Depilação: Por que você pode desencanar dela

Mulheres com pelos nas axilas: ode ao autoconhecimento (Foto: Getty Images)

Por Giovanna Maradei (@giovannamaradei)

“O que o pelo está fazendo de mal para você?”. A artista e produtora de moda Bruna Novelli ficou se perguntando ao enfrentar comentários negativos em uma foto compartilhada nas redes sociais, na qual suas axilas estão com a “depilação vencida”. A resposta é simples – e confirmada por dermatologistas: nada. Depilação não é questão de higiene, muito menos de saúde.

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“Não há problema nenhum em cortar ou deixar crescer, essa é mais uma questão cultural”, garante Úrsula Metelnann, médica da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Sem condenar nem quem depila, ou quem opta por cultivar os pelos em todas as partes do corpo, ela garante que é possível até mesmo pintar, desde que se use tintas adequadas.

A especialista esclarece que pelos são mecanismos de proteção do corpo e também ajudam a regular nossa temperatura, mas vem aos poucos, com o surgimento das roupas, por exemplo, perdendo suas funções técnicas e ficando apenas com o valor estético. “Desde sempre eles servem como uma forma de ornamento”, explica.

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Vale lembrar, porém, que estes ornamentos nem sempre tiveram os mesmos valores. Se nos corpos masculinos, ao menos desde a Grécia Antiga, os pelos são vistos como símbolos de força e virilidade, no caso das mulheres, com exceção dos cabelos, é exatamente o contrário. O preconceito piorou no século 20, quando as roupas ficaram menores e axilas e pernas mais à mostra.

Ainda hoje, os pelos das mulheres são interpretados como sinais de desleixo e até falta de higiene. Um mito, que jovens do século 21, aos moldes das hippies e feministas dos anos 60, parecem estar se esforçando para quebrar.

Por quê você se depila?

Cera, pinças, lâminas e lasers. Parece tortura, mas são elementos usados com naturalidade por meninas, mulheres e senhoras para garantir peles, supostamente, mais bonitas e higiênicas. A atriz Débora Balarini, de 29 anos começou a se raspar aos 11 anos de idade. A depilação com cera entrou aos 12. Essa rotina sempre incluiu dores e alergias, mas só há cinco anos ela decidiu dar um basta.

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“Parei de lutar contra a minha natureza aos poucos para entender se os pelos me incomodavam de verdade, ou se eu só não tinha referências de outras mulheres que os assumem”, conta. O processo começou por partes, primeiro virilhas e pernas – que já não eram depiladas no inverno. Depois, foram as axilas. Débora foi ganhando independência em relação à aparência e percebendo quais partes gosta com pelo e quais prefere deixar sem. “Entendi que gosto de ver minha canela, então de vez em quando raspo essa parte com lâmina”.

Halterofilista australiana Seen Lee foi alvo de preconceito durante uma competição em 2014 por aparecer com axilas peludas (Foto: Getty Images)

Bruna, que hoje tem 23 anos, começou esse processo de questionamento um pouco mais cedo. Aos 15 anos, quando mudou de escola e o novo uniforme incluía o uso de saias, ela passou a se depilar – e não gostou nada do processo. Por sorte, encontrou ainda no ambiente escolar meninas dispostas a questionar o sofrimento. Isso deu força e inspiração para desencanar das sessões com cera quente e também de eventuais piadinhas maldosas ou comentários mais críticos.

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“Hoje eu depilo quando tenho vontade e deixo grande quando quero também. Eu sempre tento refletir sobre porque estou depilando e como vou me sentir mais confortável”, explica, sem esquecer que esse “conhecimento” não é tão óbvio assim: “O difícil é entender até que ponto esse confortável é por causa do que os outros vão pensar, ou por mim”.

Ninguém gosta de mulher peluda!

O olhar (e os comentários) alheios são os maiores desafios das mulheres que decidem assumir os pelos. Bruna, por exemplo, evita ir à praia com todos os cabelos a mostra. “Se você vai sem depilar a virilha é o pior, parece que todo mundo olha para você”. Débora também assume que, dependendo de onde for, ainda depila ou apara os pelos que ficam à mostra.

“Gostaria de poder assumir minha virilha-shorts de pelo, mas não é todo dia que estou afrontosa” – Débora Balarini

As ativistas e pesquisadoras garantem que esse desconforto tem muito a ver com a lógica patriarcal da sociedade atual. Em entrevista à revista AzMina, publicação dedicada à pautas feministas, Breanne Fahs, professora de Estudos de Gênero na Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, explica: “Há um grande desdém por mulheres que fazem escolhas sobre seus corpos que não cabem em padrões tipicamente heterossexuais. Se as mulheres não são facilmente consumíveis pelo olhar masculino, elas são rejeitadas”

A triste realidade, no entanto, não implica dizer que só se é feminista quem se recusa a depilar e desafiar estes padrões. “Ao contrário do machismo, o feminismo não é obrigação nem vem com uma cartilha pra dizer como cada mulher deve viver sua vida”, explica Carolina Oms, diretora-executiva da revista.

Vale a pena enfrentar os padrões?

Quem viveu na prática o cultivo dos próprios pelos garante que enfrentar os padrões e os comentários negativos vale a pena. “Não sou uma adoradora dos pelos. Mas é uma questão de se conhecer mesmo, entender como seu corpo funciona, o que te incomoda de fato nos pelos”, resume Bruna, colocando em pauta o grande ganho das mulheres que deixam de se depilar: o autoconhecimento.

Bruna Linzmeyer sobre não se depilar: ‘Comecei a achar bonito pelos em mim’

“Eu já vi os pelos com muita negatividade. Hoje encaro como mais uma característica minha, tenho esse corpo para viver esta vida, então preciso abraçar tudo que ele traz. Isso torna minha vida mais fácil e eu vou aprendendo com ele a gostar de mim”, reflete Débora.

A questão da autodescoberta também foi abordada pela atriz Bruna Linzmeyer ao posar com pelos nas axilas na capa de janeiro da Marie Claire. “Fiquei com vontade de experimentar ter eles, ver eles em mim, tocar neles enquanto passo creme no corpo, não ter mais que lidar com aquela dor insuportável, nem com o preço da depilação, nem com o tempo gasto nisso, nem com aqueles chatíssimos pelos encravados.”

Fora do Brasil

Cerca de 6 mil mulheres ao redor do mundo que participaram ativamente da campanha #januhairy (ou #janeiropeludo, em português).

Criado na Inglaterra pela estudante Laura Jackson, o movimento desafiou mulheres a passarem o mês sem se depilar, estimulando uma corrente de autoaceitação e ainda arrecadando dinheiro para a entidade Body Gossip, que desenvolve projetos de valorização de todos os tipos de corpos – sejam eles peludos ou não.