Demi Lovato exorciza demônios e sonha com final feliz em "Holy Fvck"

Capa do álbum
Capa do álbum "Holy Fuck", oitavo álbum da carreira de Demi Lovato. (Foto: Divulgação/Universal Music)

Demi Lovato jogou fora os bodys justos, parou de fazer danças sensuais no palco, raspou o cabelo e abdicou o título de diva, deixando esse posto para cantoras como Ariana Grande, Beyoncé e Taylor Swift. Após dominar a arte de recomeçar, a artista anunciou o funeral de sua música pop e deu início ao seu trabalho mais autêntico em anos, o disco “Holy Fyck”.

“Você gostaria mais de mim se eu ainda fosse ela?”, provoca em “Eat Me”, a faixa mais hardcore do disco em parceria com a banda Royal & The Serpent. A pergunta pode ser direcionada a amores, fãs e mídia, já que a artista recebeu diversas críticas após acabar com sua imagem hiperfeminina de “Confident” e se assumir pessoa não-binária.

Oitavo álbum de sua carreira, o projeto poderia ser facilmente o sucessor de “Here We Go Again”, disco pop rock lançado em 2010, que debutou diretamente no primeiro lugar na Billboard Hot 100, quando Demi tinha apenas 16 anos. Depois de trabalhar sob as expectativas do público nos últimos quatro projetos, seu lado mais artístico voltou a aflorar e seus gostos pessoais estão presentes em cada detalhe de “Holy Fvck”.

As 16 faixas são um registro de sabedoria que só se adquire com o tempo. “Freak”, colaboração pop punk carnavalesca com Yungblud, abre o disco e poderia narrar um show de horrores, mas sua vida não é resumida a momentos ruins e polêmicas para entreter: “Veio para o trauma, ficou para o drama”. Ela também debocha das manchetes sobre seu retorno à reabilitação em “Skin of my Teeth” com “eu só quero ser livre, mas não posso porque é a porr* de uma doença”.

Com guitarras pesadas e vocais intensos, Demi transita entre a raiva, sensualidade, ousadia e romance em “Substance”, “Come Together”, “Bones” e “Wasted”, sem deixar a afronta de lado. Em “29”, ela relembra seu relacionamento com um cara mais velho quando tinha apenas 17 anos e em seus últimos dias antes de chegar aos 30 anos, reflete: “Pensei que era um sonho adolescente, uma fantasia. Mas era sua, não minha”.

Sob influências de “Paramore” e “Blink-192”, “Help Me”, com Dead Sara, e “City of Angels” teriam colocado o disco no topo das paradas se tivessem sido lançadas em 2002, na mesma altura que “Let Go”, de Avril Lavigne. Mas o lançamento não está alguns anos atrasado, pelo contrário, o timing é perfeito com a volta do emo e com mais liberdade para cantar sobre masturbação e religião em "Heaven" e “Holy Fvck”.

A ex-estrela teen da Disney passou muitos anos falando abertamente sobre a sobriedade, problemas de saúde física e mental, em suas músicas e documentários. “Dancing With The Devil” mostra como quase perdeu a vida ao sofrer uma overdose em 2018, ficou com algumas sequelas e precisou passar um período distante das câmeras.

Mesmo com o grande retorno no palco do Grammy e tendo lançado o disco “Dancing With The Devil… The Art Of Starting Over” em 2021, que é um projeto quase experimental para desabafar sobre a nova fase de sua vida, seus problemas não desapareceram da noite para o dia. Aqui, ela exorciza seus demônios, lamenta a perda de amigos para problemas similares em “Dead Friends” e questiona em “Happy Ending”: “Será que vou morrer tentando encontrar meu final feliz?”.

O disco apresenta uma dicotomia do bem e do mal, um anjo e um demônio tentando influenciar Lovato a tomar decisões e escolher a forma como deseja viver, dois lobos habitando um ser como narra em “Feed”. Depois de tantas experiências traumáticas, a artista parece estar priorizando o bem-estar e a felicidade em “4 Ever 4 Me”, vivendo para si e não para suprir as expectativas de outras pessoas.