Depois das Grades - Bruna Simo: do sonho ao cárcere, e de novo ao sonho

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Bruna em sua casa, no bairro de São Miguel Paulista, zona leste da capital paulista | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo
Bruna em sua casa, no bairro de São Miguel Paulista, zona leste da capital paulista | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Por Claudia Belfort, especial para Ponte Jornalismo

Bruna Simo (pronuncia-se Saimo) teve que pegar duas banquetas emprestadas com uma vizinha para podermos fazer a entrevista. Aos 40 anos, ela vive numa casa impecavelmente organizada, que divide com uma amiga, em São Miguel Paulista, zona leste da cidade de São Paulo. O imóvel não tem mesa, nem cadeiras, apenas o essencial. No quarto, um pequeno guarda-roupas e cômoda, uma cama e um colchão no chão, onde Bruna dorme, porque sente muito calor; banheiro e cozinha com armário, um fogão e uma geladeira, ambos doados. O único luxo é uma mala grande que repousa perto da janela, revelando seu espírito nômade. “Para que ter uma casa linda, cheia de móveis e não ser feliz? Eu sou feliz.” Diante do que passou, ela poderia concluir o raciocínio com um “apesar de tudo”.

Seu sonho é ter uma casa própria, pode ser até do tamanho da que vive hoje mesmo, desde que fique livre de pagar aluguel. Pelo imóvel, ela e a amiga desembolsam R$ 650 por mês, o que consome cerca de 30% de sua renda. Foi almejando comprar uma casinha que ela viveu o pior pesadelo de sua vida. Caiu na tentação de receber R$ 40 mil, preço pelo qual o imóvel estava sendo vendido. No lugar do sonho, acabou presa por tráfico internacional de drogas. Foram dois anos de detenção antes de progredir para o regime aberto, que cumpriu até agosto de 2019.

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Loira, esguia, com 1,79 m, é travesti desde os 18 anos, quando contou para a família. Percebeu que “era diferente” aos 14. “Eu já tinha aquele jeito afeminado e desde criança minha mãe, minha avó, sempre notavam. Eu vestia roupas delas e elas riam de mim”, lembra.

Bruna aparenta ser calma e discreta, mas trate-a com desrespeito que o barraco desaba. Vítima de intolerância dentro da própria família, fez o trajeto de muitas colegas em situações semelhantes. Para fugir do preconceito que sofria por parte do padrasto, deixou sua cidade natal, Camaragibe, na região metropolitana do Recife (PE), e voou para São Paulo, onde chegou um dia depois de alcançar a maioridade. “Morar com meu padrasto e minha mãe foi barra, viu? Esse meu padrasto não gostava de mim. Eu esculhambei ele, chamei de maricota velha, frango velho, frango safado, foi o maior babado. Aí para minha mãe não se separar dele, eu [disse]: sabe de uma coisa, vou pegar minhas coisas e vou me embora para São Paulo”, conta, com um sotaque afinado com suas origens.

Único luxo é a mala grande: “Para que ter uma casa cheia de móveis e não ser feliz?” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo
Único luxo é a mala grande: “Para que ter uma casa cheia de móveis e não ser feliz?” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Na quarta série do ensino fundamental, largou os estudos, tinha 17 anos. “Eu repetia muito, não tinha a cabeça muito boa”, diz. A essa altura ela morava com o avô que, por não ter mais condições financeiras, resolveu transferi-la de uma escola particular para pública. “Meu negócio era escola particular, fiquei com raiva dele e parei de estudar”.

Alvo de preconceito, sem estudos e sem experiência profissional — até então ela só tinha trabalhado na pequena fazenda do avô, onde começou a cuidar de gado aos 12 anos —, não viu outra saída a não ser se prostituir, o que ela chama de “dar voltinha”. Por intermédio de uma amiga de programas, conheceu uma cafetina de São Caetano do Sul (SP) e, ao chegar a São Paulo, foi direto morar em sua casa para fazer programas. Ficou lá por quatro anos.

De cliente em cliente juntou um dinheirinho para tentar a vida em Portugal. Não passou do aeroporto de Lisboa. Apesar de ter euros e carta convite de uma amiga, foi deportada. Depois de descansar por algumas semanas em Recife, retornou a São Paulo e às suas voltinhas pela cidade. “Eles tiveram preconceito comigo [no aeroporto]”, acredita.

