‘Democracia em Vertigem’ tem chance de ganhar o Oscar?

Por Diego Olivares

Com a sociedade brasileira polarizada em praticamente todos os assuntos do momento, a noite do dia 9 de fevereiro, quando acontece o Oscar 2020, promete ferver ainda mais o tenso ambiente das redes sociais. De um lado há aqueles que torcem por uma vitória de ‘Democracia em Vertigem’ como melhor documentário, do outro fica quem certamente não perderá a chance de comemorar uma eventual derrota do filme dirigido por Petra Costa.

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A polêmica em torno do longa, que narra os acontecimentos da política nacional nos últimos anos sob a perspectiva pessoal da diretora, se acentuou já no dia do anúncio da indicação entre os cinco finalistas na categoria. 

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Enquanto a esquerda celebrou o fato como uma demonstração de que o ponto de vista de Petra foi aceito dentro da comunidade internacional, membros da direita preferiram o escárnio. Mesmo admitindo não ter assistido a ‘Democracia em Vertigem’, o presidente Jair Bolsonaro classificou a obra como ficção, e disse que não iria “perder tempo com uma porcaria dessas”. O perfil oficial do PSDB no Twitter foi na mesma linha, ironizando a conquista: “Parabéns à diretora Petra Costa pela indicação de melhor ficção e fantasia”, diz o post.

A resposta de Petra veio em um editorial assinado por ela e publicado no jornal 'The New York Times', sob o título ‘A Guerra de Bolsonaro contra a Verdade’. No texto, a documentarista citou que “os esforços para descreditar a imprensa e as artes têm sido particularmente devastadores no Brasil”.

Mas o Oscar vem ou não vem?

Com todo esse contexto, é impossível analisar as chances de ‘Democracia em Vertigem’ apenas pelas questões cinematográficas. Ainda que não seja uma constante, a Academia vez por outra acaba usando o Oscar para mandar uma mensagem política ao mundo.

Um caso recente aconteceu em 2017, na categoria de melhor filme estrangeiro. A campanha pela vitória do iraniano ‘O Apartamento’ ganhou força nas semanas anteriores à cerimônia daquele ano, muito por conta de um então recente decreto de Donald Trump que colocava uma série de restrições a cidadãos de sete países de maioria muçulmana, incluindo o Irã, que quisessem viajar para os Estados Unidos.

O cineasta Asghar Farhadi, diretor de ‘O Apartamento’ e premiado em 2012 por ‘A Separação’, anunciou um mês antes do evento que não iria à festa, como protesto. Tempo suficiente de acabar chamando mais atenção dos votantes para seu filme, que acabou vencendo a categoria em cima do alemão ‘Toni Erdmann’, tido como favorito.

Algo parecido pode ocorrer agora, com os membros da Academia eventualmente dispostos a fazer uma espécie de reprimenda pública a Bolsonaro e outras figuras da política brasileira, principalmente após os debates sobre a postura das autoridades nacionais em relação a questões como a crise ambiental e o alinhamento total à ideologia de Trump.

Os concorrentes

Se ‘Democracia em Vertigem’ tem um trunfo a mais nas mãos a partir desse cenário, a má notícia para quem torce pelo filme é que os outros concorrentes da categoria de melhor documentário também tocam em assuntos urgentes, capazes de mobilizar os eleitores do Oscar.

O principal dos “adversários” da produção brasileira é ‘American Factory’, também disponível na Netflix. Produzido por ninguém menos do que o casal Michelle e Barack Obama, o filme trata da delicada relação comercial entre Estados Unidos e China, mostrando as diferenças das culturas profissionais entre os dois países a partir do cotidiano de uma fábrica comprada por investidores asiáticos no território norte-americano.

As bolsas de apostas apontam por uma disputa palmo a palmo entre ‘American Factory’, dirigido pela dupla Steven Bognar e Julia Reichert, e ‘Democracia em Vertigem’, com um terceiro candidato logo atrás. É ‘For Sama’, que trata cinco anos da Guerra da Síria pela perspectiva da diretora Waad al-Kateab, moradora de Aleppo, epicentro do confronto.

Completam a lista ‘The Cave’, de Feras Fayyad, e ‘Honeyland’, de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov. O primeiro é outra narrativa que traz a Guerra da Síria como pano de fundo, desta vez acompanhando o trabalho de um grupo de médicas da região, enquanto o segundo, indicado também a melhor filme estrangeiro, mostra a vida de uma família de apicultoras tentando preservar as abelhas de uma cidade na Macedônia do Norte.

As cinco são obras elogiadas, e ‘Democracia em Vertigem’ não apenas ter sido indicado como estar na dianteira da disputa já é uma vitória para o filme. A consagração com a estatueta ainda teria a importância de um marco histórico, ao tornar Petra Costa a primeira diretora latino-americana a ficar com o prêmio.