Coronavírus: delírio é um sintoma negligenciado em pacientes idosos

Estudo indica que muitos idosos infectados apresentaram confusão e agitação. (Getty Images)

O delírio é um sintoma comum entre os pacientes idosos hospitalizados com coronavírus, alertam especialistas. Definido como uma confusão repentina, o sintoma pode impedir que o indivíduo pense claramente, saiba onde está, ou preste atenção no ambiente. Em casos graves, pode até causar alucinações.

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Cientistas do St Vincent’s University Hospital, em Dublin, Irlanda, classificaram o delírio como “uma peça faltando no quebra-cabeça da pandemia de COVID-19”.

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E pesquisas iniciais sugerem que entre 20% e 30% de todos os pacientes infectados com o coronavírus apresentam delírios ou uma mudança no seu status mental enquanto estão no hospital. Esse número aumenta para 60% a 70% em casos particularmente graves.

Mulher usa máscara em Varsóvia, Polônia. (Getty Images)

Muito comum em pacientes idosos

Discursando na Royal Society of Medicine (RSM) sobre como o coronavírus tem afetado as populações mais velhas, o Dr. Jugdeep Dhesi, do Guy’s and St Thomas’ NHS Foundation Trust, disse: “O delírio é um sinal muito comum, mas não costuma ser reconhecido”.

Surpreendentemente, os pacientes idosos nem sempre apresentam os principais sintomas do coronavírus, como a febre. “Em cerca de um terço dos pacientes idosos, os sintomas atípicos são os únicos que aparecem,” disse o professor Adam Gordon, da University of Nottingham, na reunião da RSM.

“[Sinais anormais de infecção incluem] anorexia, que provavelmente é uma manifestação do delírio [por causa da redução do apetite ou incapacidade de comer] e confusão. [As pessoas mais velhas nem sempre desenvolvem] sintomas típicos, como a tosse e a perda do olfato e do paladar”.

Cientistas do Imperial College London analisaram 394 residentes e 70 funcionários de lares de idosos afetados pelo coronavírus na parte central de Londres, Inglaterra. Cerca de 40% dos residentes testaram positivo, dos quais 18% apresentaram apenas sintomas atípicos.

A anorexia e o “comportamento confuso ou alterado” foram sintomas estatisticamente significativos entre os residentes.

A identificação do delírio “deve fazer parte do padrão de atendimento”

O Royal College of Psychiatrists reconhece o delírio como um sintoma potencial do coronavírus que “pode apresentar desafios particulares no contexto da crise de COVID”.

As infecções, em geral, são uma causa comum de delírio, assim como uma mudança no ambiente ou a redução dos níveis de oxigênio no sangue.

“Ele pode se apresentar em qualquer paciente, de qualquer idade, e é muito comum no pós-operatório de cirurgias,” o professor Gordon disse ao Yahoo UK. “A sua incidência, no entanto, aumenta com a idade”.

Um estudo realizado em Wuhan, na China – onde o surto de coronavírus teve início – descobriu que 36,4% de 214 pacientes com coronavírus tiveram sintomas neurológicos, índice que aumentou para 45,5% entre aqueles com casos graves da infecção. O delírio foi um desses sintomas. E outro estudo realizado em Estrasburgo, França, descobriu que 65% dos pacientes de coronavírus em UTIs apresentaram confusão mental.

Outra análise envolvendo 45 pacientes, no momento em que receberam alta, revelou que 33% apresentaram “falta de atenção, desorientação ou movimentos desorganizados, em resposta a comandos”.

A pesquisa também descobriu que 69% dos pacientes recebendo cuidados intensivos estavam agitados, e 21% dos que acabaram falecendo apresentaram “consciência alterada”.

Como o coronavírus causa o delírio?

No começo do surto, cientistas suspeitaram que o coronavírus poderia afetar o cérebro, considerando que ele costuma causar fadiga e a perda do olfato e do paladar. “A perda do olfato provavelmente ocorre devido a uma invasão direta do nervo olfatório, que se conecta diretamente com os lobos frontais,” disse a Dra. Sharon Inouye, geriatra, ao The Harvard Gazette.

O estudo de Estrasburgo revelou que os exames por ressonância magnética de alguns pacientes mostraram “uma iluminação do espaço das meninges”. Este pode ser “outro sinal da invasão viral no cérebro,” acrescentou.

Foi sugerido que a infecção danifica a barreira hematoencefálica do cérebro, o que pode levar a um ataque imunológico ao sistema nervoso central. A inflamação provocada pela resposta imunológica ao vírus também pode desencadear sintomas neurológicos.

Acredita-se que isso ocorra pela rápida liberação de proteínas imunitárias, um quadro conhecido como tempestade de citocina.

Alexandra Thompson