Denise Fraga, Bruno Mazzeo e Ícaro Silva encaram a crise em dramas de Neil LaBute

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma mulher de 50 anos deprimida está diante da câmera. Por dez minutos, ela fala, com os olhos voltados para um público invisível, sobre sua completa falta de esperança, e faz um pedido desesperado para que os que a veem nessa tela se comprometam, de alguma forma, com as suas dores.

O monólogo de Denise Fraga é um dos dez apresentados na peça "Dez por Dez", texto do americano Neil LaBute dirigido pelos irmãos Guilherme e Gustavo Leme, que estreia agora no site do Teatro Unimed, em formato de série online.

A princípio, quase nada une esses homens e mulheres. São personagens dos 20 aos 60 anos com trajetórias distintas, vividas pelos atores Angela Vieira, Bruno Mazzeo, Chandelly Braz, Eucir de Souza, Ícaro Silva, Johnny Massaro, Leopoldo Pacheco, Luisa Arraes e Pathy Dejesus. Enquanto um deles discorre sobre o afeto de um beijo que o marcou pelo resto da vida, por exemplo, outro narra o drama de uma calvície quando ainda se é um jovem adulto.

Mas essas histórias cotidianas, com textos quase universais, acabam sendo costurados tanto pela investigação social que operam, quanto por uma fotografia comum —todos os monólogos foram gravados em preto e branco em pontos diferentes do edifício Santos Augusta, desenhado pelo arquiteto Isay Weinfeld, em São Paulo.

"A obra toda é uma crítica social aos pequenos pathos humanos, às pequenas loucurinhas, estranhezas e maldades", diz Guilherme Leme. Gustavo concorda, acrescentando que Neil LaBute, "transforma o personagem numa ferramenta" para essa crítica.

LaBute, diretor de filmes como "Na Companhia de Homens" e "Enfermeira Betty" e conhecido como um dos mais cruéis retratistas da sociedade no teatro, escreveu o texto originalmente para a televisão em 2014, e voltou a fazer uma montagem em março do ano passado, já com os teatros fechados por causa da pandemia de coronavírus.

"Cada um foi criado para ser um pequeno retrato de uma pessoa num determinado momento de sua vida, com o ator falando diretamente para a câmera, sem qualquer edição", diz o dramaturgo, em entrevista por email.

Um monólogo de dez minutos contínuo, apresentado ao público virtualmente, parece ter tudo a ver com a pandemia, mas a criação do formato não teve a ver com o contexto de confinamento, afirma LaBute. O que ele quis foi "tirar o pó e apresentar para o público de novo", conta, numa tentativa de oferecer suas obras durante esse período, junto com outra série de curtas-metragens que ele dirigiu para a televisão.

LaBute conta que o cenário de pandemia o trouxe de volta aos tempos em que começou a trabalhar como dramaturgo. "Eu me sinto como um jovem estudante de novo, escrevendo roteiros por conta própria, sem saber se ou quando serão transformados em filmes ou peças. Talvez nunca", afirma. "É um pouco como se estivesse trabalhando num vazio, e ainda assim o espírito continua a me mover."

Os irmãos Leme contam que o enredo original quase não foi alterado, mas alguns monólogos se relacionam diretamente com a experiência do confinamento. É o caso da personagem de Denise Fraga, que se diz perdida "como tanta gente por aí, que vasculha os jornais e a internet em busca de um sinal, de uma mensagem, um código escondido que os faça seguir adiante".

"O projeto do LaBute foi concebido já nesse formato, então ele cai como uma luva. Nesses depoimentos cotidianos, você quer saber sobre essa outra pessoa, que está passando pela mesma situação que você, olhando no seu olho", diz Fraga.

É essa universalidade narrativa que o dramaturgo diz ter como objetivo principal em suas peças. "Você sempre espera por isso, por criar algo específico que soará verdadeiro para as pessoas em todos os lugares e durante os próximos anos", diz.

"Não vou ajustar os monólogos para que fiquem mais atualizados ou para falar sobre algo como o pós-pandemia, eles são o que são e o público os precisa conhecer no meio do caminho, sabendo que eles já são 'peças de época'."

Quando os monólogos foram exibidos pelo Actors Studio, em Saint Louis, nos Estados Unidos, onde o dramaturgo foi homenageado com um festival, as doações foram revertidas para trabalhadores do teatro. A versão brasileira repete a ação, e as contribuições serão direcionadas para o fundo Marlene Colé, criado pela Associação de Produtores Teatrais Independentes, a APTI.

Mais de um ano depois da apresentação dos monólogos em inglês, os cenários entre o país de Neil Labute e o nosso é bastante distinto. Com a vacinação avançada, os Estados Unidos já vislumbram uma reabertura de seus teatros, enquanto o Teatro Unimed, por exemplo, decidiu manter sua programação estritamente virtual em 2021.

"É uma experiência nova, aberta para várias possibilidades", avaliam os irmãos Leme. "No começo, foi muito duro ficar nessa tela, nessa interface. Mas acho que é uma aprendizagem tanto do artista quanto do público."

LaBute acompanhou projetos de teatro virtual que ele considera bem-sucedidos principalmente porque usaram as plataformas a seu favor, mas diz que, pessoalmente, ficará feliz com o fim de espetáculos que funcionam como leituras feitas pelo Zoom.

"Acho que a ideia de filmar uma produção ao vivo ou fazer algo diretamente para a internet continuará de alguma formam mesmo após a reabertura, mas não tenho certeza de que terá o mesmo tipo de vida quando as pessoas se sentirem seguras o suficiente para se sentarem juntos novamente num teatro e desfrutar de uma peça", diz.

"Foi uma ideia honrosa e uma tentativa de manter as artes à tona em tempos de caos, mas não há nada que possa substituir a perfeição, a bagunça e a santidade de uma apresentação ao vivo."

DEZ POR DEZ

Quando Estreia em 20/5. Toda quinta-feira, às 21h, duas histórias são lançadas. Todos os monólogos ficam disponíveis até 11/7.

Onde No site do Teatro Unimed, www.teatrounimed.com.br

Preço Gratuito

Autor Neil LaBute

Elenco Angela Vieira, Bruno Mazzeo, Chandelly Braz, Denise Fraga, Eucir de Souza, Ícaro Silva, Johnny Massaro, Leopoldo Pacheco, Luisa Arraes e Pathy Dejesus

Direção Irmãos Leme

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