Depressão e ansiedade: dá para lidar bem com elas na quarentena, sim

Eles contam como estão lidando com a depressão e ansiedade na quarentena (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

​​​​Michelle Vargas, 37, sofre de depressão e ansiedade devido ao estresse. Ela é analista de comunicação e, agora, está trabalhando em casa. Ela decidiu, então, ver com outros olhos o isolamento causado pela pandemia do novo coronavírus. "O home office tem ajudado. Tive uma melhora significativa", conta. Ficar com a filha, de 13 anos, deixa os dias mais fáceis. "Não ignoramos que existe uma pandemia, até porque ela é do grupo de risco [ela tem asma]. Sempre acompanhamos os números oficiais e os coletados pela imprensa da covid-19, mas aproveitamos cada dia, de forma positiva."

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 minuto e receba todos os seus e-mails em um só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Siga o Yahoo Vida e Estilo no InstagramFacebook e Twitter, e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário

Enquanto Michelle trabalha, a filha faz as tarefas da escola, de casa e cumpre as obrigações com o cachorro. "Almoçamos juntas, preparamos nossos pratos favoritos, assistimos a séries, lemos livros que não estão relacionados nem ao trabalho nem à escola, fazemos um pouco de atividade física, debatemos notícias do dia -- mais do que nunca, é preciso criar um senso crítico. Essas atividades nos aproximam, nos relaxam e fazem o tempo passar."

Leia também

Michelle acredita que estes meses que estão mais juntas permitiu que as duas se conhecessem ainda melhor. "Isso é mais difícil com a correria do dia a dia. Conhecer minha filha adolescente e saber os gostos dela me tranquilizam bastante. Não aguentaria enfrentar essa quarentena sozinha."

Mãe e filha dão apoio uma à outra para encarar a quarentena, conta a analista de comunicação. "Se fico mais recolhida, ela se preocupa. Se não como ou durmo demais, ela acha que posso estar em uma crise e cuida de mim: faz um lanche e leva na cama. Se ela vai mal numa prova, preparo um bolo para ela ou uma sessão de cinema em casa, com muito colo. São essas trocas que fazem a gente aguentar."

O gerente de contas Rafael Assunção, 34, mora em Orlando, nos Estados Unidos. Ele sofre de ansiedade, mas conta que aprendeu a controlar bem o quadro para passar pelo isolamento com mais tranquilidade. "No começo da pandemia, baixei vários aplicativos de notícias e recebia notificações a todo momento com informações sobre a covid-19. Minha ansiedade aumentou e o ápice foi quando anunciaram 4.900 mortes em um único dia, aqui, nos Estados Unidos", conta. "O coração bateu forte, a pressão caiu... Típico de quando a gente tem pânico, sabe? Desde então, decidi me cuidar e parar de ver tantas notícias. Foi assim que melhorei e me sinto bem." 

Ele diz que está consciente de que precisa tomar os cuidados necessários que o momento exige, mas fala que se permite não ficar paranoico. "Uso máscara e ando com álcool em gel no bolso. Quando saio na rua, busco sempre me distanciar de outras pessoas." Como mora sozinho, Rafael fala que aprendeu a curtir mais a própria companhia e assiste muito a filmes, cuida melhor da pele e faz coisas que gosta em casa mesmo. Mas chegou a encontrar amigos: "Um ou dois, no máximo."

A família de Rafael mora no Brasil e a saudade sempre foi uma questão com a qual ele teve de lidar, mas não tem sido um problema. "Minha maior preocupação é com a minha mãe, mas ela me diz que está se cuidando e ficando em casa." Os dois se falam por ligações de vídeo quase todos os dias. "Tenho tentado ver o lado positivo de tudo isso. Ainda que, às vezes, a gente se deixe levar pelo pessimismo, não é algo que dure muito tempo."

Para ficar atento, mas sem pirar

A psiquiatra Tânia C.T. Ferraz Alves, diretora das enfermarias do instituto de psiquiatria do Hospital da Clínicas, da faculdade de medicina da USP, diz que já há dados concretos de que quadros de depressão e ansiedade foram agravados por causa da pandemia. "Diversos trabalhos mostram que, em uma situação de estresse e pressão, aumentam as taxas de depressão e ansiedade. Além disso, precisamos contar com o transtorno de estresse agudo e estresse pós-traumático. Esse último pode passar de uma média de 4%, em situações normais, para até 40%."

Além de quadros de depressão e ansiedade que podem ser agravados, novos casos podem surgir. "Os que já tinham diagnóstico e faziam tratamento e, além de medicação, usavam de técnicas de manejo de estresse (atividade física, lazer, socialização) e se viram privados delas, podem sentir uma piora. As notícias, quase sempre negativas, medo e preocupações contribuem para recaídas. Mas muitas pessoas que estavam bem, agora, se veem em casa, sobrecarregadas e sem válvula escape. Então, casos novos também são esperados. Pode ser um episódio único na vida, mas pode virar crônico."

Tânia recomenda que todos procurem dar algum sentido para esta fase, como descobrir, em família, o que pode ser feito para reforçar laços, criar novas formas de lazer e lembrar que a situação não é para sempre. "Mantenha contato com familiares e amigos -- quem sabe se reconectar com pessoas que você nunca tinha tempo de conversar, por exemplo. E lembre-se que home office não significa trabalhar o tempo todo. Crie uma rotina para iniciar o trabalho, fazer uma pausa para descansar e terminar."

A médica diz, também, que é importante entender que o medo é um sentimento normal. Portanto, respeite o que você sente. Mas alguns sinais precisam ser observados, pois podem significar que é hora de procurar ajuda. Por exemplo: quando a pessoa não quer ver nem falar com ninguém, não sente prazer em atividade nenhuma e sente desinteresse por tudo. Outros sintomas comuns são insônia ou vontade de dormir demais e apetite aumentado ou diminuído.  

"Desesperança é um sinal de alerta. Se a pessoa se distancia afetivamente, não consegue se conectar, sente que não tem jeito, não quer se cuidar, não sai do quarto e vive de pijama, é bom procurar ajuda." Podem ocorrer, também, crises em que a pessoa sente muito desespero, angústia, sensação de morte, falta de ar -- e consultar um profissional ajudará a lidar com isso. "E há o burnout: quando a pessoa trabalha o tempo todo, não quebra a rotina, tem uma reunião atrás de reunião, mas sente que não rende, que leva mais tempo para fazer a mesma coisa que fazia antes e se sente cansado..." Se você estiver com esses sentimentos e sintomas ou percebe que alguém próximo está, procure apoio psicológico ou médico, mesmo na quarentena. "Terapia à distância e telemedicina são uma realidade."