"Não queria ser o palhaço da televisão", diz Denilson

Denílson recebendo o posto de embaixador da La Liga (Pablo Moreno/La Liga)

Dribles desconcertantes, títulos, jeito brincalhão, fama de mulherengo... Tudo isso acompanhou Denilson ao longo da carreira de jogador de futebol. Após a aposentadoria dos campos, o pentacampeão se preocupou com a imagem que o público teria dele ao assumir os microfones na função de comunicador, como gosta de falar.

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“Aconteceu naturalmente, nunca planejei nada na minha carreira, nunca planejei ‘daqui três anos quero ser um apresentador’. Vou fazendo as minhas coisas com entrega, querendo, e as coisas vão acontecendo. No começo, acho que a minha maior dificuldade foi nas minhas concordâncias, na forma de me comunicar, eu não queria ser mais um comentarista, não queria ser o bobo, o palhaço da televisão. Seria frustrante também se depois de toda a carreira que tive como jogador de futebol, as pessoas não levassem em consideração o que eu falasse. Eu realmente tive a prática dentro de campo, de ter jogado duas Copas do Mundo, hoje eu sei que as pessoas entendem que é meu jeito de ser a parte da zoeira, da descontração do programa, mas também tenho a credibilidade nas minhas opiniões”, contou em entrevista exclusiva.

A carreira na televisão começou como comentarista no programa de Milton Neves. Após dois anos, Denilson passou a fazer tabelinha com Renata Fan no Jogo Aberto, da Band. A parceria já dura quase oito anos. “É uma grata surpresa o nosso relacionamento profissional, temos uma relação muito bacana, nunca tivemos nenhum tipo de problema, sempre um ajudando o outro.”

E a preocupação em passar seriedade não fica restrita apenas ao trabalho como comentarista. É claro que o papo com o ex-atacante sempre rende boas risadas, mas uma versão mais séria de Denilson aparece ao fazer um balanço sobre a carreira.

Revelado pelo São Paulo, Denilson foi negociado com o Real Betis, da Espanha, por US$ 32 milhões (R$ 133 milhões na cotação atual) em 1997. Na época, foi a maior transação do futebol, superando até a transferência de Ronaldo Fenômeno do Barcelona para a Inter de Milão por US$ 28,8 milhões (cerca de R$ 116 milhões).

”Quando fui para a Europa, a minha situação financeira era muito ruim, minha família dependia de mim, eu não ganhava bem no São Paulo. Era um jogador profissional, mas ainda ganhava como amador. A minha opção naquele momento era a financeira. Hoje, se eu estivesse vivendo o mesmo momento, também teria ido. A situação dos jogadores hoje é uma situação financeiramente diferente. Eles ganham bem, eles podem ter esse privilégio de poder escolher para onde estão indo. Na minha época, tomei uma decisão financeira porque queria dar essa independência para os meus pais, para mim, e não me arrependo depois de ter conhecido o clube, vivido o clube. Eu falo com o coração cheio que não me arrependo de ter ido para o Betis”, declarou Denilson, que foi vendido aos 19 anos, mas ainda permaneceu uma temporada no Brasil e só deixou o Morumbi após a Copa do Mundo de 1998.

A transferência possibilitou a realização de um sonho. “O meu primeiro salário eu deixei guardado no banco, mas como peguei uma porcentagem da minha transação, a primeira coisa que fiz com essa porcentagem foi dar uma casa para os meus pais. Depois, o dinheiro que eu recebia lá fui fazendo investimentos”, recordou.

Apesar de jovem e vivendo em um país diferente, as maiores dificuldades não vieram fora das quatro linhas: “Na adaptação pessoal, eu não tive problema. Tive problema para me adaptar profissionalmente porque o futebol de lá é muito mais dinâmico que o daqui, demorei a me adaptar em campo. Agora, na vida pessoal, me adaptei rápido, com dois, três meses já estava entendendo muita coisa, até falava alguma coisa. Em um espaço de oito meses a um ano, no máximo, já estava falando fluentemente”.

Em alta na Espanha, Denilson foi chamado por Luiz Felipe Scolari para a Copa do Mundo de 2002. O ataque titular tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Apesar do trio estrelado, ele não ficou relegado a reserva de luxo, e era considerado por muitos como o 12º jogador daquela equipe.

O lance de grande protagonismo veio na semifinal do Mundial, contra a Turquia, quando quatro defensores rivais tentaram tirar a bola do então camisa 17 do Brasil, resultando em uma imagem emblemática.

“Gosto [de rever o lance], mas acho que para os olhos do torcedor e da imprensa foi mais importante, mais emblemático. Já tive vários outros lances que eu acho legal, que marcaram a minha carreira. Logicamente que aquele foi um lance plasticamente muito bonito. Lógico que fico muito feliz por ser o autor do lance, que de geração para geração as pessoas vão lembrar e vão falar, mas eu tenho outros lances mais bacanas. Destaco a pedalada na Holanda, na semifinal da Copa de 1998, o drible no Puyol jogando pelo Betis, destacaria a caneta que eu dei no Arce, jogando pela Seleção Brasileira, em Porto Alegre, jogos meus no São Paulo... Tenho outros jogos, mas eu entendo que para o torcedor e por ter sido realizado em uma Copa do Mundo dá uma visibilidade muito maior do que se eu tivesse feito jogando por algum clube”, analisou.

