Escarcéu por um indicado ao Oscar diz mais sobre um país em vertigem do que o próprio filme

Brad Pitt conversa com Petra Costa durante encontro com os indicados ao Oscar 2020. Foto: Robyn Beck/AFP via Getty Images)

Como esperado, a indicação de “Democracia em Vertigem” ao Oscar de melhor documentário transformou o debate político, ao menos aquele que se manifesta nas redes sociais, na maior praça de guerra desde...bom, deixa pra lá.

Gente que estava quieta, como o PSDB, saiu das catacumbas para fazer as vezes de crítico de cinema em seu perfil no Twitter. 

Amizades, namoros e graus de parentesco se dissolveram novamente enquanto torcidas organizadas tentavam chegar a alguma conclusão sobre se o impeachment de Dilma Rousseff, tema do filme, foi ou não golpe. (Meu, isso é tão 2016, dirá o amigo internauta. Bem-vindo ao dia da marmota).

Quatro anos se passaram, Jair Bolsonaro já vestiu a faixa de presidente, e poderia estar rindo sozinho se ele não fosse um resultado direto do que o documentário pretende investigar.

A indicação, como não poderia deixar de ser, despertou o interesse estrangeiro na situação política no Brasil, e com ela a pergunta Tostines deixada pelo provincianismo tupiniquim: a opinião do estrangeiro não importa por que eles estão por fora ou eles estão por fora por que não podem opinar?

O nacionalismo se revela de muitas maneiras, e o mais aguerrido deles diz que esse país é nosso, quem pode opinar (ou detonar, não num sentido exatamente literário) somos nós.

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Ainda assim, a diretora Petra Costa tem sido requisitada para falar sobre o documentário e a situação do país para o público estrangeiro e desde então as reações se tornaram uma espécie de continuidade da obra, entre o real e o imaginário, o medo e a paranoia, a metalinguagem e o surrealismo.

Vejamos.

Em uma entrevista, Petra não foi muito generosa com o governo Bolsonaro. Falou do desmatamento, da perseguição a minorias e da violência policial. Sobre o último tema, embananou um pouco os assuntos ao atribuir uma relação direta entre mortes provocadas por policiais no Rio de Janeiro e a retórica bolsonarista.

Mas quem comanda a polícia no estado é um adversário de Bolsonaro, que no início da gestão revelou que a política de segurança era mirar na cabecinha de quem empunhava fuzis e PÁ. Desde então, é fato, muita gente morreu, inclusive por portar um par de chuteiras. A retórica de quem faz campanha com arminha na mão tem parte disso, claro, mas a tragédia nacional tem raízes profundas, polifórmicas e nem filme nem entrevista nem live oficial dá conta de todas elas.

Pintado como inimigo, Bolsonaro reagiu. Ou viu seus asseclas reagirem.

“Não, ele não persegue minorias” (só diz que prefere ter um filho morto a um filho homossexual, afirma que estrangeiro pode vir pra cá pra pegar mulher, mas turismo LGBT não, criou um critério de bom gosto para cortar financiamento para produções de temática gay, calcula peso de pessoas negras com arrobas, mas até aí, dizem seus apoiadores, ele não está batendo na cara de ninguém).

“Queimadas? Não, vocês entenderam mal! Quando o presidente fala que índio está quase virando gente, que os órgãos de controle ambiental alimentam a indústria da multa, que áreas protegidas precisam produzir minério e que ONGs em defesa do clima defendem apenas interesse de tarados que querem tirar a virgindade das florestas com dinheiro do Leonardo diCaprio ele não está autorizando a matança e a devastação, quem botou fogo na floresta é que ligou lé com cré por sua conta e risco”.

E como o governo criou a réplica para as críticas?

Usando um canal oficial, bancado pelo erário, para atacar a cineasta -- que, na versão oficial, criada com recursos oficiais, não era contra o governo, e sim contra o Brasil.

Alguém que acompanha a bagunça de fora pode se perguntar desde quando o governo de um país pode usar os canais oficiais para se posicionar contra ou a favor de um filme? Ou de uma cineasta?

A resposta mais óbvia é que ninguém mais se importa desde que um secretário de comunicação assumiu o posto e passou a negociar repasses a emissoras que são clientes de sua empresa privada da qual não abriu mão da sociedade. Pode?

No governo Bolsonaro, pode, desde que o aliado mostre fidelidade, e não esquerdismos.

No tiroteio, sempre tem algum desavisado que resolve meter a colher, como fez Pedro Bial, que ao falar do filme atacou a narradora mulher e aproveitou para dizer que não gosta do feminismo.

A opinião estava desautorizada não porque era irrelevante, mas porque ninguém que apresenta BBB pode reivindicar relevância -- embora tenha saído de lá Jean Wyllys, símbolo do movimento progressista que precisou sair do país para viver em paz.

A cada faísca, cresce um pouco mais o interesse e a exposição do documentário, mas nem que todas as produções indicadas em todas as categorias do Oscar tivessem o Brasil como tema esse país estaria perto de ser compreendido. Nem por profissionais, nem por amadores.