Designers, artesãos e estilistas provam que o melhor do Nordeste está no Nordeste

·5 minuto de leitura
Estilistas, designers, empreendedores e artistas do Ceará, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia ao lado de Daniela Falcão no primeiro Festival Nordestesse, na Pinga em São Paulo (Foto: Divulgação)
Estilistas, designers, empreendedores e artistas do Ceará, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia ao lado de Daniela Falcão no primeiro Festival Nordestesse, na Pinga em São Paulo (Foto: Divulgação)

#Nordestesse! "É um convite para que as pessoas não esqueçam o Nordeste", avisa a jornalista Daniela Falcão, que quando lançou a própria hashtag - com licença poética do português - fazia ali também um lembrete para si mesma. E, foi justamente, em sua imersão de reconexão, descobertas e redescobertas que aos 50 —"uma data muito emblemática"— criou o próprio negócio.

Terra de Bethânia, Flávio José, do artista plástico Véio, da poetisa Nísia Floresta, de Barões da Pisadinha, do escritor Itamar Vieira Júnior, da skatista Rayssa Leal e do surfista Ítalo Ferreira, o Nordeste ainda figura no imaginário brasileiro como um lugar de belas praias e sertão pobre e seco. Mas, como prova a produção dos nomes citados e de tantos outros talentos que a região produz, o Nordeste é muito mais que isso. Inspiração, moda slow fashion na essência, polos tecnológicos, saberes gastronômicos, visuais, arquitetônicos e muito mais, os estados nordestinos costumam ver sua riqueza intelectual migrar para o Sul/Sudeste, que nem é mais toda essa maravilha.

Leia também

Engajada em alterar sua própria rota, a jornalista - nordestina - Daniela Falcão fundou a plataforma Nordestesse, cujo objetivo é potencializar e conectar o trabalho de empreendedores e criativos dos nove estados do Nordeste, nas áreas de moda, design, artes visuais, gastronomia e turismo. E mais do que isso: "É um agregador das histórias", diz a jornalista que teve como premissa mostrar o desejo do brasileiro de se conectar, de se identificar.

A Studio Orla do Ceará faz moda agênero, as cadeiras de praia da Tramei ganharam outra roupagem nas mãos de duas potiguares e as bolsas da cearense Catarina Mina (Foto: Reprodução/Instagram@nordestesse)
A Studio Orla do Ceará faz moda agênero, as cadeiras de praia da Tramei ganharam outra roupagem nas mãos das potiguares Helena Macêdo e Cecilia Miranda, e as bolsas da cearense Catarina Mina que mantém custos abertos e valoriza os saberes das rendeiras (Foto: Reprodução/Instagram@nordestesse)

"Sempre fui empreendedora na empresa dos outros, nunca senti que o problema não era meu ou era só um emprego. Fui me inspirando nos millennials (geração dos nascidos entre 1981 a 1996), contagiada pela coragem de se jogar e sinto que esse é um movimento. Eu não quero esperar, não dá para esperar a minha aposentadoria. Quero gerar renda e negócio aqui agora", afirma a jornalista que esteve à frente das maiores publicações do Brasil (Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Vogue, TRIP) nos últimos anos até deixar a direção da Condé Nast em dezembro de 2020.

Daniela Falcão na multimarcas Pinga, em São Paulo (Foto: Divulgação)
Daniela Falcão na multimarcas Pinga, em São Paulo (Foto: Divulgação)

Morando em Recife (Pernambuco), ressignificando a si própria e seus próximos passos, a jornalista se deparou com valores importantes, que os quase 30 anos de Sudeste fizeram com que ela deixasse de lado (ou precisasse deixar) como: paciência e afeto. Ali ela descobriu peças autorais, acessórios sustentáveis, artistas, lugares que fugiam dos roteiros convencionais de praias apenas, sabores que dialogam com o ancestral e o contemporâneo, e cheiros para além das invenções ou romantizações do Nordeste, e se deu conta que o "melhor do Nordeste está no Nordeste."

