Debate entre Picasso e nazista sobre autoritarismo guia peça do Grupo Tapa

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pablo Picasso e uma assessora do governo alemão se encontram no palco para travar um debate dos tempos da Alemanha nazista, que também ecoa o nosso. Qual é o papel da arte em regimes autoritários?

Esse embate entre um artista e uma agente do Ministério da Propaganda, travado na peça "Um Picasso", texto do dramaturgo norte-americano Jeffrey Hatcher, marca o retorno do Grupo Tapa ao teatro presencial nesta quinta. A montagem estava a dez dias de estrear quando tudo fechou em razão da pandemia.

O interrogatório de Picasso por Fraulein Fischer, interpretados por Sergio Mastropasqua e Clara Carvalho, se dá na ocupação nazista de Paris em 1941. O que a funcionária do regime alemão busca é a autenticação de obras confiscadas do pintor espanhol para a famosa exposição de arte degenerada, que, na verdade, era uma queima pública de artefatos.

Perseguição à arte, apagamento da memória e autoritarismo já estavam apontados no começo de 2020, plano original de apresentação da peça, afirma o diretor Eduardo Tolentino de Araújo.

"Nós não tínhamos pandemia naquele momento, não tínhamos uma questão mundial. Mas, pelas questões locais, para mim já fazia todo o sentido discutir qual o sentido da arte diante de um estado de exceção", conta.

Apesar de estar demarcado, de saída, os lados antagônicos que um artista e uma agente do regime nazista ocupam, a negociação entre os dois aponta para sujeitos mais complexos.

Picasso, por exemplo, aparece como um artista que não se posiciona politicamente num primeiro momento, apesar de ser um artista perseguido pelo regime.

Já Fraulein Fischer, que de cara encarna o desejo do regime nazista de acabar com a arte considerada degenerada, se revela interessada pelas artes plásticas --e também uma grande admiradora do trabalho de Picasso.

"É dialético porque Fischer está ali a serviço de um regime, mas também para preservar alguma coisa", afirma Mastropasqua. "Tem gente que pode tentar, dentro de uma circunstância adversa, absurda e bárbara, preservar a arte."

Para o ator, o tema que se apresenta na peça é constante na história. "Ciclos de extrema direita realçam o que já estava aqui, eles tiram a tampa de coisas que existiam e as pessoas perdem o pudor de assumir esse discurso."

Mas com os casos recentes de desmonte da memória cultural brasileira em investidas contra o Iphan, do incêndio no galpão da Cinemateca e da paralisação de projetos culturais no Brasil, o debate entre os dois personagens parece ganhar ainda mais relevo.

"Com a questão da arte durante a pandemia, e toda essa destruição, a peça foi ganhando outra dimensão", afirma Carvalho. "Tem sido emocionante tocar nesses assuntos agora, com essa direita galopante ocupando os lugares de poder no mundo."

Nessa negociação um tanto erótica entre os dois, a atriz percebe que sua personagem quase empurra Picasso a assumir uma postura política que ele resiste em ter, apesar de seus comentários contundentes à barbárie em obras como "Guernica".

"Ela vai como uma parteira, como uma terapeuta involuntária, fazendo Picasso explodir em posicionamento."

Esse ciclo em que os dois vão se emaranhando parece voltar para o Picasso fictício do começo da peça, que já apresenta o que é possível fazer com a arte mesmo numa ocupação nazista.

Quando Fraulein Fischer apresenta ao pintor um desenho, ele afirma que aqueles traços escuros foram feitos com um fósforo apagado. Às vezes, explica ele, a brasa recém-apagada chega a queimar o papel. Mas o que sobra do fósforo quando ele está apagado é justamente a possibilidade de criação.

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UM PICASSO

Quando De 19/8 a 26/9. De qui. a sáb.: 20h. Dom.: 17h

Onde No Teatro Aliança Francesa - r. General Jardim, 182, Vila Buarque, SP

Preço Ingressos a partir de R$ 20

Classificação 14 anos

Autor Jeffrey Hatcher

Elenco Sergio Mastropasqua e Clara Carvalho

Direção Eduardo Tolentino de Araujo

Duração 80 min.

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