'Deixei o dread e ninguém sentava do meu lado', diz Marcelo Falcão

LEONARDO VOLPATO
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***FOTO DE ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, BRASIL, 13-02-2019: Retrato de Marcelo Falcão, ex vocalista da banda O Rappa, que lança novo álbum de sua carreira solo. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, BRASIL, 13-02-2019: Retrato de Marcelo Falcão, ex vocalista da banda O Rappa, que lança novo álbum de sua carreira solo. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Atento aos problemas sociais e acostumado a transformar as principais feridas e mazelas da sociedade em música há pelo menos 25 anos, o cantor Marcelo Falcão, 47, se diz atônito às ondas racistas que têm afligido o Brasil e o mundo nas últimas semanas.

Desde que um policial branco se ajoelhou no pescoço de George Floyd, um homem negro e algemado nos Estados Unidos [no dia 25 de maio em Minnesota], o planeta inteiro começou a olhar para a questão do racismo. No Brasil, isso também aconteceu. Na opinião de Falcão, porém, falta união aos brasileiros com relação a essa questão para que a luta antirracista vire algo rotineiro.

"Precisamos ver a morte de Floyd para olhar para o nosso problema, que existe desde os tempos de Dom Pedro 2°. Sempre temos de ver o que acontece lá fora para virar o foco aqui para dentro. A gente só não está melhor porque é desunido. Com união viraríamos a história", diz o cantor.

Para Falcão, os casos de racismo são absurdos, mas acontecem a todo instante por aqui. Muitos, ou melhor, a maioria deles, não são veiculados. Nascido e criado na comunidade do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, o músico sabe bem o que é sofrer na pele o desrespeito e a discriminação.

"No Engenho Novo tem comandos de favelas inimigas que guerreiam entre elas. Meu comando é o da música", explica Falcão, ao rememorar um caso que aconteceu com ele na adolescência antes de integrar O Rappa, banda que ficou por 25 anos. "Se eu for no Engenho Novo vou tomar dura, vão me revistar, sempre foi assim. Deixei o dread crescer e ninguém sentava do meu lado no ônibus. Colocavam bolsa no banco, mas não sentavam do meu lado."

A discriminação e o desrespeito com quem é periférico foram coisas com as quais Falcão acabou se acostumando. "Desde que sou nascido e criado vejo as facções, polícia deixando as coisas mais difíceis, às vezes. O racismo no país é estrutural, é conveniente. Tem sempre alguém para subjugar o outro. São várias vozes solitárias soltas", reflete.

LIVE NA FUNDIÇÃO PROGRESSO

Marcelo Falcão vai sair pela primeira vez de sua casa para fazer uma live. Até então ele só se apresentou ao estilo voz e violão dentro de seu condomínio no bairro do Recreio (RJ). Aliás, as apresentações, que chegam a durar sete horas, costumam agradar aos vizinhos.

Neste domingo (19), porém, o palco será a Fundição Progresso também na capital fluminense. O show, exibido ao vivo por seu canal do YouTube, começará a partir das 17h, e a casa de shows foi toda limpa e esterilizada conforme todas as recomendações dos órgãos de saúde.

Falcão vai tocar sucessos solo e os da banda O Rappa, além de canções de Tim Maia, Jorge Ben, entre outros. Haverá a participação do cantor Filipe Ret, com quem Falcão escreveu algumas músicas -uma delas será apresentada na live.

"Só estou indo porque tenho a garantia de que tudo está sendo preparado na maior limpeza e cuidado. Também é uma maneira de ajudar meus amigos da banda. Nessa crise eu posso vender tudo, mas eu não vou me desfazer da minha equipe. A live é a chance de ajudar muitas pessoas e de fazer o que mais amo", diz o músico.

PATERNIDADE E NOVO DISCO

Enquanto os shows com público não podem acontecer, Falcão fica em casa. A quarentena aflorou o lado pai de Marcelo Falcão. Em casa diariamente com Tom, de um ano e quatro meses, ele acaba por descobrir a cada dia um mundo novo. Mas nada que o faça pirar. Pelo contrário.

"Se ele tivesse nascido anos atrás eu seria o pai dele de segunda, terça e quarta. Já seria excelente porque eu estaria trabalhando para levar a ele o sustento. Mas Deus me deu o presente que é saborear a vida dele. Desde que deixei O Rappa e embarquei na carreira solo [desde 2019 com disco "Viver"], queria fazer shows só de sexta e sábado para poder curtir o Tom", diz.

Com a pandemia do novo coronavírus a paternidade se multiplicou por mil. "Na quarentena você tem o entendimento total. Hoje dou mais valor às coisas que meus pais falavam. Tom começou a andar, é inteligente, repete tudo, cheio de saúde. Mas ficar com criança cheia de energia em casa é casca-grossa", diverte-se.

A quarentena também tem servido para que Falcão componha. Ele já está em uma fase adiantada da produção e seleção das músicas para seu novo disco, programado para chegar no início de 2021."Me ligando no que está rolando no mundo, comecei a pegar papel e caneta e voltei com o compromisso de compor. Tenho um disco de dez singles para fazer com participações, inclusive. Acredito que devo mostrar uma música a cada 40 ou 50 dias ao público. Até lançar por volta do Carnaval do ano que vem", almeja.