Aos 25 anos surgiu uma outra oportunidade para ir à Europa. Indicada por uma outra outra amiga, conheceu um italiano que lhe pagou a passagem para a Itália. Para custear aluguel, luz e água, dividia o que faturava com programas, pelos quais o tal homem lhe cobrava entre 70 e 80 euros. A cidade de Montecatini Terme, na região da Toscana, norte do país, era fria e, nos dias de temperatura muito baixa, Bruna preferia não sair. Decidiu então tentar novamente ir para Portugal, a convite de um amigo. Deu certo e por lá permaneceu por três anos, na cidade do Porto, com uma temporada em Lisboa. Apesar da vida seguir sem grandes percalços, bateu saudade da família, dos amigos e ela voltou ao Brasil.

Dessa vez foi morar em São Miguel Paulista e passou a dar suas voltinhas por conta própria, de terça a sábado, em Higienópolis, bairro elitizado da região central da capital paulista. “Não conseguia ficar a semana todinha, você fica mal vista na rua, o pessoal fica falando ‘sai daí, veado safado, vai dormir, desgraça, demônio’. É babado o que a gente escuta”, afirma. Aos desaforos que ouvia, devolve críticas. “São o cão, são pior do que a gente. Olha, se for saber a vida dos homens… só Jesus na causa, e a maioria é casado! Tem homem que não presta não viu, queridinha?”

Aqui retomou o contato com Rosa (nome fictício), uma amiga que conhecera num supermercado, um mês depois de ter desembarcado pela primeira vez em São Paulo. As duas ficaram bem próximas e Bruna até ajudava Rosa a cuidar de seus três netos. Certo dia a amiga a convidou para conhecer seu namorado, um africano meio caladão que mais observou do que interagiu com ela no primeiro encontro. No dia seguinte, Rosa a chama por telefone, dizendo que o namorado havia gostado muito dela, principalmente porque não fumava, não bebia e não usava drogas, e que ela era ideal para o que ele precisava. Integrante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), o homem buscava uma mula (pessoa usada por traficantes para transportar drogas de um país a outro).

Bruna aparenta ser calma e discreta, mas trate-a com desrespeito que o barraco desaba | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo
Bruna aparenta ser calma e discreta, mas trate-a com desrespeito que o barraco desaba | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

A oferta coincidiu com o sonho de ir para a ilha de Itamaracá, no litoral norte pernambucano, onde uma amiga vendia uma casinha de dois quartos perto do mar, por R$ 40 mil. Era o valor que receberia para levar drogas até Dubai, nos Emirados Árabes. Se ela quisesse, lhe disse o africano, poderia fazer o transporte apenas uma vez ou repetir o serviço, ficava a seu critério. Nem conseguiu embarcar. Foi pega já no raio-x do embarque do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e levada para uma cela na Polícia Federal no local. “O agente não foi com minha cara e mandou eu abrir a bolsa, me levaram para uma sala e me mandaram falar a verdade. Aí eu resolvi falar, [porque] de qualquer forma eu mentindo ou falando a verdade eu não ia ser presa?”, diz. Só não entregou o nome do traficante do PCC.

O ano era 2013 e ela foi encaminhada para o CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, na zona oeste. Com três advogados cuidando de seu caso, contratados pelo autor da encomenda, ficou sete meses no CDP, como presa provisória, situação pela qual vivem 40% da população prisional do país, até seu julgamento. Foi sentenciada por tráfico privilegiado — quando o agente é primário, tem bons antecedentes, não se dedica a atividades criminosas, nem integra organização criminosa — e condenada a cinco anos e 10 meses de prisão. Caiu direto no regime semiaberto, no qual permaneceu por um ano.

Nesse período nunca recebeu uma visita, o que significa também que não tinha jumbo (sacola com produtos alimentícios, de higiene, vestuário e cigarros que as famílias entregam aos seus parentes presos). Segundo Márcio Zamboni, doutourando em Antropologia Social pela USP (Universidade de São Paulo) e integrante do Grupo de Trabalho “Mulher e Diversidade” da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de São Paulo, a situação é comum entre a comunidade LGBT+ presa. Entre as cerca de seis mil pessoas LGBT+, em restrição de liberdade, em São Paulo, pouquíssimas recebem visita. “O mais difícil [da cadeia] é saber que está ali, naquele lugar, não ter família, não ter ninguém”, lembra Bruna, que teve que se virar lá dentro mesmo.

Para se manter, Bruna poderia se prostituir entre os presos, arrumar um bofe (namorado) ou fazer faxina. Optou pelo último. “Eu não fiquei com ninguém, uma que eu não preciso e outra porque eu sabia que, quando eu saísse, eu ia ter a minha vida”, diz. “O que eu fazia era faxina para os ‘ladrão’ em troca de comida, sabonete, pasta, barbeador, creme de pele, condicionador. Eles gostavam que só de mim”, conta.

