Deixe minha pepeka em paz! "Camuflar odor também é opressão"

Muito mais que uma discussão sobre saúde sexual, a existência desses produtos levanta outra questão importante: por que precisamos modificar o cheiro da vagina?. (Foto: Getty Creative)
Muito mais que uma discussão sobre saúde sexual, a existência desses produtos levanta outra questão importante: por que precisamos modificar o cheiro da vagina?. (Foto: Getty Creative)

O perfume íntimo era um dos melhores amigos de Tainara Nunes, 21 anos. Não podia faltar na bolsa da jovem, fosse para o dia a dia ou em festas. Começou a usar por pura curiosidade, aliando a outro item, o sabonete íntimo. “O sabonete tinha uma espécie de espuma. Costumava levar muito para a balada, usava depois de urinar. Quando eu tinha relações sexuais costumava usar o perfume. Acabei viciando”, explica.

O perfume virou inimigo quando a técnica em enfermagem passou por um susto. À época, Tainara namorava e, em uma das relações, percebeu “bolinhas brancas” saindo da vagina. “A gente foi em uma clínica fazer teste rápido (para Infecções Sexualmente Transmissíveis), mas não alegou nada, então marquei consulta com ginecologista”.

A médica da jovem logo recomendou que ela parasse de usar os produtos íntimos, reforçando que eles pioram a saúde vaginal e estava complicando a de Tainara.

Depois desse momento eu tive candidíase, problemas com lubrificação… Uma série de problemas. Tenho pavor, não uso mais hoje em dia o perfume. Foi uma lição, aprendizado

Tainara tem 21 anos e é técnica em enfermagem. (Foto: arquivo)
Tainara tem 21 anos e é técnica em enfermagem. (Foto: arquivo)

O perfume de Anitta

O relato de Tainara, assim como o de outras pessoas que passaram por situações semelhantes, encheram as redes sociais nos últimos dias, após a cantora Anitta anunciar o lançamento do Puzzy, seu novo perfume íntimo.

Houve quem curtiu a ideia, especialmente porque esse da artista pode ser utilizado em outras regiões, como pênis e ânus. Por outro lado, teve também quem alertou para os prejuízos que o “Puzzy” e semelhantes podem causar.

"Não é possível que Anitta, com todo acesso que tem, não saiba que perfume íntimo é uma bomba pra saúde sexual”, escreveu uma internauta.

Deixe minha pepeka em paz

Muito mais que uma discussão sobre saúde sexual, a existência desses produtos levanta outra questão importante: por que precisamos modificar o cheiro da vagina?

Carla Cristina Marques, do Coletivo Feminista de Saúde, ajuda a contextualizar:

“Historicamente, vemos produtos sendo lançados para corrigir algum ‘defeito’ nas mulheres, como creme para estrias e celulite, sabonete íntimo, corretivo para olheiras, etc. Pela quantidade de produtos nas prateleiras, podemos concluir que vendem bastante, por isso tantos lançamentos. Cria-se uma necessidade nas pessoas para que corrijam esses defeitos”.

A médica ainda reforça: todas as pessoas têm seu odor natural, seja de secreção menstrual, do hálito, do suor das axilas ou dos pés... Para Carla, tentar camuflar esses odores é trazer a imagem da "mulher limpa", e essa pressão nasce na desigualdade de gênero entre homens e mulheres.

"Um exemplo são as propagandas de absorvente com mulheres menstruadas muito ativas andando de calça branca, camuflando algo que acontece todos os meses na maioria das mulheres. Não vemos nas prateleiras, por exemplo, sabonete íntimo para homens e pouco se discute sobre a higiene deles", lembra.

Para responder a pergunta ali de cima, a gente precisa voltar um pouquinho na história. Falar sobre saúde, sexualidade, corpo e….. vagina, sempre foi tabu. Quantas vezes não ouvimos que a região tem “cheiro de peixe”?

“Toda nossa construção social olha para o corpo feminino como algo estranho, principalmente para a vagina - seja pela menstruação ou pelo ciclo. O fato de as vaginas serem úmidas e, grande parte das pessoas não conseguirem compreender os fluidos, faz tudo ficar mais complexo”, explica Larissa Cassiano, ginecologista e ativista pelo bem estar sexual e parto humanizado.

Concorda com ela Mariana Prado, que aproveita para trazer uma saída interessante: a ginecologia natural.

“O discurso que acaba endossando que a vagina fede e precisa de perfume não é o melhor dos caminhos. A vertente da ginecologia natural vem de saberes ancestrais que devem ser valorizados, como os banhos de assento com ervas, por exemplo".Mariana Prado

Segundo Prado, toda vez que um assunto como esse vem à tona, é importante relembrar: vagina cheira a vagina e está tudo bem! “Quando o odor vaginal muda de aspecto ou há coceira ou corrimento ‘nata de leite’, aí sim há um problema. Dito isso, a vagina saudável vai ter sim um odor natural que é dela”, pontua.

Larissa, por exemplo, consegue listar vários casos de pacientes que recorreram à ela após complicações pelo uso desses sabonetes, perfumes, entre outros. “Casos que vão de corrimento de repetição a alergia. (A opressão pelo uso desses produtos) pode afetar a vida sexual inibindo ou impedindo relações e também gerando ansiedade”, conta a médica.

Mas o produto não é dermatologicamente testado?

Provavelmente essa dúvida passou pela sua cabeça. Quando anunciou o “Puzzy”, que deve custar entre R$ 70 e R$ 100 e foi produzido em parceria com a farmacêutica Cimed, a equipe ressaltou que ele é “dermatologicamente e ginecologicamente testado, sem álcool e hipoalergênico”.

Isso significa que pode ser usado com tranquilidade e você leu toda a matéria em vão? Calma! As ginecologistas respondem: “Dermatologicamente testado significa apenas que foi testado para uso no corpo e não apresentou alergias, mas não significa que é indicado por profissionais, por exemplo”, reflete Larissa.

Carla Cristina aponta o mesmo caminho: “Significa que esse produto foi aprovado em testes dermatológicos determinados pela Anvisa e que a maioria das pessoas que o utilizaram não apresentaram reações adversas. Mesmo assim, para algumas pessoas esses produtos podem causar reações, pois dependem da sensibilidade para aquele produto e do modo que foi aplicado”.

Mariana deixa a dica: mesmo que depois dessas informações você vá utilizar o “Puzzy” ou qualquer outro (seja sabonete, perfume ou desodorante), é essencial estar de acordo com seu/sua médica/o. “Além da questão do Ph, existe a microbiota vaginal com todos os microorganismos importantes (para a região). É muito importante entender a composição e as propriedades que se está usando em regiões sensíveis como vulva e vagina”, encerra.

Entenda anatomia da vagina. (Foto: Getty Creative)
Entenda anatomia da vagina. (Foto: Getty Creative)
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