"Uma das dificuldades econômicas do Nordeste de se impor é porque houve uma fuga de seus grandes cérebros para o Sudeste. Agências de publicidade recheadas de grandes talentos nordestinos. A reconexão com esse estalo, depois de 30 anos pagando imposto no Rio, São Paulo e Brasília me tocaram. Gerei renda para empresas do Sudeste e tinha que trabalhar em um lugar do Nordeste. Claro, que a gente quer vender em São Paulo, mas não necessariamente fechar marcas no Nordeste ou trabalhar em uma marca em São Paulo. Quero vender minha marca em São Paulo", afirma a jornalista que se enxergou ali na diáspora socioeconômica que a migração ainda provoca.

Peça da estilista, artista plástica e psicanalista baiana, Adriana Meira, que costuma entrevistar o interessado antes de iniciar a produção (Foto: Divulgação)
Peça da estilista, artista plástica e psicanalista baiana, Adriana Meira, que costuma entrevistar o interessado antes de iniciar a produção (Foto: Divulgação)

"Esse momento de reconexão e descoberta não é só descobrir seu restaurante predileto ou a sua turma de amigos, mas se reconectar com os valores que o Nordeste tem e são super úteis. Como baiana em São Paulo a gente sempre teve que lutar contra a preguiça. E a gente não é preguiçoso, talvez você [paulistano] seja mais ativo. A reconexão é você estar em paz e respeitar a preguiça, algo super importante para você continuar produzindo. O ócio criativo", defende.

Fomentar

Daniela percebeu que não era apenas sobre morar ou pagar impostos no Nordeste, mas sobre gerar renda. Se apropriar do espaço de maneira colaborativa, contar histórias, unir pessoas e expandir com seu talento: a comunicação e a facilidade de criar pontes. "Queria diminuir minha ignorância do Nordeste."

"Sempre me senti muito baiana, mas muito pouco nordestina. O Nordestesse é um convite para que as pessoas não esqueçam o Nordeste. Eu mesma nunca tinha passado tanto tempo aqui [Nordeste] desde o ensino médio. E você percebe que os seus próprios amigos esquecem depois de março [fim do verão], como se o Nordeste não existisse, e tem todo um sertão, o São João [junho]. É um convite para as pessoas se nordestizarem, os hábitos, os ensinamentos", afirma.

DePedro é um dos parceiros do Nordestesse (Foto: Divulgação)
DePedro é um dos parceiros do Nordestesse (Foto: Divulgação)

A plataforma possui 158 profissionais escolhidos com a ajuda de uma confraria de experts dos nove estados nordestinos. No momento, a jornalista conduz um projeto de fortalecimento da moda autoral baiana em parceria com o governo da Bahia com o objetivo de que todos os produtos alcancem um público maior.

E alinhado ao seu DNA de conexão e expansão, até o dia 8 de outubro é possível encontrar 15 marcas de moda, design e gastronomia da Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe nas vitrines e araras da Pinga, em São Paulo. Além de conhecer a culinária local com a Terroá que possui uma caixa com dez iguarias de pequenos produtores da Paraíba, Pernambuco e Bahia. Tem espumante do Vale do São Francisco, cachaça Umburana Engenho Nobre (PB), queijo de cabra da Fazenda Carnaúba (Taperoá - PB), bolo de rolo, geleia de cajá, arroz da terra, mel orgânico chips de queijo de coalho e vela aromática.

Caixa da Terroá com dez iguarias do Nordeste (Foto: Divulgação)
Caixa da Terroá com dez iguarias do Nordeste (Foto: Divulgação)

A próxima parada será em Brasília e sete marcas já estão confirmadas na multimarcas uruguaia A.MAR, em Punta del Leste. Em 2022, será lançado um aplicativo reunindo dicas de consumo e viagem para quem planeja visitar a região.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos