Deborah Secco está certa em falar (e gostar tanto!) de sexo

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Deborah Seco comento como ainda não entende o tabu em torno de conversas sobre sexo (Foto: Intagram / Deborah Secco)
Deborah Seco comento como ainda não entende o tabu em torno de conversas sobre sexo (Foto: Intagram / Deborah Secco)

Nas redes sociais, não se fala em outra coisa senão na entrevista que Deborah Secco deu ao lado de Claudia Ohana e Maria Bopp para Renata Ceribelli no podcast 'Prazer, Renata'. Isso porque, sempre tão à frente do seu tempo, a atriz contou como foi julgada, tanto dentro quanto fora de casa, por explorar a sexualidade e papéis na televisão e no cinema que fugiam da tradicional "boa moça brasileira".

O ponto principal foi o relato da atriz sobre como ela se sente em relação ao sexo. Aliás, não é novidade que ela chegou a ter problemas sérios com o assunto, no sentido de descobrir um vício que afetou diretamente a sua vida. Ainda assim, a falta de papas na língua para falar sobre o tema abertamente é inspiradora e nos faz questionar o tabu envolvendo o assunto numa época tão avançada quanto a que vivemos (por mais que não pareça).

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"Sexo é uma coisa que todo mundo faz. A coisa mais incrível que eu fiz na minha vida foi sexo, que gerou um ser que nasceu, cresceu dentro de mim. Todo mundo que nasceu é fruto de sexo. Então me estranha muito que até hoje todo mundo que foi feito através de sexo, existiu através de sexo, procria através de sexo, não fale sobre sexo", explica ela.

A falta de conversa sobre o tema - assim como acontece com questões que envolvem saúde mental, por exemplo -, afetam diretamente a vivência em sociedade. É simples: basta usar alguns medidores básicos, como o índice de gravidezes na adolescência (são 400 mil casos ao ano no Brasil, em média), de disseminação de infecções sexualmente transmissíveis (nos últimos anos, vimos aumento no número de transmissões de sífilis, hepatites e vírus HIV no país) e até de abuso e violência sexual (de novo, números altíssimos por aqui) para saber alguns dos efeitos dessa não-comunicação.

O que esse indicadores nos contam, além da estrutura machista e paternalista em que vivemos, é que a conversa sobre sexo é tão pouco disseminada que é melhor que meninas engravidem (e sejam julgadas por isso) do que os governos do estado e da federação, por exemplo, investirem em educação sexual de qualidade, que ensine sobre prevenção, sexo seguro e a transmissão de doenças. É claro que essa conversa também precisa existir dentro de casa, de forma que crianças e adolescentes se sintam seguros e acolhidos para conversar sobre o assunto sem medo de encontrar uma resposta, mesmo que precisem pesquisar junto com os pais para aprender sobre o tema.

Por aqui e em tantos outros lugares do mundo, o sexo é usado também como uma arma, no sentido de ser uma ferramenta de os homens, principalmente, imporem a sua supremacia sobre as mulheres - veja, por exemplo, os altos índices de estupro no país (são 181 estupros por dia no Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública), uma demonstração clara de uso de força para a satisfação pessoal e manutenção de um status quo.

Por falar abertamente do assunto, por aceitar viver uma personagem que gira em torno do sexo, como foi o caso de Bruna Surfistinha, e até por mostrar a sensualidade sem medo em capas de revista, Deborah conta que foi extremamente julgada pela própria família, pelos amigos, e por muita gente que acompanhava o seu trabalho.

É impossível não lembrar, mais uma vez, da série 'Bridgertons', da Netflix, em que a personagem principal, Daphne, tinha tão pouco conhecimento sobre sexo e sexualidade no geral que não sabia como os bebês nasciam, e precisou ir até a criada, o que era considerado escandaloso na época em que a trama se passa, para entender como as mulheres engravidavam. Essa falta de conhecimento é muito sintomática, e é impossível não ver certa semelhança com a forma como o assunto é tratado ainda hoje - quem quiser saber sobre, que pesquise na internet, recorra ao pornô ou descubra no susto mesmo, quando já estiver com um parceiro ou parceira na cama. Conversar sobre é quase proibido.

Essa falta de diálogo, principalmente em relação às mulheres, é o que gera um índice de desconforto sexual tão grande. Muitas delas não sabem nem dizer o que é um orgasmo ou o que gostam na cama, têm medo de explorar o que gostam e até de reconhecer o quanto o sexo é bom - como se ele fosse algo sujo e errado. É uma opressão que tem por base a ideia do sexo como fruto de procriação apenas - visão essa que é reservada às mulheres, claro.

Vale lembrar aqui sobre a visão da "santa" vs. "puta", que ainda é tão disseminada mundo afora. A mulher aberta sexualmente, as Samantha Jones que encontramos por aí (em referência à personagem de Kim Cattrall em Sex And The City), são vistas com maus olhos e, numa visão muito retrógrada, como indignas de casamento. Ao contrário, as puritanas, virgens, comportadas e submissas são consideradas bons partidos, aptas para o casamento e o tipo "ideal" dos homens.

No fim, e assim como para as questões de saúde mental, como depressão e suicídio, não falar sobre o assunto não faz com que ele desapareça. Pelo contrário, gera questões profundas e bastante complexas que, via de regra, não são benéficas para a sociedade. Abrir a roda de conversa sobre sexo não significa ensinar, na sala de aula, as crianças a transar, mas educá-las sobre o assunto de maneira que elas possam tomar decisões conscientes sobre o tema, saibam a quem recorrer quando tiverem dúvidas e a vê-lo como parte do seu dia a dia no futuro. É sobre desenvolver uma relação saudável com a sexualidade, de forma que masturbação, prazer feminino, orgasmos, não sejam palavras sujas e erradas, mas parte de uma busca natural pela satisfação sexual.