Deboche com pente garfo no 'BBB 20' é, além de racismo, ataque contra autoestima negra

Babu sofre mais um ataque de racismo no BBB20 (Foto: Babusantana/Reprodução/Instagram/arte/@ric_sales)

Eu poderia começar este texto respondendo à Ivy do ‘BBB 20’ que eu, assim como o Babu, sou uma das milhões de pessoas deste país que usam o pente garfo para arrumar o cabelo. Mas eu quero começar falando sobre liberdade. 

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Primeiramente, a liberdade de ir e vir que o coronavírus tirou das pessoas de uma semana para outra. Angustiante, né?! Agora imagine se também lhe fosse tirado a liberdade de ser quem você é. Parece loucura pensar. Mas é isso que o racismo tenta impor à população negra.

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O deboche de Ivy ao perguntar: “Quem que penteia o cabelo com um trem desse?" e a gargalhada dela com a resposta de que o pente garfo é do ator Babu (um dos únicos dois participantes negros da casa) é um exemplo clássico de racismo recreativo que nós negros sofremos diariamente. 

Esse racismo que debocha da nossa estética, ao mesmo tempo que impõe que o padrão aceitável é o branco, que impõe que ter o cabelo crespo é algo risível e que ser negro não é algo digno. Não basta o racismo estrutural nos negar a oportunidade de estar nos lugares (sobretudo os de poder e prestígio). Também existe uma dinâmica para nos inferioriza e nos fazer ter vergonha de ser quem somos.

Infelizmente isso já funcionou no passado. Passamos anos alisando o cabelo. Passamos anos sem orgulho das nossas origens e da nossa estética. Mas o conceito do movimento ‘Black is Beautiful’ (iniciado nos Estados Unidos na década de 60) demorou mais chegou ao Brasil. Não permitimos mais que debochem do nosso cabelo, tampouco do garfo que usamos para deixá-lo tão alto quanto a nossa autoestima.

Assistir à cena sobre o pente garfo, ou àquela em que Marcela diz que o lugar do Babu é na xepa, me paralisou em um primeiro momento. Não só a mim. “Nem sei o que dizer”, afirmavam os comentários nas redes sociais. 

Nós dificilmente sabemos o que dizer na hora em que estamos em uma loja e nos perguntam se trabalhamos ali… Não sabemos o que dizer quando perguntam se lavamos o nosso cabelo… Mas, diante de abordagens racistas como essas, sabemos que precisamos resistir. 

E, enquanto o BBB ‘passa um pano’ para episódios como esses, meu povo preto vai pra rede social militar. Alguns pacientemente educam os brancos sonsos que dizem não ver racismo em nenhuma situação; e outros (como eu) postam fotos ou vídeos com seu pente garfo, como que ouvindo o hino “Negro é Lindo”. 

Se aqui fora, estamos vigilantes. Dentro da casa do BBB, Thelminha e Babu também estão atentos. Embora metade das ofensas racistas aconteçam pelas costas de ambos, eles já foram vacinados aqui fora contra racismo. No início do programa Babu sacou Marcela: “eu já recebi muito aqueles olhares. A Marcela me olha igual a minha patroa”, disse o ator. Thelminha, embora enturmada com as mulheres que hostilizam Babu, já afirmou que vai protegê-lo quando tiver oportunidade.

Como bem disse Nina Simone: “Liberdade é não ter medo”. Então deixemos o medo para o Covid-19, porque é necessário. Quanto ao racismo, nós não o tememos mais. Nós o enfrentamos e, assim, nos tornamos livres para ser quem somos a despeito de qualquer tentativa de opressão.