a tela, com ensaios feitos virtualmente.

O diretor também decidiu não editar os diálogos, e as interferências que acontecem no ambiente virtual, como uma falha da conexão de internet ou um carro barulhento passando ao fundo, permanecem na montagem. Cerca de dez gravações diferentes serão apresentadas ao público.

Mesmo sem nenhuma imagem, o diálogo dá conta de construir um erotismo explícito. A dupla se seduz, descreve um sexo virtual picante e criam situações imaginárias --e a conversa é também atravessada por perguntas coloquiais e descrição do ambiente, que vão dando contornos aos dois personagens.

"Essas relações virtuais têm muito das projeções da pessoa, dos receios de uma relação, e tudo isso vai se juntando nessa presença que é feita de ausência", diz Stockler.

LINK DE FUGA

Quando: estreia em 28/4. Qua. a dom.: 21h e 23h

Onde: no YouTube, no canal aexcecaoearegra

Preço: gratuito

Classificação: 18 anos

Direção: Alexandre Stockler