Denílson em seu principal lance na Copa do Mundo de 2002 (Tim De Waele/Getty Images)

E será que Denilson pensou que esse lance teria tamanha repercussão? “Só estava pensando em segurar a bola mesmo (risos). Na verdade, naquele lance, eu perdi o momento de tocar a bola para o Luizão, driblei o primeiro jogador e perdi o timing de tocar a bola quando levei a bola para a lateral do campo. Neste segundo momento, foi para segurar a bola, aí aconteceu todo o lance. Eu fui ter noção só depois do jogo, quando a imprensa só perguntava desse jogo.”

Para Denilson, a sintonia fora de campo entre o elenco do penta fez a diferença para a conquista. "Foi a melhor experiência de grupo na minha carreira, o melhor elenco que já trabalhei na minha vida. Nós éramos muito amigos, tanto que até hoje somos amigos, tamanha a ligação e intimidade que tivemos naquele período, construímos uma amizade para a vida. Felipão teve um feeling muito bacana em escolher os jogadores, não é só você ter um bom desempenho, é legal você conhecer também o comportamento profissional do cara. É difícil de você encontrar em uma Seleção Brasileira. Além do comprometimento, que era a nossa obrigação, a gente tinha muita consciência também do que precisávamos fazer fora de campo. Quando estávamos liberados, nós saíamos, normalmente íamos todos no mesmo lugar, era uma coisa diferente de outros clubes, por isso que deu muito certo, nos unimos muito dentro e fora de campo”, resumiu.

A manutenção de boa parte do grupo que passou pela decepção do vice-campeonato no Mundial de 1998 também foi ressaltada. “Esse foi um outro grande acerto do Felipão. A ideia era não ter o mesmo sentimento de 1998, que era muito frustrante. Você chegar no auge de uma Copa do Mundo, que é a final, e perder, isso é frustrante demais. Perder sem jogar bem, sem ser competitivo, é frustrante demais. Eu era o mais novo em 1998, o Kaká era o mais novo em 2002, foi um sentimento que ficou martelando na minha cabeça por muito tempo. ‘Por que jogamos desse jeito, por que perdemos?’ Na oportunidade de reviver aquela situação, você fala: ‘rapaziada, não queira ter esse sentimento de frustração que eu tive, que o Roberto teve, que o Cafu teve...’”

Assim como partia para cima dos adversários em campo, Denilson não foge da dividida ao falar de seus arrependimentos. Entre eles o ex-são-paulino destaca a transferência do Bordeaux, da França, para o Al-Nassr, da Arábia Saudita, em 2006. “Acho que eu deveria ter ficado mais tempo na França. Joguei só uma temporada lá, joguei bem, foi uma temporada bem bacana para mim. Porém, recebi uma proposta para ir para a Arábia, financeiramente ia valer muito a pena, mas profissionalmente teria sido importante ter ficado na França, e eu acabei tomando a decisão de ir para a Arábia por causa da questão financeira”, relembrou.

Ao falar de arrependimentos, o pentacampeão aproveitou para dar um conselho para Neymar, que tenta reencontrar o caminho do sucesso após lesões, briga com torcedor, acusação de estupro e uma tentativa frustrada de trocar o PSG pelo Barcelona na última janela de transferência.

“Ele tem que jogar bola. No geral, a resposta que o jogador de futebol tem que dar é em campo, não adianta dar resposta para a imprensa, no microfone, não vai resolver nada. Cada um tem uma forma de pensar e temos que respeitar as escolhas de cada um... Você tem que ter a sua postura, sua opinião para vida. A resposta que ele tem que dar é dentro de campo. O torcedor te ama na quarta-feira, te odeia domingo, torcedor é assim. Neymar é uma referência, pode ser que o torcedor demore para aceitar por ser o Neymar, mas ele tem que continuar fazendo o que está fazendo, mostra mais uma vez a capacidade que tem de reverter uma situação. O Neymar é um gênio”, opinou.

Na vida pessoal, Denilson revela que sossegou após conhecer a mulher, Luciele di Camargo, com quem está junto há 12 anos. “Eu fui muito mulherengo (risos). Ela me conheceu sendo assim, ela realmente mudou a minha vida em todos os sentidos desde que a gente começou a namorar. Quando a gente se conheceu, nós dois tínhamos 30 anos, acho que estávamos no momento de ter alguém, foi tudo no momento certo. Os dois estavam querendo ter algo sério”, contou.

“O relacionamento que tenho é transparente, de muito respeito, de amor, tenho dois filhos que vieram para fortalecer ainda mais esse amor que a gente sente um pelo outro, são 12 anos de relacionamento, a admiração ainda é muito grande, o amor também... a gente quer crescer ainda mais como casal, como pais, temos uma obrigação muito grande que é educar nossos filhos e fazer com que os nosso filhos se entreguem na sociedade de uma maneira bacana e tranquila, para enfrentar esse mundo louco que vivemos”, concluiu.

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