"Desisti do casamento porque percebi que vivia um relacionamento abusivo"

Jacqueline Cunha (Foto: Acervo pessoal)

Por Gabriela Kimura

Quem nunca ouviu um companheiro – seja ele marido, namorado, noivo ou só um crush – dizer que você estava louca? Ele tentar te diminuir, estar sempre te criticando e arranjando briga com você por qualquer motivo? Travestido de “críticas construtivas”, relacionamento assim podem abalar seriamente a autoestima de muitas mulheres, que, por vezes, não conseguem enxergar o abuso na pessoa que amam. A publicitária Jacqueline Cunha, de 25 anos, abandonou a ideia de casar na praia com um namorado de infância quando percebeu que seu relacionamento era abusivo. Conheça a história dela.

“Nós éramos amigos de infância, desde os 10 anos. Moramos no mesmo prédio, fazíamos aulas de inglês juntos… Nada mais natural que isso se transformasse em um namoro na adolescência! Era aquela coisa – eu, com 15 anos, ele, com 17/18 anos -, muitas briguinhas… Ficamos juntos por dois anos, depois acabei terminando tudo.

Ele acabou conhecendo outra menina após o término e casou, com direito a festa e tudo, ficando por sete anos nesse casamento. Nos encontramos novamente quando ele tinha se separado, por um acaso, em um bar em 2016. Retomamos contato e, pouco tempo depois, estávamos juntos novamente. Depois de mais ou menos um mês, resolvemos morar junto: era aquela coisa de unir o útil (eu estava procurando apartamento e ele também) ao agradável. E no meu aniversário em maio de 2016, em Itacaré, na Bahia, ele me pediu em casamento. Sabia que era meu sonho casar na praia – naquele lugar paradisíaco – e quis realizar esse sonho junto comigo.

Ficamos noivos e, ao mesmo tempo, começamos a planejar tudo. Escolher o vestido, o buffet, o hotel que aconteceria a cerimônia e tudo mais. Só que, morando sob o mesmo teto, acabei conhecendo um lado dele bastante diferente de tudo aquilo que pregava. Arranjava motivos para brigar comigo e me diminuir sempre que possível – não aceitava que eu ganhasse mais e tivesse um cargo melhor que ele, por exemplo. Claro que, tudo isso, sem jamais admitir esse fato.

Passamos o Natal juntos e foi um inferno: arrumou briga com todo mundo da minha família. A essa altura, já tínhamos até os padrinhos e madrinhas escolhidos! Depois do Ano Novo – que também foi terrível -, decidi, no começo deste ano, tentar colocar minha vida em perspectiva. Menos de uma semana depois ele teve uma crise, começou a brigar comigo, se tornou agressivo e eu decidi terminar tudo ali. Me empurrou, ameaçou sair de casa, mas quem saiu fui eu: levei tudo que era meu e deixei somente o anel em cima do balcão.

Claro que foi uma decisão difícil, pois já tinha muita gente envolvida, não só a gente. Só quem já esteve em uma situação parecida sabe o quanto é complicado você enxergar o que está passando dentro do relacionamento. Na hora em que saí disse: “Tá vendo esse rostinho? É a última vez que você vai vê-lo” e ele só respondeu “Graças a Deus”. Não acreditou que eu pudesse desistir de tudo naquele momento. Passou algumas semanas me procurando, ligando para mim e minha mãe e aparecendo na porta do meu trabalho. Depois a ficha caiu que tinha terminado tudo. Mandei e-mails para todos os fornecedores explicando, com ele em cópia, que não haveria mais casamento em setembro deste ano. Para mim foi um alívio, pois estava tão ruim que não tinha como continuar. Só nos falamos para resolver burocracias do apartamento e afins, sem nenhum outro assunto.

O que eu posso dizer é: se você estiver em uma situação assim, tente sair dela de alguma forma para enxergar de fora. Porque você fica tão envolvida, que se questiona e fica perguntando se não é louca ou se não está fora de si. Muita gente passa por isso e não consegue enxergar.”