Se provas de Moro forem tão extensas quanto depoimento, Bolsonaro está encrencado

Foto: Franklin Freitas/ AFP (via Getty Images)

O bolsonarismo entrou no módulo autofagia.

Duas semanas atrás, seria impossível imaginar que manifestantes com bandeiras e camisa verde e amarela idênticas trocassem agressões verbais e ameaças físicas na frente da Polícia Federal em Curitiba, a meca da Lava Jato onde o ex-presidente Lula cumpria pena até outro dia. 

Tudo porque o agora ex-ministro Sergio Moro, chamado de “Judas” por Jair Bolsonaro, chegou ao local no início da tarde para supostamente dizer tudo o que sabe sobre o ex-chefe. 

“Aqui na tem traição, não”.

“Vaza”.

“Vamos ser um pouco mais adultos?”

“Aqui é Bolsonaro, porra”.

“Mito!”

“Moro!”

“Fora, Traidor!”

“Vendido”.

A lista de xingamentos foi extensa. Não tanto, porém, quanto o depoimento do ex-ministro.

Acompanhado pelo advogado Rodrigo Sanches Rios, que já defendeu a Odebrecht e o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), peças-chave da investigação que ele um dia julgou, Moro prestou um depoimento de cerca de oito horas, das 14h30 às 22h40.

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Ele deixou a sede da PF nos primeiros minutos do dia seguinte. Sem falar com a imprensa, mas com um tuíte entre sarcástico e sugestivo: “Há lealdades maiores que as pessoais”.

De acordo com o advogado, o processo corre em sigilo e as partes só vão se pronunciar nos autos. Falta combinar com o cliente, que já divulgou ao menos um trecho de uma conversa por WhastApp em que mostra a pressão de Bolsonaro para trocar o comando da PF no momento em que aliados eram investigados.

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Segundo o jornal O Globo, Moro reiterou as acusações durante o depoimento e entregou novas provas contra o presidente. 

Ele colocou à disposição das autoridades o seu celular e o acesso a mensagens de aplicativo -- por ironia, os mesmos canais que ele dizia não servirem de provas sobre condutas indevidas durantes as investigações da Lava Jato. Desta vez, o vazamento veio da própria fonte, não de hackers ou autorização de grampos indevidos.

O depoimento atende a uma determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, que supervisiona as investigações após um inquérito ser aberto pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. São investigadas as suspeitas levantadas pelo ex-ministro ao deixar o governo. 

Aras pediu que Moro apresente “manifestação detalhada sobre os termos do pronunciamento, com a exibição de documentação idônea que eventualmente possua acerca dos eventos em questão”.

Sete possíveis crimes são investigados: falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de justiça, corrupção passiva privilegiada e denunciação caluniosa.

Dos sete, três podem ter sido cometidos pelo próprio ex-juiz, segundo especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo: prevaricação (quando um funcionário público deixa de comunicar um crime testemunhado na administração pública), denunciação caluniosa e crimes contra a honra. 

A tensão em frente à sede da PF em Curitiba mostra como mudaram rapidamente as relações de força no governo Bolsonaro. Até pouco tempo, Moro e Bolsonaro estampavam juntos os rostos de bonecos de herois infláveis em manifestações que pediam um pouco de tudo, do fechamento do Congresso e do STF ao fuzilamento de inimigos. Os manifestantes seguem unidos pela estética de gosto duvidoso, mas agora em campos opostos. 

Em uma entrevista em janeiro, Rosângela Moro disse que o marido e o presidente eram “uma coisa só”.

Em sua despedida do cargo, Moro relatou pressões políticas sobre a PF desde a metade do ano passado.

Até a demissão, no entanto, ele era apenas um funcionário dedicado e obediente que evitava confrontos com o chefe, mesmo quando o ex-juiz chamava miliciano morto em ação policial de “herói”.

Em oito horas de depoimento, é razoável que os policiais tenham feito uma pergunta básica: por que só agora as pressões vieram a público?

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