O preconceito na prisão a revoltou: “Não comem do mesmo prato, mas na hora de fazer safadeza dão até o cu” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo
O preconceito na prisão a revoltou: “Não comem do mesmo prato, mas na hora de fazer safadeza dão até o cu” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Eles podiam até gostar de Bruna, mas não usavam o mesmo copo e talheres que ela. Há um regra entre os presos de não compartilhar objetos de uso pessoal com homossexuais, travestis e transgêneros.

Para Zamboni, se a proibição do estupro e a adoção da igualdade como um dos valores máximos do PCC trouxeram mudanças positivas para as condições de vida dos LGBT+ nas prisões, por outro lado foram instituídas restrições rigorosas para práticas sexuais entre presos e autorizadas práticas de segregação, como a proibição de usar os mesmos pratos e talheres que os demais presos.

Em algumas unidades prisionais, os objetos usados pela população LGBT+ chegam a ter marcas a fogo ou são perfurados, além de serem guardados em prateleiras distintas. Para usarem o banheiro, os presos LGBT+ devem anunciar sua chegada aos gritos para evitarem se deparar com um preso hétero cis sem roupa.

As restrições, no entanto, funcionam para muitos apenas na aparência. “Eles falam que são homens, mas de homens não têm nada, porque isso [preconceito] não é coisa de homem de verdade”, sentencia Bruna. Além do mais, conta, alguns dos mesmos homens que rejeitavam os presos e presas gay, travestis e transgêneros, costumam frequentar os chamados cabarés, celas das monas — outra denominação para LGBT+ — que são divididas por lençóis para atender a namorados ou clientes, os bofes. “Não comem do mesmo prato, mas na hora de fazer safadeza dão até o cu”, relata ela.

O serviço de faxina fez sucesso e Bruna acabou sendo contratada para fazer limpeza nas áreas administrativas no CDP do Belém, na zona leste, onde cumpria sua pena. Recebia R$ 400 e guardava parte do dinheiro para comer pastel e tomar sorvete nas saidinhas (quando o preso de bom comportamento é autorizado a deixar a unidade prisional em datas especiais, como feriados). Nessas ocasiões, voltava para sua casa ou ia visitar amigas, que atualmente são seus principais vínculos afetivos, já que a família está espalhada entre Pernambuco, Paraíba e Minas Gerais. Ela só teve um namorado na vida, diz que não quer perder a independência, nem ficar em casa lavando louça e fazendo comida para homem.

Como a progressão para o regime aberto, pode voltar para seu lar em São Miguel Paulista e a dar suas voltinhas, mas não por muito tempo. Em 2017, entrou em outro tipo de programa: o Transcidadania, projeto iniciado na gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), que oferece cursos profissionalizantes, estimula o retorno ao ensino regular e paga uma bolsa trabalho mensal de R$ 1.097,25 para pessoas trans e travestis em situação de vulnerabilidade.

Com isso, parou de se prostituir e, para complementar a bolsa, trabalha eventualmente como faxineira. “Nunca sofri preconceito em casa de família, porque você tem que andar bem vestido, não é para andar com o rabo de fora, com os peitos aparecendo, eu acho isso ridículo. Nunca gostei dessas coisas. Vou de bermuda, com blusa comprida e sandália havaiana”, explica.

“Bruna é um amor, faz uma faxina ótima, areia uma panela que é uma coisa”, afirma Dona Antônia do Reis, a Tonha, dona da casa na qual Bruna presta serviços de limpeza. “E aqui em casa ninguém tem problema por ela ser travesti, não”, completa.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo
Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Pelo projeto, já fez curso de cabeleireira, cuidadora de idosos e pretende fazer um de computação e de português, disciplina onde tem dificuldades na escola. Continua sonhando em comprar uma casinha, agora com o dinheiro que pretende guardar trabalhando como cabeleireira ou escovista, novamente em Portugal. Quer fazer tudo com discrição e diz que não avisará a ninguém sobre sua partida. “Quando chegar hora e dia vou me embora, sem ninguém saber, vou fazer minhas coisas tudo caladinho. Porque, você sabe, quem fala muito dá bom dia a cavalo, amanhece com a boca cheia de formiga e não sabe porque morreu, e galinha que acompanha pato morre afogado.”

E foi bem isso que Bruna fez. Em julho de 2019, mudou-se para Minas Gerais, onde mora seu irmão, e é de lá que ainda administra seus sonhos.